Valor Econômico
‘Prelúdio’, programa criado por Júlio
Medaglia, há 20 anos revela talentos da música clássica
Jô Soares fez um esforço para estabelecer um
diálogo com o pequeno Guido Sant’Anna, violinista de 8 anos de idade, finalista
do programa “Prelúdio”, da TV Cultura de São Paulo de 2014. Perguntava à
criança e recebia respostas de criança, não de adulto genial. Guido gostava de
subir em árvore na chácara em que morava em Parelheiros, ia à escola no ônibus
escolar que levava e trazia as crianças, gostava de jogar bafo de figurinhas
com os amigos e colegas sentado no chão.
Jô perguntava sobre o violino ao músico e recebia resposta de violinista conhecedor competente de música nem por isso menos criança.
Jô teve dificuldade para falar com a criança
que se tornara um violinista reconhecidamente de grande talento, que era
criança ao mesmo tempo. Era óbvio que Guido Sant’Anna estranhava a necessidade
do adulto de desagregar sua infância para compreendê-la, como se não fosse uma
criança normal. Coisa que os adultos fazem frequentemente com a crianças
Ser um grande violinista tão cedo não faz de
uma criança uma aberração. As sociedades de senso comum pobre, como a nossa, é
que são aberrações. Sua professora na escola primária explicava que Guido era
resultado da qualidade pedagógica da escola pública.
Em pouco tempo, Guido Sant’Anna seria
internacionalmente reconhecido como um dos grandes nomes da música erudita.
Ao seu lado, o maestro Júlio Medaglia
confirmava para o Jô a extraordinária revelação ocorrida dias antes em seu
programa “Prelúdio”. E predizia, com acerto, o futuro daquela criança.
O maestro criou o programa há 20 anos.
Adaptou e transferiu para o campo da música erudita o que foi o padrão de
criatividade da música brasileira dos anos 1960 e 1970, que nos revelou nossa
reação musical à circunstância adversa do regime autoritário.
Como mostrou Walnice Nogueira Galvão, em
artigo recente, momento de talentos como o do paraibano Geraldo Vandré, de
“Para Não Dizer que Não Falei de Flores”. Ou de Chico Buarque, carioca, de “A
Banda”. Ambos, digo eu, com o duplo dizer do dito e do silenciado como em
Guimarães Rosa. As mensagens insurgentes das entrelinhas. Como na música e na
poesia de Tom Zé.
O maestro Júlio Medaglia e a TV Cultura criaram
um imenso espaço para novos talentos da música erudita, significativamente
aberto para os que vêm do longe que está tão perto. Mais de 3 mil candidatos já
se inscreveram no programa. Muitos deles têm vindo de outros estados, de
pequenas e médias cidades, e frequentemente de bairros e do subúrbio da classe
trabalhadora. No mesmo programa final de 2014, além de Guido, apresentaram-se
candidatos de Guarulhos, Cubatão e Sorocaba, lugares com tradições musicais
próprias.
Outro nome revelado pelo “Prelúdio” é
Cristian Budu, que gostava de futebol e de matemática, hoje um pianista
internacionalmente consagrado, natural de Diadema (SP). Estudou piano clássico
na Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi aluno de Claudio Tegg na Fundação
das Artes de São Caetano do Sul
Dele disse o grande Nelson Freire que
acreditava que ele viria a ser seu sucessor. A Gramophone o incluiu na lista
“Top 50 Greatest Chopin Recordings”.
Um dos nomes excepcionais revelados pelo
“Prelúdio” do maestro Júlio Medaglia é Bruno de Sá, sopranista, destaque no
“Concert de Paris”, em julho de 2025, na comemoração do aniversário da
Revolução Francesa. De voz única e rara, cantou a Ária das Bachianas nº 5, de
Heitor Villa-Lobos, para a multidão que naquela noite se estendia diante da
Torre Eiffel.
Bruno de Sá nasceu em Santo André, de pais
frequentadores da Assembleia de Deus, que cantavam no coral da igreja. Ele os
acompanhava quando iam para o ensaio. Aos dois anos, pediu para cantar também.
Por essa época, seus pais mudaram-se para Ibitinga.
Em 2017, participou do “Prelúdio” e foi
classificado. Mas, antes da final, teve paralisia facial, que dele exigiu
reeducação da voz. Ficou em segundo lugar, mas era visível a alteração da face,
que o afetou em relação ao primeiro desempenho. Não cedeu e hoje é reconhecido
como o grande nome na peculiaridade de sua voz. Formou-se em música pela
Universidade Federal de São Carlos. Em seguida ingressou no Curso de Canto
Lírico da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Júlio Medaglia, nos ensaios com os candidatos
à apresentação em seu programa, mostra sua peculiar vocação de educador,
garimpeiro de talentos para salvá-los em favor do bem comum. Ele não só dá
visibilidade profissional aos que se apresentam. Ele motiva jovens do país
inteiro para exporem sua competência e desse modo motivarem outros jovens a
seguirem o mesmo caminho.
A embaixada da Hungria concede ao primeiro
colocado do “Prelúdio” uma bolsa de um ano de estudos na Academia Franz Liszt
de Budapest.

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