quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

François Maspéro. Por Ivan Alves Filho

Aquela era uma livraria mítica, incrustada no coração do célebre Quartier-Latin de Paris, palco de tantas lutas memoráveis ao longo da História da França e da própria Humanidade. Estou me referindo à Joie de Lire, de François Maspéro

Filho e irmão de resistente antinazista, militante do Partido Comunista Francês (PCF), Maspéro praticamente dominou a cena editorial progressista da França do pós-guerra ao seu falecimento. Mais tarde, romperia com o PCF, passando a professar simpatias pelo movimento trotskista, relativamente forte na França.

O Quartier Latin é uma dessas instituições, eu diria, até, de Paris. Ali se encontra a Universidade Sorbonne, fundada em 1200, fazendo com que, ao longo dos séculos, o bairro se tornasse um ponto de referência para a juventude estudantil. Basta pensar nos protestos de Maio de 1968, quando os jovens rebelados montaram barricadas por todo o Quartier Latin. Também por ali fica o Panthéon, dos Heróis da Pátria, onde se encontram as cinzas de Jean Moulin, o herói da Resistência assassinado sob a tortura. E também o Jardim de Plantas, o Museu de Cluny, de arte medieval, a Escola Politécnica, a Escola das Minas, o Colégio dos Bernardinos, antiga prisão durante a Revolução Francesa. E ainda temos os cafés, os restaurantes, as encantadoras praças. E as ruas, não podemos nos esquecer: na Rue Descartes moraram, por exemplo, Ernest Hemingway e Paul Verlaine. A Rue Mouffetard, a mais antiga da cidade de Paris, serviu de inspiração a Victor Hugo ao escrever Os Miseráveis. Não muito longe dela, temos as Arenas de Lutécia, que remetem à fundação de Paris. O seu belíssimo Jardim de Luxemburgo abriga o Senado francês. Para quem aprecia a arte religiosa, como eu, é imprescindível conhecer a Igreja de Saint-Julien- Le-Pauvre e a gótica Saint-Séverin. Outra famosa livraria do bairro é a Shakeaspeare and Company.

O Quartier Latin mais se assemelha a um território independente. Só falta bandeira e hino.    

A Joie de Lire é parte desse extraordinário conjunto cultural, sensitivo e arquitetônico. A pequena livraria era um lugar onde se respirava total liberdade, servindo de ponto de encontro para jovens de todas as partes do mundo (e aí não vai haver nenhum exagero). Ou Paris não era a capital do mundo nos anos 70? Para além de livros que abriam o debate sobre as questões políticas e sociais da época, tão marcada pela Guerra do Vietnam, a Joie de Lire enfaixava publicações de vários movimentos de libertação em curso no mundo, da ANC de Nelson Mandela à Frente Polisario e desta aos combates de Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique. Na Joie de Lire eu tomei conhecimento pela primeira vez, por exemplo, da luta da Frelimo contra o colonialismo português, por intermédio de boletins regulares daquela agremiação fundada por Eduardo Mondlane e Samora Machel. Mais: conheci autores que marcaram a minha trajetória intelectual, a começar por Frantz Fannon.

A Joie de Lire, espaço sensitivo da minha mocidade, onde volta e meia eu me encontrava com companheiros e amigos como Armênio Guedes e Raul Iaverlberg, foi crucial em minha formação humanística, abrindo os meus olhos para a realidade do mundo.

Além de livreiro e editor excepcional, Maspéro também foi escritor e tradutor. Poucos, muito poucos, encarnaram a segunda metade do século XX como este homem.

François Maspéro morreu de um acidente em sua própria residência, em 2015, aos 83 anos de idade. Exatamente naquele dia, uma concentração de democratas e antifascistas de várias partes do mundo se reunia em Buchenwald, campo de concentração na Turíngia, Alemanha, para homenagear, com um minuto de silêncio, aqueles que tombaram pela liberdade. Entre eles, o seu pai. 

Ivan Alves Filho, historiador

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