Folha de S. Paulo
BC mantém a Selic em 15%, mas 'antevê' corte
de juros na reunião de 18 de março
Para o 'mercado', taxa cairia a 12,25% no
final do ano; para ser assim, BC teria de correr
O Banco Central vai
cortar a Selic na
próxima reunião de política monetária, em 18 de março, depois do Carnaval,
antes da Semana Santa. É o que o BC "antevê", segundo o texto do
comunicado divulgado depois da decisão de
manter a taxa básica de juros em 15% ao ano.
Como o BC foi muito direto e explícito, assim será, a não ser em caso de terremoto na finança americana ou de que algum meteorito de Donald Trump arrebente parte do planeta.
Antes de entrar no debate futebolístico sobre o tamanho dos cortes de juros que virão, convém um comentário político de passagem.
Primeiro, o governo Lula poderá dizer que um
BC independente, que promoveu arrocho violento, teve também liberdade de
anunciar o talho de juros, por causa das condições econômicas favoráveis.
Segundo, a economia ainda
está para sentir mais efeitos do arrocho monetário, com mais desaceleração, ao
menos do PIB.
No entanto, o alívio começou. A esse respeito, pior não fica. O crescimento da
dívida será um tico mais devagar.
Terceiro, a taxa básica de juros deve começar
a cair logo depois de sabermos que a taxa de desemprego está
no menor nível da história de que se tem registro (e caindo até dezembro). Dá o
que pensar, em termos políticos e econômicos.
Agora, virá o que antigamente se chamava de
Fla-Flu e agora é o Flamengo x Palmeiras, no caso a disputa de palpites sobre a
política monetária.
Sobrevirá um comprido e tedioso debate sobre
o tamanho do talho da Selic em março: 0,25 ponto percentual? 0,50? Segundo a
mediana das estimativas de "o mercado", aquela do Boletim Focus, a
Selic baixaria a ainda horríveis 12,25% em dezembro deste 2026. Até o final do
ano, haverá sete reuniões do Copom,
cinco delas até setembro.
A fim de fazer quase todo o serviço previsto
por "o mercado" antes da eleição, seriam necessários cinco cortes de
meio ponto percentual.
A fim de evitar afobações, ao que parece, o
comunicado do BC desta quarta dizia o seguinte: "O compromisso com a meta
impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da
evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para
a inflação no
horizonte relevante para a condução da política monetária".
Pode parecer uma pista de que o BC começaria
devagar (0,25) e que não se sabe em que nível a Selic estará no Natal. Em
parte, o alerta de cautela é óbvio. É também parte do jogo do BC de tourear o
pessoal que de fato opera o dinheiro grosso e define taxas básicas de juros de
prazo mais longo.
Além disso, chamou um tanto a atenção o fato
de o BC ter sido algo mais enfático quanto aos efeitos "geopolíticos"
(Trump e outras desordens) sobre as condições financeiras do Brasil (juros,
dólar, no principal).
Ou pode ser que o BC deixe a moderação nos
cortes para o final do ano?
No mais, as projeções do BC, que levam em
conta as taxas de juros estimadas por "o mercado", são de uma
inflação bem mais comportada do que a mediana das opiniões da praça. O IPCA
ficaria em 3,4% ao final deste 2026 e baixaria a 3,2% no segundo trimestre de
2027 (trata-se do momento em que a política monetária, de juros, estaria
fazendo seu maior efeito, o chamado "horizonte relevante").
No Boletim Focus, a inflação deste ano seria
de 4%; ao final de 2027, de 3,8%. Ou seja, as expectativas ainda estão
"desancoradas", como reconhece o próprio BC (isto é, há algum
descrédito no cumprimento da meta de 3% de inflação).
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