O Globo
Não é possível um governo que condenou com
veemência o ataque a instalações nucleares apenas “acompanhar com preocupação”
a chacina de milhares
Não é segredo que, contrariando o que declarou na campanha de 2022, Lula se candidatará a um quarto mandato. Secretas tampouco devem ser suas novas promessas — certamente as mesmas descumpridas desde que subiu a rampa, escoltado por um indígena, uma catadora, um afrodescendente, um portador de deficiência, uma cozinheira, um metalúrgico, um professor, um artesão e uma cachorra sem raça ou ideologia definidas.
Deve insistir na regulação das big techs
(consequentemente, das redes sociais), o que ajudará a evitar a disseminação de
conteúdo falso (como suas fotos com shape de fisiculturista e a reposição do
dedo amputado). Garantirá que, na quarta tentativa de erradicar a fome, todo
brasileiro terá, enfim, três refeições diárias — sem dúvida, graças à
agricultura orgânica familiar do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
Sim, o mesmo MST que,
após mais de 16 anos de PT,
continua sem um minifúndio subprodutivo para chamar de seu.
Também há de acenar com a universalização do
acesso à água e à luz (talvez um Kit Garrafão e um Vale-Vela, nos moldes do
Auxílio-Gás). E com a criação do Ministério da Segurança Pública — como se
sabe, ter ministérios do Turismo, das Mulheres, da Igualdade Racial, dos
Direitos Humanos e dos Povos Indígenas transformou o Brasil numa daquelas
ilustrações do paraíso terrestre que vemos nos folhetos das Testemunhas de
Jeová.
Além da jornada 6 x 1, o novo governo poderá
oferecer investimentos baseados na Lei Rouanet: cada real aplicado renderia R$
7,59 — e quem garante é a FGV. Nem CDB do Banco Master era
tão vantajoso.
Mas o que pode decidir a segunda reeleição é
a renovação do propósito de extinguir o orçamento secreto (aquele que acabou,
mas ainda tem) e o famigerado sigilo de cem anos. Neste caso, é só dar replay
no discurso de 2022:
— Não haverá sigilo nas contas públicas. Não
haverá sigilo de cem anos, nem de dez anos, nem de um dia. E o Portal da
Transparência voltará a funcionar, e a Lei de Acesso à Informação será
cumprida.
Esqueçamos que, nos últimos três anos, um de
cada três pedidos via Lei de Acesso foi negado. Não é mesmo preciso saber o
montante dos gastos no cartão corporativo, que uso tem tido o helicóptero
presidencial, o valor do contrato de aluguel do barco onde o presidente se
hospedou durante a COP30, quem visitou a primeira-dama, quantas vezes os primeiros-filhos
estiveram no Palácio do Planalto. Nem se há conflito de interesses na gestão do
ministro de Minas e Energia, ou que militares do Batalhão de Guarda
Presidencial trabalhavam no fatídico 8 de Janeiro.
Assim como as cartas trocadas com Putin,
igualmente secretas parecem ser as manifestações de repúdio ao massacre de
iranianos pelo regime dos aiatolás. Tudo bem que tenhamos um baita superávit
comercial com os financiadores do terrorismo internacional e que os misóginos
teocratas sejam nossos parças no Brics,
mas não é possível que um governo que condena com veemência o ataque americano
a instalações nucleares apenas “acompanhe com preocupação” a chacina de
milhares de cidadãos que clamam por liberdade.
Enquanto isso, Dias
Toffoli (ex-advogado do PT, hoje ministro do STF)
impõe sigilo máximo a processo envolvendo Daniel
Vorcaro e a fraude bilionária no Banco Master.
Esqueçam Wagner
Moura e Kleber
Mendonça Filho. Temos agentes secretos bem melhores — e sem necessidade de
ditadura.

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