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Quando ocorre uma ruptura dos nexos monetários, a reconstrução exige impedir a desvalorização brutal da riqueza
O noticiário a respeito do Banco Master tem
frequentado com assiduidade os ambientes da mídia. As notícias veiculadas nos
meios de comunicação podem sugerir aos leitores e telespectadores que o
episódio Master se refere apenas a um banco em particular.
A liquidação extrajudicial executada pelo Banco Central pretendeu evitar uma grave deterioração do ambiente de confiança e pode ser interpretada de diferentes maneiras, mas o efeito mais imediato e perigoso é evitar o risco de desestabilização do sistema financeiro.
São muitos os analistas que descartam esse
risco, argumentando que o Master é um banco de pequeno porte. Sim, é um banco
de pequeno porte, mas com potencial de minar a confiança no sistema financeiro.
O detonante da crise subprime de 2008/2009 nos Estados Unidos foi o Lehman
Brothers, um banco pequeno que espalhou desconfiança sobre as práticas dos
bancos comerciais e dos bancos-sombra (shadow banks) do sistema financeiro
norte-americano.
Nos anos 90, Goldman Sachs, Merrill Lynch,
Bear Stearns, Lehman Brothers, Morgan Stanley, JP Morgan et caterva desfilavam
sua sabedoria e ofereciam seus aconselhamentos ao mundo embevecido. Quando
sobreveio a tormenta, o Tesouro e o Federal Reserve despejaram dólares a
mancheias para salvar alguns façanhudos das próprias imprudências. O Bear
Stearns foi adquirido pelo JP Morgan com grana subsidiada pelo Federal Reserve.
Aqueles que tiveram a oportunidade de
assistir à façanha cinematográfica de Adam McKay, A Grande Aposta (The Big
Short), poderão compreender como a ambição desmedida do sistema financeiro se
converte em uma pirâmide de apostas simultâneas na valorização e na
desvalorização da riqueza mobiliária.
Sendo assim, seria conveniente resgatar o
conceito de risco sistêmico, um fenômeno presente em todas as etapas de evolução
dos sistemas financeiros.
Risco sistêmico pode ser definido como a
possibilidade latente – desconhecida pelos participantes do mercado ou contra a
qual eles não se protegeram – de que um evento ocorra, levando a economia a um
equilíbrio socialmente ineficiente.
O risco sistêmico refere-se à possibilidade
de a falência de uma instituição financeira prejudicar gravemente, ou mesmo
causar a falência, de outras instituições. Se esse contágio se espalhar, poderá
afetar gravemente a economia como um todo.
Gerada nos bancos e nas demais instituições
financeiras dos Estados Unidos, a crise do subprime poderia soar um sinal de
alerta para as autoridades incumbidas de manter a estabilidade da economia.
Vamos nos valer de uma citação do ex-chairman
do Federal Reserve Alan Greenspan: “O risco sistêmico é quase exclusivamente
um fenômeno das instituições financeiras. A inadimplência de grandes
instituições pode desmantelar o sistema financeiro e com ele o resto da
economia, devido às múltiplas e intricadas relações entre a finança e a
atividade econômica… Os riscos gerados por empresas não financeiras –
independentemente de seu tamanho – ficam restritos aos seus credores,
fornecedores e clientes. Raramente têm impacto mais amplo”.
Ben Bernanke, outro ex-chairman do Federal
Reserve, reconheceu que a crise de 2007/2008, iniciada nos mercados
hipotecários, despertou os neurônios das autoridades reguladoras para as
questões que envolvem o conjunto das instituições financeiras. “No sistema
atual de regulação, as autoridades frequentemente se ocupam de cada instituição
isoladamente.” Bernanke recomenda maior ênfase na chamada regulação sistêmica,
dita “macroprudencial”.
No livro Apagando o Fogo, Ben Bernanke,
Henry Paulson e Timothy Geithner afirmam que, nos Estados Unidos, as
intervenções do governo provocaram uma reação pública negativa muito forte. O
Congresso norte-americano cuidou de limitar a capacidade do Federal Reserve de
reagir à próxima crise, retirando poderes importantes dos gestores de crises,
na esperança de evitar que o Banco Central norte-americano possa se envolver em
resgates futuros das instituições financeiras.
Na realidade, é provável que essas
limitações, embora bem-intencionadas, piorem a próxima crise e o dano econômico
resultante seja mais grave. A crença de que a legislação que pretende proibir
os socorros os impedirá em todos os cenários futuros é uma ilusão poderosa, e
perigosa.
Trata-se não só de reduzir a dispersão das
atribuições entre as agências encarregadas da supervisão e regulação, mas também
de ampliar o raio de atuação dos Bancos Centrais com o propósito de “tomar em
consideração os potenciais riscos e fragilidades sistêmicas”.
O Lehman Brothers era pequeno, mas espalhou
desconfiança sobre as práticas dos bancos dos EUA
A concentração de riscos, diz o ex-chairman
do Federal Reserve, pode ser aceitável numa única instituição, mas torna-se
perigosa quando se espalha por muitas instituições simultaneamente. Foi o que
aconteceu com a concessão e a securitização dos créditos hipotecários: a pretexto
de diversificar os riscos individuais, os bancos e demais instituições
disseminaram o risco pelo conjunto do sistema.
As preocupações sistêmicas estiveram no
centro de muitas decisões recentes de políticas públicas. Bernanke explicou
recentemente: “Nossas análises nos persuadiram de que permitir que o Bear
Stearns falisse tão abruptamente, em um momento em que os mercados financeiros
já estavam sob considerável estresse, provavelmente teria implicações
extremamente adversas para o sistema financeiro e para a economia em geral”.
Quando ocorre uma ruptura dos nexos
monetários, como a observada agora no episódio do Master, a reconstrução exige
coordenação centralizada para impedir a desvalorização brutal da riqueza: a
derrocada invade as Bolsas de Valores e envereda pelos mercados incumbidos de
avaliar os ativos de dívidas que lastreiam as aplicações dos ricos, remediados
e pobres. É uma totalidade, um transatlântico que vai afogar os de cima e os
que estão embaixo.
Os Bancos Centrais – enquanto mediadores
entre o poder soberano do Estado e os riscos do sistema bancário privado –
procuram estabelecer, além de regras prudenciais e sanções, normas gerais de
acesso dos bancos à liquidez na moeda central. Ao mesmo tempo que impõe regras,
sanções e condicionalidades, o Banco Central também atua como um redutor de
riscos e incertezas para os bancos privados por meio dos instrumentos usuais
de abastecimento de liquidez.
Nos momentos críticos, em que pode estar
comprometida a cadeia de pagamentos da economia e, portanto, a higidez do
sistema bancário, sobressai o papel de “emprestador” de última instância
do BC. •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

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