CartaCapital
Se Putin é autoritário e expansionista, o
presidente dos Estados Unidos parece ser ainda mais ameaçador, por agir com uma
boa dose de irracionalidade
Afirmações categóricas sobre o futuro são
sempre arriscadas e, provavelmente, equivocadas. Quando falamos sobre os
perigos do presente, na realidade nos referimos ao que está por vir – ou seja,
ao futuro. Feita a advertência, arrisco dizer que talvez vivamos o momento mais
perigoso da humanidade desde o ocaso da Guerra Fria – e, quiçá, desde o fim da
Segunda Guerra Mundial.
Desde a vitória dos Aliados sobre o Eixo, o mundo passou por momentos de grande tensão e severos conflitos, como as guerras da Coreia e do Vietnã, além da crise dos mísseis em Cuba. No entanto, ao longo desse período, a institucionalidade internacional construída no pós-Guerra possibilitou certa contenção das grandes potências, cujos líderes se comportavam com alguma racionalidade. Hoje, tanto a institucionalidade quanto a racionalidade são deficitárias.
Institucionalmente, fica evidente a
impotência dos organismos multilaterais – especialmente a Organização das
Nações Unidas – para lidar com transgressões do direito internacional. Em 2002,
quando George W. Bush decidiu invadir o Iraque sob a alegação mentirosa de que
o país possuía armas de destruição em massa, afirmou que ou a ONU apoiaria a
operação norte-americana ou seria relegada à condição de “sociedade de debates
ineficaz e irrelevante”.
Em 2008, Vladimir Putin invadiu os
territórios georgianos da Ossétia do Sul e da Abecásia, onde havia movimentos
separatistas pró-Rússia – áreas que ainda controla. Em 2014, anexou a Crimeia,
uma região ucraniana com ampla população russófona. Em 2022, invadiu a Ucrânia,
deflagrando um conflito armado ainda sem resolução no horizonte. Apesar de o
Tribunal Penal Internacional ter determinado a prisão do líder russo por crimes
de guerra, nada de efetivo ocorreu.
Se Putin é autoritário e expansionista, Donald
Trump ensaia ser ainda mais. É aqui que entra a dimensão da irracionalidade. A
personalidade do presidente dos EUA é tão extravagante que faz o russo parecer
razoável. Uma demonstração notável dessa psiquê problemática surgiu na semana
passada, quando informou a seu homólogo norueguês, Jonas Gahr Støre, que sua
postura belicosa – inclusive em relação à Groenlândia – se devia, em suas
palavras, ao fato de “seu país ter decidido não me conceder o Prêmio Nobel da
Paz por eu ter impedido oito guerras”.
Se Trump não governasse a maior potência
militar do planeta, tal muxoxo seria apenas uma patética birra infantil.
Contudo, considerando-se a posição de poder a partir da qual ele não só profere
essa lamúria narcísica, mas também ameaça tomar à força o território de um país
integrante da mesma aliança militar da qual os EUA fazem parte, há, de fato,
motivo para preocupação. Não bastasse a estupidez de arriscar implodir a Otan,
as justificativas de Trump para se apropriar da Groenlândia revelam uma noção de interesse
nacional baseada no imperialismo nu e cru, inclusive em relação a aliados
históricos. A mensagem parece clara: se for necessária uma guerra de conquista
para garantir acesso a recursos naturais, por que não fazê-la?
Uma postura semelhante é mantida pelo atual
governo dos EUA em relação à América Latina, já que não apenas Trump, mas
também integrantes de sua administração declararam pretender controlar “seu
hemisfério”. Pete Hegseth, secretário da Guerra, afirmou: “O presidente Trump
disse que não vamos mais deixar isso (a presença chinesa) acontecer. Vamos
recuperar nosso quintal”. Essa crença, de que somos uma extensão dos domínios
norte-americanos, explica não apenas a abusada operação do sequestro de Nicolás
Maduro e de sua esposa, mas também a desfaçatez com que Trump afirma ser ele
quem manda na Venezuela, determinando até mesmo a quem o país pode ou não
vender seu petróleo e quem deve lucrar com esse comércio – os EUA e suas
petrolíferas, claro.
Ainda que o comportamento de Trump tenha
relação com transtornos mentais – algo aventado por especialistas em reportagem
publicada pelo The Guardian em agosto de 2025 – o problema ultrapassa essa
dimensão. Mesmo sendo um “narcisista maligno”, segundo o diagnóstico do
psicólogo John Gartner, o presidente norte-americano não age sozinho. Trump
opera com um partido majoritário nas duas casas do Congresso, nos governos
estaduais e na Suprema Corte. Seus auxiliares no Executivo alinham-se às suas
decisões, defendem-nas publicamente no mesmo tom hostil do chefe e contribuem
para que tenham consequências. Ou seja, mesmo que ele deixe de ser presidente
em algum momento, o trumpismo, que tomou de assalto o Partido Republicano,
continuará lá, ameaçando o planeta e a própria sociedade norte-americana,
inclusive colocando em risco as eleições de meio de mandato.
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

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