O Estado de S. Paulo
A democracia que conhecemos, por pior que seja em dezenas de países, não é uma reles caixinha de papelão
Com um tresloucado na Casa Branca e as duas
outras principais potências tendo chefes de Estado com robustas credenciais
totalitárias, não estranha que praticamente todo dia intelectuais e jornalistas
anunciem o fim do regime democrático representativo.
Qualquer dos três – Trump, Putin e Xi Jinping – dispõe de mísseis nucleares suficientes para espatifar o planeta e deixar 1 trilhão de caquinhos voando eternamente pelo universo. Com um milésimo do que qualquer deles dispõe, a bomba lançada sobre Hiroshima em 1945 pulverizou, fez desaparecer instantaneamente, cerca de 50 mil pessoas, o mesmo fez a outra, lançada sobre Nagasaki. Havia uma terceira cidade nos planos, mas a bomba reservada para ela não foi lançada devido ao mau tempo. Reparem que empreguei o verbo “lançar”. Foi literalmente isso o que aconteceu: lançadas em caixas (suponho que de ferro) pelas janelas dos aviões.
Convenhamos, então, que alguma razão assiste
aos intelectuais e jornalistas que diariamente anunciam o dia do juízo final.
Com chefes de Estado como os três que mencionei, é plausível supor que os dias
da democracia – e de todos os demais regimes – estejam contados. Deixo de lado
Cuba, que não possui armas nucleares, e porque não sei quanto tempo ela
conseguirá se manter à tona, antes de afundar por completo.
Mas vamos com calma. A democracia que
conhecemos, por pior que seja em dezenas de países, não é uma reles caixinha de
papelão. Nada sugere que, sem ela, o mundo se torne fácil de governar.
Sobre os Estados Unidos, parece que nos
deixamos enganar durante dois séculos. Sob Donald Trump, a sociedade americana
decididamente não é a democracia “exemplar” que sempre nos pareceu ser.
Contando a partir de Abraham Lincoln, foram quatro presidentes assassinados no
exercício do mandato e a eles é necessário acrescentar Martin Luther King, o
líder da luta pelos direitos civis, e Robert Kennedy, procurador-geral da
República e candidato à Presidência, assassinado no saguão de um hotel de Los
Angeles em 1968. É certo que os Estados Unidos, mesmo sob Trump, não são uma
monstruosidade totalitária como a Rússia de Vladimir Putin e muito menos uma
China como a de Jinping, que, segundo consta, gasta US$ 200 bilhões por ano com
uma política secreta cuja única função é vigiar os cidadãos, um por um, full
time.
No caso da China, é mister acrescentar que,
diariamente, ela tem de pôr algo como 3,9 milhões de refeições nas mesas das
famílias, sendo, pois, forçada a comerciar em bases normais com dezenas de
países. Pior ainda, tem que manter quase metade de sua população confinada ao
interior, em pequenas cidades ou conglomerados rurais, com pouquíssimo acesso
às grandes cidades. Ou seja, o que entre nós se chama direito de ir e vir, ou
de escolher (nos limites de nossa renda) onde desejamos residir, para uma grande
parte dos chineses é uma aspiração distante. Sem esquecer que o país ainda não
dispõe de um sistema abrangente de saúde e previdência. Eis, portanto, a
questão: até quando uma tal situação será sustentável?
Pensar numa China democrática, segundo o
entendimento ocidental desse termo, parece querer demais, mas imaginar que ela
permanecerá como é hoje, ad aeternum, também é muito difícil.
Lembremos que de democracia, no estrito
sentido da expressão – o poder nas mãos do povo –, só conhecemos um exemplo: os
primeiros cinco séculos da antiguidade romana. Vale dizer, a República Romana.
Ali, sim, os tribunos da plebe impediram a concentração do poder até o advento
de Otávio, que não aceitou ser designado como rei ou imperador, mas apenas como
princeps, ou seja, o primeiro entre pares, e como Augusto, título honorífico.
Todos os outros sistemas políticos que
modernamente designamos como democracias são, por conseguinte, poliarquias,
termo proposto pelo cientista político Robert Dahl, que alude a múltiplos polos
de poder. Poliarquias são muito menos do que muitos sonhadores desejariam, mas
não despendem US$ 200 bilhões com polícias secretas e não se valem dos meios de
comunicação para o controle ideológico em larga escala. A investidura de
cidadãos em posições oficiais de poder se faz mediante eleições periódicas, em
geral limpas e livres – não sem exceções, ça va sans dire.
Se a República romana cedeu lugar ao Império
e esse aos mil anos da Idade Média, que por sua vez passou pelos vários séculos
do absolutismo até que as modernas poliarquias se configurassem, devemos também
admitir que um dia autocratas como Putin e Jinping sejam substituídos por
figuras mais moderadas. O purgatório, embora horrível, deve ser um pouco melhor
do que o inferno.
Mesmo o nosso brasileiríssimo purgatório –
com os Três Poderes, que precisam ser independentes entre si, mas harmônicos; a
casta dos juízes, que deveria ser o grande exemplo – mas abocanham vencimentos
bem mais altos do que o estipulado em lei –; e nossas estatais, indecisas entre
a incompetência e a corrupção –, ainda deixa abertas algumas frestas de
esperança.

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