quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Os eixos que balizarão a campanha presidencial. Por Gaudêncio Torquato

Folha de S. Paulo

Segurança pública, economia e polarização política, além de valores sociais e identitários, devem influenciar corrida

Desafio será conquistar o eleitor cansado do conflito, que deseja estabilidade sem renunciar às mudanças

campanha presidencial de 2026 começa a se desenhar muito antes do calendário oficial. Como ocorre em ciclos de alta polarização, os grandes temas do debate público vão se consolidando de forma antecipada, orientados menos por programas detalhados e mais por percepções, medos, expectativas e sentimentos difusos do eleitorado.

Já é possível identificar os principais eixos temáticos que estruturarão a disputa e servirão de referência para estratégias, discursos e narrativas dos candidatos. Entre elas, a avaliação do atual governo e a ideia de continuidade ou ruptura.

O pleito, que terá caráter plebiscitário, deverá avaliar o desempenho do Executivo federal. A situação defenderá avanços sociais, recuperação de políticas públicas e estabilidade institucional. A oposição insistirá nos custos fiscais, na eficiência da gestão e nas promessas não cumpridas. Mais do que dados técnicos, o que estará em jogo é a percepção cotidiana do eleitor: melhora ou piora da vida real nos últimos anos.

O primeiro eixo será a segurança pública, tema que se impôs como uma das maiores angústias nacionais. O avanço do crime organizado, a violência urbana e a sensação de descontrole do Estado alimentam propostas que vão do endurecimento penal ao reforço da inteligência policial e das políticas sociais. Trata-se de um tema transversal, capaz de mobilizar eleitores de diferentes classes e ideologias, e que tende a ser explorado com forte carga emocional.

economia formará o segundo eixo estruturante. Emprego, rendainflação, custo de vida e endividamento das famílias dominarão o debate. Mesmo que indicadores macroeconômicos apresentem algum alívio, o sentimento econômico costuma pesar mais do que estatísticas. O eleitor vota com base no preço do supermercado, na prestação do carro, no aluguel e na sensação de segurança financeira. Nesse campo, discursos sobre responsabilidade fiscal, crescimento sustentável e justiça tributária disputarão espaço.

A polarização política e institucional, citada anteriormente, continuará sendo um eixo central. A disputa não se dará apenas entre projetos de governo, mas entre narrativas sobre democracia, instituições, liberdade de expressão e o papel do Judiciário. A desinformação, o uso estratégico das redes sociais e a retórica de confronto seguirão como instrumentos de mobilização. O desafio será conquistar o eleitor cansado do conflito permanente, que deseja estabilidade sem renunciar às mudanças.

Outro eixo relevante será o dos valores sociais e identitários. Temas ligados à família, à religião, aos costumes, à educação e à identidade nacional voltarão ao centro da arena eleitoral. São pautas capazes de mobilizar afetos profundos e fidelizar segmentos do eleitorado, mesmo quando não se traduzem em políticas públicas concretas. A disputa simbólica e subjetiva, nesse campo, tende a ser intensa.

A juventude e o eleitor flutuante formarão um eixo estratégico à parte. Cresce o contingente de eleitores menos identificados com partidos tradicionais, mais conectados às redes digitais e mais sensíveis a temas como oportunidades, mobilidade social, meio ambiente e qualidade de vida. A linguagem, os formatos e os meios de comunicação serão decisivos para alcançar esse público.

Por fim, ainda que de forma menos ruidosa, o meio ambiente e a inserção internacional do Brasil estarão presentes no debate. A agenda climática, a preservação da amazônia e o papel do país no cenário global funcionam como ativos simbólicos importantes, sobretudo junto a setores urbanos, jovens e ao eleitorado mais escolarizado.

A campanha de 2026, portanto, será marcada pela convergência entre temas estruturais —economia, segurança e governabilidade— e disputas simbólicas intensas, alimentadas pela polarização. Mais do que propostas detalhadas, vencerá quem conseguir traduzir esses eixos em narrativas simples, emocionalmente eficazes e capazes de dialogar com um eleitorado cansado de promessas, mas ainda em busca de esperança.

 

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