segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O carro usado de Toffoli. Por Miguel de Almeida

O Globo

Ele nunca desfrutou os momentos heroicos protagonizados por Xandão

Por vezes, no meu travesseiro, sou atormentado pela dúvida: no mercado, qual seria o deságio para desembaraçar os produtos vendidos por Toffoli? É do jogo: quando seu nome perde confiança, nada o salva. O ostracismo de Toffoli encontra na fase complicada de Xandão um ombro amigo. Os dois se protegem mutuamente e trocam passes. Mas Toffoli nunca desfrutou os momentos heroicos protagonizados por Xandão. Longe disso: sempre foi visto como um encostado do PT, premiado pela amizade com José Dirceu e por serviços prestados ao partido. Sem brilho intelectual ou de retórica. Como seu time do coração, o Palmeiras, não tem o Mundial entre as sumidades do Direito.

Fora o currículo nada sestroso na área, notabilizou-se ainda por devolver dinheiro àqueles que haviam se declarado culpados e por enterrar a Lava-Jato, dando como inocentes os que tinham admitido seus crimes. Se fosse romancista policial, Toffoli inverteria a lógica do gênero: transformaria vilões confessos em inocentes, mesmo com os cadáveres já localizados. Raymond Chandler, mestre do noir, também deixava assassinatos sem solução — mas nele tratava-se de esquecimento etílico, não de projeto jurídico.

Toffoli deixa a interpretação de seus arremates jurídicos como obra aberta. Cada contribuinte é chamado a palpitar com sugestões que vão do despreparo à inapetência para o cargo. Ocupa hoje no imaginário popular o espaço deixado por Marco Aurélio de Mello, aquele que soltou um estuprador de uma garota de 12 anos. Existe o legal e o ético, mas aí seria pedir muita sofisticação ao arraigado patrimonialismo tupiniquim.

Xandão, assim chamado carinhosamente por quem o compreende como defensor da democracia, mérito que ninguém lhe roubará, personifica o mau roteirista que é o Brasil. Onde os mocinhos de repente se mostram vilões. Algo que não aceitaríamos numa produção profissional, mas é comum no amadorismo de nossa vida política, jurídica e legislativa. O arroz com feijão nos salva.

Aconteceu assim com o juiz Sergio Moro. Por tempos visto como alguém resoluto, um brasileiro de estirpe, até ser desmascarado em seus truques de flanelinha de calçadão. Ou Aécio Neves, antes pintado como garotão mineiro, mas flagrado pedindo uns trocados. Hoje são duas almas penadas, figuras cujas trajetórias, num roteiro sério, seriam rejeitadas por incongruentes.

Não é novidade. Ocorre que, no Brasil, prospera o brasileirinho esperto, manhoso, como os personagens dos saudosos João Antônio e Plínio Marcos. Infelizmente, estamos mais para Fernando Collor e Paulo Maluf que para Fernando Henrique Cardoso.

Abatidos pela inanidade e soberba, em diferentes graus, Toffoli e Xandão poderiam corrigir as aparências públicas caso apoiassem a proposta do presidente do STF, Edson Fachin, da criação de um código de conduta. Até o momento em que escrevo, nenhum ministro da Corte veio ao proscênio defendendo a medida. Pelo contrário. Rumores de bastidores atestam que muitos deles seriam contrários. Entre eles, Xandão, Toffoli e Gilmar Mendes.

Ainda no meu travesseiro, eu perguntaria: por que ser contra um código de conduta? Quem teme um manual civilizado de postura altiva? De se mostrar à altura do maior cargo do Judiciário brasileiro? Não é estranho? Os fatos recentes talvez sugiram alguma explicação. Não querem abandonar: 1) Viagens internacionais?; 2) Jantares cinco estrelas em Nova York?; 3) Hotéis luxuosos?; e 4) Caronas em jatinhos particulares?

No momento, o protagonista seria Edson Fachin em sua cruzada por um código de conduta. Ele é discreto, parcimonioso em seus atos, até me parece alguém tímido. Mas tem uma arma: a TV Justiça. Sugiro a ele um golpe midiático: votação de sua medida ao vivo e em cores no plenário da Corte. Para sabermos quem é contra ou a favor das regalias hoje à mostra. Com close durante os votos de cada ministro. O cidadão brasileiro merece essa gentileza dos deuses.

Um homem de bem

Morreu Raul Jungmann. Sereno, educado, bem-informado, oferecia conhecimento em suas intervenções. Ao contrário da grande maioria dos políticos, não agia por voluntarismo ou rompantes histéricos. Era gentil. Nos últimos anos, me ajudou com informações na construção de um roteiro sobre a pouco falada Revolução de 1924, prenúncio de 1930, com a indicação de fontes militares e leituras obrigatórias. Gostava de nossas conversas sobre Joaquim Nabuco, seu conterrâneo e um estadista formado no Segundo Império. Jungmann, como Nabuco em seu tempo, era figura intelectual rara na política brasileira.

 

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