O Estado de S. Paulo
A corrupção e os privilégios obscenos no setor público, em todas as esferas, não podem continuar
Passado um ano de política externa de Donald Trump, já temos elementos mais do que suficientes para traçar uma estratégia de como o Brasil deve navegar na nova anarquia internacional. Os EUA passam a concentrar sua energia geopolítica nas Américas. Significa que os países da região precisam dispor de meios dissuasórios para conter intervenções americanas, que combinam pressão econômica e ameaça militar. Trata-se de elevar o custo dessas imposições para assegurar estabilidade e autonomia.
O Brasil precisa exibir sólidos fundamentos
econômicos para fazer frente às turbulências que sanções comerciais e
financeiras, impostas a nós ou a outros países, podem ocasionar. A gestão
precisa melhorar e a questão fiscal, ser equacionada, de modo a aumentar a
atratividade dos títulos brasileiros mesmo com redução de juros e a dar
recursos para o Estado cumprir seus papéis.
As medidas listadas aqui soam como
necessidades crônicas, porque a superação das fragilidades econômicas e de
segurança de um país exige arrumar a casa. O mesmo debate, com nuances, ocorre
na Europa, Canadá, Índia, Japão, Coreia do Sul, Austrália.
O acordo Mercosul-União Europeia é um
incentivo para investirmos na competitividade da indústria, reformarmos o
ambiente de negócios e baixarmos as barreiras comerciais. A segurança nacional
vive uma emergência. A inteligência, nos âmbitos da Abin, Polícia Federal e
Ministérios Públicos federal e de alguns Estados, tem se aprimorado. Mas vamos
continuar enxugando gelo se a corrupção nas polícias e no Judiciário não for
atacada.
Do orçamento de R$ 142 bilhões da Defesa, em
2025, R$ 33 bilhões foram para salários, R$ 37 bilhões para aposentadorias e R$
28 bilhões para pensões. O que as viúvas e filhas de militares receberam em um
ano é quase o mesmo valor que a Defesa pretende gastar em cinco anos com
modernização: R$ 3o bilhões. A folha de pagamento responde por 77% do
orçamento. Nos EUA, essa fatia é de 22%.
A corrupção e os privilégios obscenos no
setor público, em todas as esferas, não podem continuar. A imprensa, em
especial o Estadão, tem feito um trabalho corajoso de expor os abusos. A
vergonha pública não parece servir mais de contenção. Então, os eleitores
precisam se mobilizar para garantir que os políticos coniventes com a drenagem
dos recursos sejam castigados nas urnas. Se não nos organizarmos, estamos
fadados a dois destinos igualmente sombrios: entrar em embates autodestrutivos
com os EUA ou nos tornarmos subservientes, como a Argentina de Javier Milei e o
Paraguai de Santiago Peña.

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