Folha de S. Paulo
Desafio do presidente é defender a soberania
da Venezuela sem prejudicar as boas relações com Washington
Ambiguidade de posições não resistirá ao tempo nem aos acontecimentos que exigirão definições claras
Dias de contorcionismo político aguardam o
governo brasileiro neste período que sucede à derrubada de Nicolás
Maduro e a permanência do chavismo na Venezuela sob
a pretendida —e ainda não explicada— administração de Donald Trump.
Ao presidente Luiz Inácio da Silva (PT) e sua equipe se impõe o delicado exercício de equilíbrio entre a defesa da soberania de Estados nacionais, a precaução a respeito do precedente intervencionista sobre a América Latina e a necessidade de preservar as relações entre Brasília e Washington.
Num cenário de incertezas e inconsistências,
reina a incoerência maior como traço de união entre os dois países: o
reconhecimento da vice-presidente Delcy
Rodríguez, companheira de chapa de Maduro na eleição fraudada e por isso
não reconhecida por Brasil e Estados
Unidos.
Na emergência, pode-se argumentar que a
legitimação de Delcy até então dada como ilegítima é o que se tem de mais
próximo da encenação de normalidade conveniente ao momento. Rupturas seriam
batatas quentes difíceis de segurar. Tanto lá como cá.
Os americanos não teriam como sustentar a
lenda da operação pontual para captura de um criminoso e os brasileiros
precisariam substituir as análises teórico/abstratas sobre violação
de normas internacionais por condenação concreta, com nome aos bois.
As manifestações feitas até agora na ONU, no Planalto ou
nas redes digitais não citaram Donald Trump, como se a tropa que entrou
em Caracas para
extrair o ditador atuasse sem comando, por geração espontânea.
Essa ambiguidade não resistirá ao tempo nem
aos acontecimentos, que exigirão definições. O que dirá nosso governo caso a Venezuela se
transforme em colônia americana? Como vai se posicionar se as milícias
chavistas instaurarem uma guerra civil? E se, fruto de acordo
Donald-Delcy, perdurar uma ditadura consentida em troca de bons punhados de
dólares?
São temas que desafiam qualquer equilibrista
a medir com cuidado a distância entre o tombo e a corda bamba.

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