sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O privilégio da leitura na prisão. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

Com longa experiência docente, levo em conta que não se lê livros assim, a torto e a direito. É necessário ter um programa de leitura

Foi uma surpresa a notícia de que o ex-presidente Jair Bolsonaro teria manifestado interesse no programa de estímulo à leitura na prisão. Com isso, ele teria a possibilidade de diminuir a pena que lhe tocou na condenação do STF. Pessoalmente, vejo mais do que o que poderia ser tomado como egoísmo do preso. Ninguém sai ileso da leitura de um livro. Senti-me, por isso, tentado a fazer-lhe algumas sugestões de leitura.

Com longa experiência docente, levo em conta que não se lê livros assim, a torto e direito. É necessário ter um programa de leitura, ter alguma ideia e alguma curiosidade sobre temas, autores e livros. Ouso, portanto, fazer-lhe algumas sugestões às quais outros cidadãos poderão agregar as suas.

Em primeiro lugar, eu começaria com a leitura das duas versões da Constituição de 1988, a Constituição Cidadã, como a definiu o saudoso Ulysses Guimarães. A versão original e a versão atual, cheia de remendos de emendas constitucionais que foram amansando o texto e despojando-o da amplitude das intenções democráticas e reformistas iniciais.

Um segundo livro, para quem se apresenta como evangélico e tem sua opção religiosa demonstrada na repetição de só dois versículos da Bíblia, daqueles que os evangélicos gostam de retirar da chamada Caixinha de Promessas. Como se o acaso do versículo retirado desse ao devoto a bênção de uma mensagem enviada diretamente por Deus.

A Bíblia diz mais aos cristãos se lida integralmente. O segredo está em escolher uma boa tradução, feita por gente capaz, com formação profissional apropriada em línguas. Minha recomendação é a edição brasileira da chamada Bíblia de Jerusalém. A tradução foi conferida com os textos das línguas originais de referência. A tradução brasileira foi feita ou verificada por gente como professores da Universidade de São Paulo.

A tradução do Novo Testamento foi supervisionada pelo professor Antonio Candido, eminente e conhecido professor de teoria literária. Ele é o autor do monumental e fundamental “Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos”, robustas 800 páginas de erudição e competência. Esmerado nos cuidados com o que escreve ou com o que comenta, o fato dele ter sido um dos fundadores do PT de nenhum modo compromete essa tradução do livro sagrado. Ao contrário.

Por isso mesmo, minha sugestão é a de que não comece a leitura pelo Gênesis, em que a vida humana foi definida como castigo, na condenação de Eva e Adão, nessa ordem. Nem pelo fim, pelo Apocalipse de São João, porque aquilo é antes de tudo o desvendamento da obra do Anticristo e da Besta Fera, o que lhe trará à lembrança muita gente que ele conhece dos tempos do poder, que ainda o assediam e exploram, até parentes. Mesmo parente leitor de Bíblia.

É sempre bom lembrar que Satanás está nos fingimentos, mesmo dos que têm a Bíblia nas mãos, mas não a têm na mente e na alma.

Melhor é seguir a recomendação do grande e fascinante João Guimarães Rosa, em “Grande sertão: Veredas”: “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Isso é sábio e bem brasileiro. Nada de extremismos: ponderação e equilíbrio. Até porque extremismo na cadeia, mesmo que seja de parentes e bajuladores, não serve para nada. Só aumenta o sofrimento do preso.

Um livro indispensável é “O alienista”, do melhor escritor brasileiro e melhor conhecedor de nossa língua e de nossa mentalidade: Machado de Assis. Sobre o médico maluco que numa cidade do interior do Rio de Janeiro começou a diagnosticar cada morador como alienado mental. No fim, só ele sobrou fora do manicômio.

O autoritarismo militar brasileiro tem longa tradição nesse sentido, desde antes do golpe de 15 de novembro de 1889, imensas parcelas do povo brasileiro tratadas como inimigas do Brasil. Foi o que aconteceu em Canudos, na Bahia, e no Contestado, em Santa Catarina. É o que tem acontecido na estigmatização e repressão às esquerdas, inventadas, aliás, na Revolução Francesa, necessárias à sustentação e legitimação do regime democrático.

“Macunaíma”, de Mário de Andrade, pode vir a calhar como exercício de autodescoberta. O herói sem nenhum caráter é a personagem que não se encontra, perdido dentro de si mesmo. É o brasileiro. Nem branco nem negro porque é os dois.

Bolsonaro viveu a experiência das ocultações, especialmente próprias da vida política brasileira. O poder não é a verdade da vida. No geral é a mentira.

Ao fim e ao cabo, no Brasil, o político acaba descobrindo que não era quem pensava ser. Na democracia o político é descartável. Para quem gosta de ler, a prisão é uma mordomia. Ali, a leitura é um verdadeiro pós-doc sobre o lado invisível do poder.

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