O Estado de S. Paulo
O mundo não precisa de um imperador, muito menos de um imperador acima das leis e inconformado por nunca ter recebido o Prêmio Nobel da Paz
Nem o Vaticano escapou da tentativa de Trump de formalizar uma nova ordem mundial com sede em Washington, ou, mais precisamente, na Casa Branca. O presidente americano aproveitou a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, para apresentar seu Conselho da Paz, um projeto liderado por ele, representante da maior potência econômica e militar, e destinado, inicialmente, a levar alguma ordem à Faixa de Gaza. Convidou governantes a participar do grupo. Alguns logo aceitaram o convite. Os do Brasil, e de alguns países desenvolvidos, indicaram a intenção de estudar o assunto. A diplomacia do Vaticano também foi cautelosa, mas deixou logo clara a recusa de participar da ocupação de Gaza.
Trump também recuou parcialmente. Admitiu
trabalhar com a Organização das Nações Unidas (ONU), depois de haver insinuado
a intenção de substituí-la pelo seu conselho, e amaciou o discurso a respeito
da Groenlândia. Não renegou, no entanto, a intenção de comprá-la, nem as
afirmações sobre a importância estratégica da ilha controlada pela Dinamarca.
Além disso, reafirmou a superior capacidade americana de defendê-la contra
potências antiocidentais. Mas prometeu evitar o uso da força e tornou-se mais
diplomático em relação à Europa e à Organização do Tratado do Atlântico Norte
(Otan).
Embora tenha tentado, em alguns momentos, ser
menos agressivo, Trump jamais conseguiu disfarçar a ambição de uma liderança
global acima de padrões acordados em instituições multilaterais. Converteu o
Fórum Econômico Mundial em palanque de seu poder e de suas pretensões.
Menosprezando a condição formal do fórum, respeitada tradicionalmente, durante
décadas, por diplomatas, políticos, empresários, técnicos e autoridades de todo
o mundo e de variadas colorações políticas.
Jornalistas veteranos na cobertura de Davos
poderiam lembrar civilizadas entrevistas concedidas por líderes de regimes
autoritários. Em algumas ocasiões, esses líderes fingiam dificuldades com a
língua inglesa e recorriam a intérpretes para traduzir perguntas e respostas,
ganhando tempo para formular suas declarações. Ao enfrentar entrevistas com
repórteres de todo o mundo, esses líderes aceitavam um jogo típico das
democracias, ajustavam-se aos padrões de Davos e ganhavam um canal de
comunicação internacional.
O fórum de Davos sempre foi – e certamente
continua a ser – muito mais do que um local de conferências, debates e
informação técnica. É um centro importante de contatos para empresários,
políticos, autoridades, economistas, especialistas de setores diversos,
artistas e representantes de atividades culturais. Tem sido um lugar onde muros
e fronteiras podem ser esquecidos ou minimizados por alguns dias.
Ausente este ano, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva é um veterano frequentador desse mundo, onde ganhou visibilidade
internacional em seus primeiros anos como governante. Não se limitava, nesse
tempo, a bater ponto nas sessões do fórum. Promovia eventos paralelos, como
entrevistas e jantares, e ampliava, dessa forma, seu acesso aos debates e ao
noticiário econômico e político da imprensa internacional, mesmo precisando de
intérpretes.
Ir ao fórum de Davos e a outros eventos no
exterior pode ser muito mais do que turismo, pausa no dia a dia ou exibição de
importância. Alguns cidadãos parecem, no entanto, incapazes de entender o
potencial construtivo desses encontros. Para algumas autoridades americanas,
encontros multilaterais podem ser simplesmente mais uma ocasião de proclamar
seu poder e a liderança de seu país. Esse parece o caso de Trump e de alguns de
seus assessores. Não surpreende o presidente americano haver usado o Fórum
Econômico Mundial como palanque para criticar a ONU, falar da Europa como um
continente mal encaminhado e reafirmar suas pretensões de poder internacional.
Apesar de algum esforço ocasional de
autocontenção, Trump é incapaz de se apresentar, regularmente, como um
governante limitado pelo Direito Internacional e pelas normas de coexistência
de nações soberanas. Sua referência quase desdenhosa à ONU, durante o
pronunciamento em Davos, combina com o desprezo manifestado, em tantas
ocasiões, a entidades e regras multilaterais. Ele já retirou seu país da
Organização Mundial da Saúde, tem desprezado sem disfarce a Organização Mundial
do Comércio (OMC) e renegou de forma ostensiva outros compromissos
internacionais. Para que tantos compromissos custosos e nada lucrativos para os
Estados Unidos ou para seu presidente?
Mas o mundo precisa de regras, de padrões
civilizados de coexistência, de cooperação e de ajuda às populações menos
desenvolvidas. Não precisa de um imperador, muito menos de um imperador acima
das leis e inconformado por nunca ter recebido o Prêmio Nobel da Paz –
frustração apresentada ao governo da Noruega –, patrocinador do prêmio, mas
formalmente sem influência na escolha do ganhador. No entanto, o presidente
americano tem admiradores, dentro e fora de seu país, e talvez seja
homenageado, um dia desses, com um tango patrocinado por um de seus fãs.

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