Valor Econômico
Lutar contra o patrimonialismo é uma agenda
essencial para aperfeiçoar a democracia brasileira
O Brasil se modernizou muito desde a redemocratização, mas não eliminou todos os seus elementos de atraso. Um dos que ainda persistem, embora com menos intensidade do que no passado, é o patrimonialismo. Trata-se da dificuldade de separar os espaços público e privado de atuação, criando uma simbiose predatória entre os dois lados do balcão, gerando um monstro com múltiplos membros. A força dele enfraquece a ideia de República, pois os interesses de grupos ou indivíduos se sobrepõem aos da coletividade. Lutar contra ele é uma agenda essencial para aperfeiçoar a democracia brasileira.
A persistência do monstro patrimonialista não
significa que estejamos no mesmo ponto de séculos atrás. A instituição de concursos
públicos em larga escala, a expansão do voto e sua contabilização eletrônica, o
fortalecimento da transparência e de instituições de controle das ilegalidades
(como a Polícia Federal e o TSE), a liberdade de imprensa e das associações da
sociedade civil, entre alguns dos principais fatores, reduziram muito a
capacidade de influência de indivíduos e de pequenos grupos sobre as decisões
governamentais. A noção de público se ampliou e ganhou maior complexidade,
havendo hoje maior disputa pelo poder político do país.
Basta lembrar como era no passado para
descobrir que a amplitude do patrimonialismo, e por tabela da corrupção, eram
muito maiores. Grande parte das funções públicas eram preenchidas por formas de
apadrinhamento em larga escala, chegando aos processos de seleção de
professores e demais cargos que atuam diretamente com o público. O Orçamento
federal, para ficar noutro exemplo, era muito menos transparente, e várias reformas
o aperfeiçoaram. Os órgãos de controle tinham pouca autonomia e poder de
fiscalização. Havia um gigantesco número de estatais, com regras e estrutura
orçamentária completamente livres do escrutínio público.
A lista de mudanças e reformas republicanas
realizadas nos últimos 40 anos no Estado brasileiro é extensa. Além disso, a
própria estrutura social se modificou, com maior pluralismo social e político,
gerando um debate mais vigilante sobre as práticas governamentais. E o
princípio transformador maior foi estabelecer a extensão do direito de voto a
todos os adultos, já que até 1985 os analfabetos não podiam legalmente votar,
retirando esse direito de milhões de eleitores.
A luz das instituições democráticas e
republicanas hoje ilumina mais os governos do que no passado. O Brasil é um
país em que a luta política e social se dá em torno de direitos, e isso foi um
passo fundamental contra as heranças escravocratas, oligárquicas e
patrimonialistas presentes na nossa trajetória histórica. Entretanto, ainda
permanecem vários mecanismos de atraso que fazem alguns indivíduos ou grupos
serem “mais iguais” do que os demais perante a lei, tendo privilégios no acesso
a bens e decisões governamentais.
A luta contra o monstro patrimonialista é
contínua porque o nosso DNA político e social é fortemente marcado pela defesa
da desigualdade de direitos. Mesmo os avanços obtidos nos últimos anos precisar
ser regados a toda hora, como plantas semeadas recentemente em nosso solo.
Há um cabo de guerra entre modernização e atraso
atualmente no Brasil e formas patrimonialistas estão no centro desta disputa.
Esse fenômeno abarca os três Poderes, embora, diferentemente do passado
anterior à redemocratização, eles também abracem agendas modernizantes,
produzindo legislação e políticas públicas para combater desigualdades, ou
garantindo a democracia. É preciso atacar essas brechas que ainda garantem
grande força ao monstro patrimonialista, inclusive utilizando os diques
democrático-republicanos que estão agora, como nunca antes, ao nosso dispor.
Entre as facetas do patrimonialismo, existe
uma agenda mais urgente de reformas que atinge os três Poderes. Um dos temas,
na verdade, atinge a todos em seus altos escalões: as remunerações acima do
teto constitucional. Essa questão se tornou um dos maiores marcadores de
privilégios no país. Funcionários da alta burocracia no Judiciário e no Sistema
de Controle, nos Legislativos de toda a Federação e especialmente nas carreiras
jurídicas do Executivo federal, vivem num mundo à parte da Constituição e da
ética pública.
O impacto fiscal é bastante razoável no plano
federal, e se fossem ajustadas tais remunerações ao teto constitucional ou
proibidas a aferição de rendas por fora do salário, haveria no mínimo uma
economia anual de R$ 10 bilhões. Mudar essa lógica de privilégio remuneratório
de parte da burocracia de alto escalão é ainda mais importante para fortalecer
o princípio republicano, porque quando o monstro patrimonialista ganha força,
não há limites para ele - basta pensar nos ganhos nababescos dos
desembargadores estaduais. Seus tentáculos crescem, e assim aumentam a
desigualdade entre os cidadãos, logo percebida como a imagem de um “Estado para
poucos”, principal fonte dos valores e votos antissistema, produzindo um dos
maiores perigos para a democracia brasileira.
Uma reforma inadiável de republicanização do
Brasil é a criação de um Código de Conduta para todas as instâncias máximas do
Judiciário, não só no plano federal, mas também no estadual. A criação do
Conselho Nacional de Justiça não foi suficiente para impor os padrões éticos
requeridos à alta magistratura, sem ignorar que o CNJ tomou medidas importantes
em vários campos, como, por exemplo, na política prisional e na ampliação da
diversidade da burocracia judicial. Será preciso ter regras mais claras de
comportamento que delimitem o que pode ou não ser feito por magistrados, além
do aumento da transparência de suas ações perante a sociedade.
No caso do Supremo Tribunal Federal, essa
discussão tem gerado muita polêmica, seja por conta de determinados
comportamentos de seus ministros, seja pela noção interna (ou pelo menos na
visão da maioria de seus membros) de que isso é uma intervenção num Poder
autônomo. Vale reforçar aqui: instituições devem ser construídas para o longo
prazo e devem ser maiores do que seus componentes. Daqui a dez anos, o STF
poderá ser lembrado por seu papel decisivo na garantia da democracia, mas isso
depende do que fará daqui para frente.
Nesse sentido, criar um Código de Conduta com
ampla aceitação social, que possa ser implementado com parcimônia e sem
privilégios, seria um ganho triplo: para a democracia brasileira, que será mais
republicana; para o STF como instituição, reforçando sua legitimidade para além
de seus membros; e para cada um dos ministros, atuais e futuros, que poderão
ter clareza sobre seu raio de ação, inclusive defendendo-se de possíveis
críticas improcedentes, ao que se somaria um respeito maior por sua elevada
relevância.
O Congresso Nacional tem uma evidente reforma
a fazer no campo da republicanização: alterar o modelo das emendas
parlamentares. Em si, elas são legítimas como forma de atuação dos
representantes junto ao eleitorado. Contudo, da maneira que funcionam hoje,
elas estão prejudicando a imagem do Legislativo, reforçando a ideia de que os
congressistas só agem em torno de seus interesses pessoais e de seu curral
eleitoral.
As emendas precisam contribuir efetivamente
para resolver os problemas da coletividade. Para isso, têm de estar coladas em
políticas públicas estruturadas e baseadas em evidências. Ademais,
necessariamente devem ser transparentes e rastreáveis, inclusive com
justificativas para aquele tipo de gasto. Por fim, se o tamanho escolhido para
esse mecanismo orçamentário for de R$ 60 bilhões, algo sem precedentes no mundo,
elas devem ser mais claramente voltadas a programas governamentais destinados a
combater desigualdades. Fora desses padrões, o monstro patrimonialista
crescerá, mas poderá ser pego ali na esquina pelo sistema de controle,
inviabilizando carreiras parlamentares.
O Poder Executivo não pode ficar fora dessa
agenda republicanizadora. Haveria vários aspectos aqui, mas seleciono um
essencial: a criação de mecanismos mais transparentes e justos, numa combinação
de meritocracia com diversidade, para selecionar os cargos comissionados.
Políticos eleitos têm o direito de escolher parte de seus colaboradores, mas
isso não lhes tira a responsabilidade republicana de nomear os melhores nomes
possíveis, lideranças que serão essenciais para o país e para a própria imagem
dos governos. Por muitas vezes governantes devem ter se arrependido de suas
escolhas. Com um Código de Seleção de Altos Dirigentes Públicos, os erros serão
menores e o Brasil será mais bem governado.
Toda essa agenda de reforma institucional
depende do apoio da sociedade. O monstro patrimonialista também está do outro
lado do balcão. A cada grande escândalo, há atores privados que impulsionam
esse processo e têm grande influência sobre políticos e burocratas. A
desigualdade de direitos é mais profunda no Brasil e precisamos conversar sobre
o que grupos e indivíduos poderosos têm feito nos últimos anos. O Estado não é
o único vilão nessa história, muito pelo contrário.
Espero que em 2026, quando haverá eleições gerais, possamos discutir os dois lados do balcão do monstro patrimonialista. É o que desejo de melhor para o Ano Novo às minhas leitoras e leitores.

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