O Estado de S. Paulo
Se governo interino colaborar com Trump, as atenções sobre a Venezuela tendem a diminuir
Pode soar contraintuitivo, mas o ocaso de Nicolás Maduro pode ter vindo em boa hora para os planos de reeleição do presidente Lula. Como assim, se Lula e o PT têm uma relação histórica de amizade e conivência com o regime chavista, que esteve sob o comando de Maduro nos últimos 15 anos? Como assim, se o episódio revela a disposição de Donald Trump de usar a lei do mais forte para fazer valer seus interesses externos? As duas premissas são verdadeiras, mas é preciso analisar quais são os riscos reais que elas carregam para o projeto de poder petista.
Os laços entre os governos do PT e a
Venezuela chavista são bem conhecidos. Em seu terceiro mandato, Lula ensaiou
uma reaproximação com o país vizinho, depois do rompimento no período de Michel
Temer e Jair Bolsonaro, mas isso não o impediu de passar vergonha – primeiro ao
receber no Brasil e cobrir de elogios o ditador Maduro, depois ao se oferecer
como fiador de uma eleição cujo resultado fraudulento já se anunciava meses
antes.
Tudo mais constante, a queda de Maduro tira um bode da sala de Lula. Em um cenário em que a presidente interina de Delcy Rodríguez consiga se manter no poder em colaboração com Trump, as atenções sobre a Venezuela tendem a diminuir até o início da campanha presidencial no Brasil. E, se houver um processo de transição política integral na Venezuela, o novo governo vai querer boas relações com o Brasil, apesar de Lula ter virado as costas para a oposição ao chavismo durante anos.
A prisão de Maduro pode trazer à tona
segredos ainda não revelados sobre as tramoias entre o PT e os chavistas? É
possível, mas, por enquanto, isso é apenas especulação. O que se sabe é que, no
campo diplomático e dos interesses comerciais, os laços estreitos do Brasil com
a Venezuela duraram só até o início de 2016, quando os impactos internacionais
da Operação Lava Jato começaram a se fazer sentir. Se houver revelações bombásticas
, a chance maior é que digam respeito àquele período. A oposição vai procurar
reavivar a lembrança dos eleitores sobre essa história, e o PT vai se
apresentar como vítima de uma conspiração do bolsonarismo com os Estados Unidos
para violar a soberania nacional.
Quanto a uma possível interferência de Trump nas eleições brasileiras, esse risco já era evidente antes da deposição de Maduro. Ela pode ocorrer de muitas formas, mas uma ação militar contra o Brasil é a menos provável de todas.

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