O Globo
Como os antibióticos, os juros mantidos na
taxa nominal de 15%, por mais tempo do que o necessário, produzem efeitos
negativos
O Copom manteve a taxa de juros, mas deu a indicação de que na próxima reunião, a de março, iniciará a “flexibilização da política monetária”. Nas horas que antecederam o encontro de ontem, houve um aumento do percentual de bancos que projetavam o início da queda já na reunião de janeiro. Mesmo assim era um grupo minoritário, 22%. O comunicado do Banco Central registra que manterá a “restrição” para assegurar a convergência da inflação para a meta. O fato é que a taxa já está convergindo e, ao demonstrar tanto medo em reduzir a altíssima Selic, a autoridade monetária só eleva a incerteza. Por isso, é bem-vindo o sinal dado de que os juros começarão a cair em março.
Os dados mais recentes confirmam o quadro
favorável na economia. O IPCA-15 em 0,20%, a queda do dólar, o corte no
preço da gasolina e a expectativa de uma boa safra vão consolidando o cenário.
A política monetária funcionou e venceu a tendência de alta da inflação. Não é
o único fator a contribuir para a desinflação, mas uma taxa de juros de 15%,
aumentando em termos reais, produz impacto na economia. Desacelera o ritmo de
atividade, contém os preços e, como efeito colateral mais adverso, eleva a
dívida pública. Como os antibióticos, os juros mantidos na taxa nominal de 15%,
por mais tempo do que o necessário, produzem efeitos negativos.
No comunicado de ontem, o BC disse que “a
projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual
horizonte relevante da política monetária, situa-se em 3,2% no cenário de referência”.
Como a meta é 3%, um desvio de 0,2 ponto percentual é desprezível. Afinal, a
política monetária não é tiro ao alvo, é conduzir as expectativas e a inflação
numa determinada direção. E isso o BC já conseguiu.
O texto do comunicado registra, como todos os
documentos recentes, que “o ambiente externo ainda se mantém incerto em função
da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos,
com reflexos nas condições financeiras globais”. De fato, a incerteza nasce em
Washington.
O mundo está vivendo um tempo estranho na
economia. Nos últimos dias, acentuou-se o movimento de saída de capital dos
Estados Unidos num voo para qualidade às avessas. Os dólares saem não só para
os refúgios de sempre, ouro e prata, mas para mercados emergentes. Como
resultado, as moedas no mundo inteiro subiram em relação ao dólar e bolsas têm
batido recorde.
O que antes era o “safe haven” do mercado
financeiro, o dólar e os títulos do Tesouro americano hoje estão abalados pela
desconfiança. O presidente Donald Trump desorganizou
a economia mundial com uma política tarifária errática, usando tarifas e
comércio como arma, aumentando exponencialmente o risco geopolítico.
O dólar caiu mais de 5% neste ano em relação
ao real, 5,4% em relação ao peso chileno, 5% em relação à coroa norueguesa,
4,9% diante da coroa sueca, 2,8% em relação ao Iene, 2,4% diante do euro e 2,5%
em relação à libra. Essas são algumas das muitas moedas que se fortaleceram
frente ao dólar. Ao ser perguntado se achava que a cotação da moeda americana
havia caído demais, Donald Trump disse que achava o valor ótimo e que o dólar
estava indo muito bem. De um lado isso favorece as exportações americanas, por
outro lado, pressiona a inflação. Depois dessa declaração de Trump, a queda se
acentuou em alguns países. Circulou a ideia de que era proposital. O secretário
do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, teve que intervir para dizer que a política
do dólar forte continua.
Num ambiente de incerteza em que diariamente
o presidente do país com a maior economia do mundo se comporta de maneira
desconcertante e perturbadora, tudo pode acontecer com os preços dos ativos,
inclusive a formação de bolhas. Por isso, as políticas domésticas, monetária e
fiscal são tão importantes. Vivemos turbulências causadas pelos Estados Unidos.
Aqui dentro precisamos fortalecer a nossa economia. A disparada da bolsa não é
indicador de euforia com o Brasil, é resultado de um movimento reativo,
provocado por esta saída de capital dos Estados Unidos. A economia do Brasil
vai bem, mas a alta de ativos brasileiros tem a ver com o contexto mais amplo
do cenário internacional.

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