quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O novo Flamengo x Palmeiras do Banco Central. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

BC mantém a Selic em 15%, mas 'antevê' corte de juros na reunião de 18 de março

Para o 'mercado', taxa cairia a 12,25% no final do ano; para ser assim, BC teria de correr

Banco Central vai cortar a Selic na próxima reunião de política monetária, em 18 de março, depois do Carnaval, antes da Semana Santa. É o que o BC "antevê", segundo o texto do comunicado divulgado depois da decisão de manter a taxa básica de juros em 15% ao ano.

Como o BC foi muito direto e explícito, assim será, a não ser em caso de terremoto na finança americana ou de que algum meteorito de Donald Trump arrebente parte do planeta.

Antes de entrar no debate futebolístico sobre o tamanho dos cortes de juros que virão, convém um comentário político de passagem.

Primeiro, o governo Lula poderá dizer que um BC independente, que promoveu arrocho violento, teve também liberdade de anunciar o talho de juros, por causa das condições econômicas favoráveis.

Segundo, a economia ainda está para sentir mais efeitos do arrocho monetário, com mais desaceleração, ao menos do PIB. No entanto, o alívio começou. A esse respeito, pior não fica. O crescimento da dívida será um tico mais devagar.

Terceiro, a taxa básica de juros deve começar a cair logo depois de sabermos que a taxa de desemprego está no menor nível da história de que se tem registro (e caindo até dezembro). Dá o que pensar, em termos políticos e econômicos.

Agora, virá o que antigamente se chamava de Fla-Flu e agora é o Flamengo x Palmeiras, no caso a disputa de palpites sobre a política monetária.

Sobrevirá um comprido e tedioso debate sobre o tamanho do talho da Selic em março: 0,25 ponto percentual? 0,50? Segundo a mediana das estimativas de "o mercado", aquela do Boletim Focus, a Selic baixaria a ainda horríveis 12,25% em dezembro deste 2026. Até o final do ano, haverá sete reuniões do Copom, cinco delas até setembro.

A fim de fazer quase todo o serviço previsto por "o mercado" antes da eleição, seriam necessários cinco cortes de meio ponto percentual.

A fim de evitar afobações, ao que parece, o comunicado do BC desta quarta dizia o seguinte: "O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária".

Pode parecer uma pista de que o BC começaria devagar (0,25) e que não se sabe em que nível a Selic estará no Natal. Em parte, o alerta de cautela é óbvio. É também parte do jogo do BC de tourear o pessoal que de fato opera o dinheiro grosso e define taxas básicas de juros de prazo mais longo.

Além disso, chamou um tanto a atenção o fato de o BC ter sido algo mais enfático quanto aos efeitos "geopolíticos" (Trump e outras desordens) sobre as condições financeiras do Brasil (juros, dólar, no principal).

Ou pode ser que o BC deixe a moderação nos cortes para o final do ano?

No mais, as projeções do BC, que levam em conta as taxas de juros estimadas por "o mercado", são de uma inflação bem mais comportada do que a mediana das opiniões da praça. O IPCA ficaria em 3,4% ao final deste 2026 e baixaria a 3,2% no segundo trimestre de 2027 (trata-se do momento em que a política monetária, de juros, estaria fazendo seu maior efeito, o chamado "horizonte relevante").

No Boletim Focus, a inflação deste ano seria de 4%; ao final de 2027, de 3,8%. Ou seja, as expectativas ainda estão "desancoradas", como reconhece o próprio BC (isto é, há algum descrédito no cumprimento da meta de 3% de inflação).

 

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