quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Juros perto da queda de março. Por Míriam Leitão

O Globo

Como os antibióticos, os juros mantidos na taxa nominal de 15%, por mais tempo do que o necessário, produzem efeitos negativos

O Copom manteve a taxa de juros, mas deu a indicação de que na próxima reunião, a de março, iniciará a “flexibilização da política monetária”. Nas horas que antecederam o encontro de ontem, houve um aumento do percentual de bancos que projetavam o início da queda já na reunião de janeiro. Mesmo assim era um grupo minoritário, 22%. O comunicado do Banco Central registra que manterá a “restrição” para assegurar a convergência da inflação para a meta. O fato é que a taxa já está convergindo e, ao demonstrar tanto medo em reduzir a altíssima Selic, a autoridade monetária só eleva a incerteza. Por isso, é bem-vindo o sinal dado de que os juros começarão a cair em março.

Os dados mais recentes confirmam o quadro favorável na economia. O IPCA-15 em 0,20%, a queda do dólar, o corte no preço da gasolina e a expectativa de uma boa safra vão consolidando o cenário. A política monetária funcionou e venceu a tendência de alta da inflação. Não é o único fator a contribuir para a desinflação, mas uma taxa de juros de 15%, aumentando em termos reais, produz impacto na economia. Desacelera o ritmo de atividade, contém os preços e, como efeito colateral mais adverso, eleva a dívida pública. Como os antibióticos, os juros mantidos na taxa nominal de 15%, por mais tempo do que o necessário, produzem efeitos negativos.

No comunicado de ontem, o BC disse que “a projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, situa-se em 3,2% no cenário de referência”. Como a meta é 3%, um desvio de 0,2 ponto percentual é desprezível. Afinal, a política monetária não é tiro ao alvo, é conduzir as expectativas e a inflação numa determinada direção. E isso o BC já conseguiu.

O texto do comunicado registra, como todos os documentos recentes, que “o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais”. De fato, a incerteza nasce em Washington.

O mundo está vivendo um tempo estranho na economia. Nos últimos dias, acentuou-se o movimento de saída de capital dos Estados Unidos num voo para qualidade às avessas. Os dólares saem não só para os refúgios de sempre, ouro e prata, mas para mercados emergentes. Como resultado, as moedas no mundo inteiro subiram em relação ao dólar e bolsas têm batido recorde.

O que antes era o “safe haven” do mercado financeiro, o dólar e os títulos do Tesouro americano hoje estão abalados pela desconfiança. O presidente Donald Trump desorganizou a economia mundial com uma política tarifária errática, usando tarifas e comércio como arma, aumentando exponencialmente o risco geopolítico.

O dólar caiu mais de 5% neste ano em relação ao real, 5,4% em relação ao peso chileno, 5% em relação à coroa norueguesa, 4,9% diante da coroa sueca, 2,8% em relação ao Iene, 2,4% diante do euro e 2,5% em relação à libra. Essas são algumas das muitas moedas que se fortaleceram frente ao dólar. Ao ser perguntado se achava que a cotação da moeda americana havia caído demais, Donald Trump disse que achava o valor ótimo e que o dólar estava indo muito bem. De um lado isso favorece as exportações americanas, por outro lado, pressiona a inflação. Depois dessa declaração de Trump, a queda se acentuou em alguns países. Circulou a ideia de que era proposital. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, teve que intervir para dizer que a política do dólar forte continua.

Num ambiente de incerteza em que diariamente o presidente do país com a maior economia do mundo se comporta de maneira desconcertante e perturbadora, tudo pode acontecer com os preços dos ativos, inclusive a formação de bolhas. Por isso, as políticas domésticas, monetária e fiscal são tão importantes. Vivemos turbulências causadas pelos Estados Unidos. Aqui dentro precisamos fortalecer a nossa economia. A disparada da bolsa não é indicador de euforia com o Brasil, é resultado de um movimento reativo, provocado por esta saída de capital dos Estados Unidos. A economia do Brasil vai bem, mas a alta de ativos brasileiros tem a ver com o contexto mais amplo do cenário internacional.

 

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