Correio Braziliense
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney,
foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar.
Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro
impossível
A Europa foi o centro do mundo desde que as grandes navegações começaram a moldar a geopolítica em que vivemos. Portugal e Espanha dividiram o mundo por intermédio do Tratado de Tordesilhas, que não foi reconhecido por franceses, ingleses e holandeses. Uns invadiram os outros e começaram a dividir as áreas de interesse. Ingleses se espalharam pelos continentes e criaram o império onde o sol jamais se punha, com a inclusão da Índia, a joia da Coroa. Faz sentido. O diamante Koh-i-Noor, um dos maiores diamantes lapidados do mundo, originário da Índia, é a peça central da coroa britânica. O diamante pertencente à Índia foi "cedido" à rainha Vitória em 1848.
Os europeus dividiram a África entre si, com
exceção do Congo Belga, que se transformou em posse particular do rei Leopoldo
II. Europeus se espalharam pela África e pelas Américas. No sul, Espanha e
Portugal dividiram o território. No norte, ingleses dominaram as 13 colônias
que se formaram ao longo do Atlântico. Depois, Napoleão vendeu a Louisiana para
os norte-americanos, que, em seguida, compraram a Flórida dos espanhóis, o
Alaska dos russos e invadiram o México para fazer a costa oeste com Califórnia,
Texas, Novo México e outros estados. Surgiu o país chamado Estados Unidos, que
fez a guerra de independência contra a Inglaterra com auxílio bélico efetivo
dos franceses.
Sem falar no processo de colonização da Ásia
e do Oriente Médio, tudo, portanto, começa, na história moderna, pela Europa.
Os europeus brigaram entre si duas vezes no século passado. Da segunda, o mundo
ocidental sobreviveu por causa da efetiva participação dos Estados Unidos.
Evitou a queda da Inglaterra e seu auxílio foi fundamental para auxiliar a
União Soviética superar a máquina de guerra nazista. Não fosse esse auxílio, os
europeus hoje estariam falando alemão.
E, na Ásia, os povos estariam dominados pelo
Japão imperialista. Tudo isso tem preço. Ingleses terminaram de pagar suas
dívidas de guerra com os Estados Unidos em 2006. A China recuperou sua
independência, expulsou os japoneses da Manchúria e, hoje, é uma potência. A
Coreia do Sul, também expulsou os japoneses, e se transformou num tigre
asiático, depois de fazer guerra contra seu vizinho do Norte.
Esse mundo, aparentemente, acabou nesta
semana.
Donald Trump anunciou que cada país que
integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) terá que pagar pela
proteção que Washington oferece ao continente. Acabou o conforto do
guarda-chuva norte-americano. Cada um por si. Lembra o momento quando o russo
Mikhail Gorbachev anunciou aos países que integravam a União Soviética que não
mais teriam a proteção do Exército Vermelho. Eles optaram pela independência e
dissolveram o mundo comunista. Fenômeno semelhante, com sinal trocado, está
acontecendo neste momento. Com o agravante de que Trump quer colocar a
Groenlândia sob domínio dos Estados Unidos. Sonha em ter o Canadá integrado a
seu território. (O Canadá, formalmente, pertence à Comunidade Britânica de
Nações, sua autoridade maior é o rei da Inglaterra).
As consequências diretas são claras: a Otan
aparentemente perdeu o sentido, uma vez que ela foi criada para conter uma
possível invasão dos comunistas. Os comunistas não existem mais, porém Vladimir
Putin insiste em dominar a Ucrânia, o que ameaça os países da Europa Ocidental.
Trump não faz qualquer pressão contra os russos. Prefere que Zelensky, o
ucraniano, faça as concessões para acabar com o conflito. Os europeus estão em
pânico porque não possuem meios e modos para confrontar os norte-americanos. Em
termos bélicos, nem pensar. No capítulo comércio, podem promover algum dano ao
adversário, mas vão sofrer muito mais.
O anunciado tratado entre a União Europeia e
o Mercosul sofreu um abalo. Ele terá que ser examinado por instâncias
judiciais. Os caipiras são reacionários e temem os produtos originários dos
países do sul que são melhores e de menor custo. Eles prejudicam a comunidade
na defesa de seus subsídios. Os norte-americanos que construíram o maior
império da atualidade elegeram um czar para dirigir suas necessidades. Ele
pensa apenas em dinheiro, lucro, investimento e manter o mercado de emprego
ativado dentro de suas fronteiras.
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney,
foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar.
Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro
impossível. O discurso dele foi impressionante. Não reproduzo aqui por falta de
espaço. Ele anunciou que seu país vai dobrar o investimento em defesa, com base
na indústria local, melhorar o ambiente de negócios, reduzir impostos,
incentivar exportações e procurar acordos comerciais com países ou grupos de
países, inclusive o Mercosul. Sem querer, o canadense anunciou excelente
programa de governo para candidatos que pretendem disputar a Presidência no
Brasil, na eleição deste ano.

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