Folha de S. Paulo
A teia densificada pela globalização financeira e pelas cadeias produtivas transnacionais pode domesticar o presidente americano?
Sob o americano há uma inversão do padrão
clássico de captura do Estado por interesses privados; mas não no Brasil
"Onde os costumes são gentis, há comércio; e onde há comércio, os costumes tornam-se gentis." A máxima de Montesquieu forneceu o mote para a análise de Albert Hirschman em "As Paixões e os Interesses": o comércio é "suave" (doux), civiliza os indivíduos e atenua paixões violentas —guerra, fanatismo, tirania. Ao criar laços e dependências recíprocas, os interesses econômicos substituem a violência por troca, contrato e cálculo, promovendo ordem e paz.
A política comercial de Donald Trump nega
essa premissa: combina beligerância e autointeresse explícito, corroendo um
regime baseado em regras e deslocando-o para a lógica da força bruta. Alguns
analistas ainda sustentam que a teia de interdependências —finanças
globalizadas e cadeias transnacionais de valor— tenderia a domesticar líderes
beligerantes. Talvez. Mas arranjos fundados na coerção, e não no consentimento, são
estruturalmente instáveis: mercados valorizam previsibilidade e estabilidade
institucional.
A tese do doux commerce foi um pilar
normativo da ordem liberal e, nos anos 1990, reapareceu sob a tese do "fim
da história": esperava-se que a expansão dos mercados viesse acompanhada
pela difusão da democracia. Duas décadas de onda iliberal recomendam cautela.
Uma leitura alternativa vê parte da beligerância como tática transacional (Taco
—Trump Always Chickens Out; Trump sempre se acovarda, em português): ameaças
retóricas criam assimetria de barganha com governos e grandes empresas.
Em jogos repetidos, porém, o rendimento
marginal dessa estratégia tende a declinar, enquanto seus custos aumentam.
Trump é simultaneamente ator institucional e
celebridade empresarial, e conta com apoios no grande capital —sobretudo entre
big techs. Como observam Levitsky et al, em texto recém-publicado, observa-se aqui a inversão do
padrão clássico de "captura" do Estado por interesses privados:
líderes populistas passam a capturar empresas.
É o caso da Meta,
que mudou em 180 graus sua agenda em relação a temas regulatórios. O fenômeno
não se limita aos EUA; aparece em casos paradigmáticos de retrocesso
democrático, como Hungria e Turquia. O
contexto americano, contudo, é distinto pela ausência de um setor
estatal-extrativo dominante (petróleo, mineração), frequentemente central na
predação populista. Em regimes autoritários como a Rússia,
o padrão é a pilhagem das grandes empresas privadas que ocorreu às claras.
As evidências históricas sugerem que
economias mais diversificadas oferecem maior resistência a projetos iliberais.
Setores empresariais relativamente autônomos do Estado compõem, em muitos
casos, o núcleo duro dessa resistência —e, por isso mesmo, tornam-se alvos
preferenciais de intimidação e violência. Em suma, a promessa civilizadora do
doux commerce tem limites: interdependência e interesse podem moderar paixões,
mas não as anulam quando a arena política é reconfigurada para premiar o
confronto.
Levitsky et al mencionam o papel histórico do
empresariado na democratização brasileira e, mutatis mutandis, algo semelhante
ocorreu frente às iniciativas iliberais de Bolsonaro. No momento, porém,
retornamos ao padrão clássico em que empresas capturam não apenas o governo,
mas também as instituições da República.

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