quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Brasil ante o caos mundial. Por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Especialistas vaticinaram um período de grande volatilidade nas relações entre países

Existem estados intermediários, como o Brasil, com aspirações internacionais próprias

Não há como exagerar a capacidade de Donald Trump para espalhar a destruição dentro e fora das fronteiras dos EUA. Tampouco cabe subestimar a disposição e os recursos com os quais conta para investir contra a democracia em seu país e contra as regras que tratam de conter o uso da força bruta nas relações internacionais.

Onde tudo isso vai dar ninguém sabe ao certo e a experiência passada não ajuda lá essas coisas. O mundo de hoje é mais conectado pelo comércio, investimentos, finanças, as comunicações e o movimento de pessoas.

Entre as nações muito poderosas e aquelas para as quais a soberania é pouco mais do que ficção, existem países intermediários com aspirações internacionais próprias e alguns trunfos para persegui-las. Em suma, o mundo de hoje tem pouco a ver com aquele que assistiu à expansão imperialista entre os séculos 19 e 20 ou, mesmo, com a divisão de áreas de influência de grandes potências, definidas pelos confrontos da Guerra Fria.

Recentemente, o New York Times perguntou a cinco especialistas em assuntos internacionais para onde acreditavam que o mundo caminhava. As respostas foram publicadas em uma seção de opinião especial sob o título "O mundo está em caos. O que vem a seguir?".

Com argumentos diversos, os cinco entrevistados vaticinaram um período de grande volatilidade nas relações entre países; de falta de um mínimo de previsibilidade; e, em consequência, de riscos de conflitos que fujam ao controle das nações que os iniciem.

Aqui destaco três autores e ideias especialmente relevantes para as decisões de política externa do Brasil. Adam Tooze, historiador da Universidade Columbia, enfatiza que a competição entre países será balizada pelo modo como sejam capazes de construir poder a partir do domínio da tecnologia e das formas variadas de produção de energia.

Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, não crê possível um concerto estável entre nações nem divisão nítida de esferas de influência. Profetiza, antes, um embate duro e constante nos quais hierarquias e limites que as grandes potências tentarão impor estarão sempre sujeitos a contestação.

Finalmente, a veterana historiadora Margaret MacMillan, da Universidade de Oxford, chama a atenção para a discrepância entre a complexidade dos desafios e a qualidade —baixíssima— da atual fornada de líderes mundiais.

Se esses autores têm razão, mais do que nunca a solidez da política externa brasileira dependerá de decisões de política doméstica sobre exploração de recursos minerais; sobre a nossa já diversificada matriz energética e sobre qual a política tecnológica possível, dados os recursos disponíveis. De mais a mais, necessitará de sintonia fina e inteligência diplomática para, em cada momento, decidir de que lado estão nossos melhores interesses; com quem negociar; com quem se aliar; e em torno de quais objetivos.

Para tanto, não podem faltar às lideranças políticas um mínimo de noção do que o Brasil quer neste conturbado mundo; de pragmatismo para fugir das armadilhas da polarização política interna; e de disposição para aprender com nossa diplomacia profissional. Nenhuma dessas qualidades parece disponível entre os líderes da direita bolsonarista.

 

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