sábado, 17 de janeiro de 2026

O agente secreto. Por Eduardo Affonso

O Globo

Não é possível um governo que condenou com veemência o ataque a instalações nucleares apenas “acompanhar com preocupação” a chacina de milhares

Não é segredo que, contrariando o que declarou na campanha de 2022, Lula se candidatará a um quarto mandato. Secretas tampouco devem ser suas novas promessas — certamente as mesmas descumpridas desde que subiu a rampa, escoltado por um indígena, uma catadora, um afrodescendente, um portador de deficiência, uma cozinheira, um metalúrgico, um professor, um artesão e uma cachorra sem raça ou ideologia definidas.

Deve insistir na regulação das big techs (consequentemente, das redes sociais), o que ajudará a evitar a disseminação de conteúdo falso (como suas fotos com shape de fisiculturista e a reposição do dedo amputado). Garantirá que, na quarta tentativa de erradicar a fome, todo brasileiro terá, enfim, três refeições diárias — sem dúvida, graças à agricultura orgânica familiar do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Sim, o mesmo MST que, após mais de 16 anos de PT, continua sem um minifúndio subprodutivo para chamar de seu.

Também há de acenar com a universalização do acesso à água e à luz (talvez um Kit Garrafão e um Vale-Vela, nos moldes do Auxílio-Gás). E com a criação do Ministério da Segurança Pública — como se sabe, ter ministérios do Turismo, das Mulheres, da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos e dos Povos Indígenas transformou o Brasil numa daquelas ilustrações do paraíso terrestre que vemos nos folhetos das Testemunhas de Jeová.

Além da jornada 6 x 1, o novo governo poderá oferecer investimentos baseados na Lei Rouanet: cada real aplicado renderia R$ 7,59 — e quem garante é a FGV. Nem CDB do Banco Master era tão vantajoso.

Mas o que pode decidir a segunda reeleição é a renovação do propósito de extinguir o orçamento secreto (aquele que acabou, mas ainda tem) e o famigerado sigilo de cem anos. Neste caso, é só dar replay no discurso de 2022:

— Não haverá sigilo nas contas públicas. Não haverá sigilo de cem anos, nem de dez anos, nem de um dia. E o Portal da Transparência voltará a funcionar, e a Lei de Acesso à Informação será cumprida.

Esqueçamos que, nos últimos três anos, um de cada três pedidos via Lei de Acesso foi negado. Não é mesmo preciso saber o montante dos gastos no cartão corporativo, que uso tem tido o helicóptero presidencial, o valor do contrato de aluguel do barco onde o presidente se hospedou durante a COP30, quem visitou a primeira-dama, quantas vezes os primeiros-filhos estiveram no Palácio do Planalto. Nem se há conflito de interesses na gestão do ministro de Minas e Energia, ou que militares do Batalhão de Guarda Presidencial trabalhavam no fatídico 8 de Janeiro.

Assim como as cartas trocadas com Putin, igualmente secretas parecem ser as manifestações de repúdio ao massacre de iranianos pelo regime dos aiatolás. Tudo bem que tenhamos um baita superávit comercial com os financiadores do terrorismo internacional e que os misóginos teocratas sejam nossos parças no Brics, mas não é possível que um governo que condena com veemência o ataque americano a instalações nucleares apenas “acompanhe com preocupação” a chacina de milhares de cidadãos que clamam por liberdade.

Enquanto isso, Dias Toffoli (ex-advogado do PT, hoje ministro do STF) impõe sigilo máximo a processo envolvendo Daniel Vorcaro e a fraude bilionária no Banco Master.

Esqueçam Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho. Temos agentes secretos bem melhores — e sem necessidade de ditadura.

 

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