Novos desastres climáticos desafiam as autoridades
Por O Globo
Pelo menos 83% do território do Rio e metade
dos municípios brasileiros são vulneráveis a tragédias ambientais
A tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, um dos maiores desastres naturais da História do país, com mais de 900 mortes, completou 15 anos ontem. Desde 2011, líderes mundiais participaram de 14 conferências do clima, os alertas de especialistas sobre a iminência de novas catástrofes foram mais enfáticos e constantes, e novas tragédias aconteceram para confirmar que não são alarmistas. Temporais mataram 242 pessoas em Petrópolis e 133 em Pernambuco em 2022, 65 no Litoral Paulista em 2023 e 185 no Rio Grande do Sul em 2024, deixando cidades inteiras debaixo de água. Os números assustadores aparentemente não bastaram para que as medidas de prevenção necessárias fossem tomadas.
Reportagem do GLOBO mostrou que, apenas no
conjunto de 30 municípios do estado do Rio, 83% do território é vulnerável a
novas tragédias, segundo o relatório de avaliação de riscos de desastres
provocados por chuvas, elaborado pela secretaria estadual de Planejamento e
Gestão e pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos. Nessas
áreas, há quase 1,7 milhão de domicílios em risco. Os municípios com a maior
parcela do território sujeita a catástrofes são justamente os mais atingidos em
episódios anteriores: Nova Friburgo, 96,3%; Bom Jardim, 94,3%; Petrópolis, 93,6%;
Teresópolis, 91,8%.
Nos demais estados brasileiros, a situação
não é diferente. Segundo a plataforma Adapta Brasil, 2.807 dos 5.570 municípios
do país já estão em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade climática. O
dado consta do relatório “Cidades verdes-azuis resilientes”, que reúne
conhecimento científico e tecnológico atualizado para apoiar programas e ações
de governos, empresas e da própria sociedade na construção de ambientes urbanos
mais preparados e sustentáveis diante da crise climática.
Já passou da hora de os governos federal,
estaduais e municipais agirem com urgência para, se não evitar por completo, ao
menos minimizar os efeitos de tragédias climáticas. O Centro Nacional de
Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) considera fundamental
que as autoridades estejam preparadas para que o socorro imediato inclua — além
da disponibilidade de abrigos temporários, medicamentos, alimentos e água —
apoio psicológico a todos os impactados, assim como a identificação de áreas
seguras e o estabelecimento de rotas de fuga. A lista de investimentos
prementes tem de incluir aprimoramento da comunicação, para que a população
compreenda riscos, alertas e alarmes. É necessário ainda atualizar mapeamentos
de áreas suscetíveis aos riscos, dar destino adequado aos resíduos sólidos,
priorizar obras de engenharia, reurbanização, arborização e drenagem, recuperar
a vegetação nas margens de rios e controlar a erosão.
O investimento é alto, mas não há outro
caminho. Ninguém espera mais que as metas de redução das emissões de gases
causadores de efeito estufa sejam cumpridas e evitem que os desastres naturais
se tornem cada vez mais frequentes e extremos. É preciso estarmos prontos para
reduzir danos. Tragédias podem ocorrer a qualquer momento. Nenhum governante
poderá alegar que terá sido por falta de aviso.
Transporte público requer planejamento e ação
integrados
Por O Globo
Previsto para este trimestre, estudo do
governo sobre 187 projetos deverá orientar investimentos
Está prevista para este trimestre a conclusão
de um estudo iniciado em 2024 sobre a situação do transporte público em 21
capitais e regiões metropolitanas. Realizado pelo BNDES e pelo Ministério das
Cidades, o levantamento já identificou 187 projetos locais para atender à
demanda até 2054. O objetivo é estimar investimentos, examinar boas práticas
internacionais e propor modelos de governança e mecanismos de financiamento.
Num país carente de planejamento de longo prazo, o Estudo Nacional de
Mobilidade Urbana é uma notícia alvissareira.
Cansados com superlotação, atrasos e
desconforto em ônibus, trens e metrôs, os brasileiros têm abandonado o
transporte público. Em 2017, os deslocamentos diários em ônibus representavam
45% do total. Em 2024, não chegaram a 31%, segundo a Pesquisa CNT de Mobilidade
da População Urbana. No mesmo período, o uso de carro próprio, moto e
transporte por aplicativo deu um salto. Só que não há espaço nas ruas para
tantos veículos transitarem.
Por isso os engarrafamentos crescem. Em dez
capitais, os brasileiros gastam quase duas horas por dia (116,5 minutos) se
deslocando, revela pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a
Ipsos. É muito tempo perdido, tornando a economia brasileira mais improdutiva.
Para mudar a situação, é preciso incentivar o transporte público e garantir que
ele reduza o tempo de deslocamento. São essenciais investimentos em corredores
de ônibus, BRTs, VLTs, trens e metrôs.
O estudo do governo estima que, para
implantar os 187 projetos nas 21 capitais e regiões metropolitanas, serão
necessários R$ 434 bilhões. Contando com a receita das passagens, já será
difícil encontrar recursos. Sem ela, qualquer melhoria se torna impossível.
Esse é um setor já com subsídios altíssimos. Não há dinheiro sobrando no
Tesouro para aumentá-los ainda mais.
Na atração de investimentos privados,
governadores e prefeitos precisam criar uma governança que privilegie a
racionalidade. Quando ônibus estaduais disputam usuários com os municipais,
quando linhas de BRT da Prefeitura canibalizam linhas de metrô do estado, não
há como ganhar eficiência. Estados, capitais e regiões metropolitanas devem ter
uma gestão integrada do ponto de vista institucional, financeiro e técnico. Há
bons exemplos a seguir. Em Pernambuco, as prefeituras de Recife e Olinda e o
governo estadual criaram um consórcio público. Em Goiás, a capital, municípios
da Região Metropolitana e o estado formaram uma câmara deliberativa. No
Espírito Santo, as cidades delegaram ao governo estadual a gestão do sistema de
transporte.
É uma lástima que, movido tão somente pela visão eleitoreira, o mesmo governo responsável pelo estudo sobre mobilidade ameace adotar a tarifa zero no país todo, política que condenará os brasileiros a décadas de serviços medíocres de transporte público. Não faz sentido autoridades federais se meterem a legislar sobre tarifas de transporte, atribuição dos governos locais. Seu dever é fornecer subsídios técnicos para as melhores escolhas. É o que se espera do estudo previsto para breve.
A marcha imperial de Trump
Por Folha de S. Paulo
Republicano captura Maduro, ameaça
Groenlândia, o que põe em xeque a Otan, e abandona organismos globais
Nova doutrina deixou o campo da hipótese;
Cuba está na fila, e a Colômbia, que emergia como próxima vítima, foi coagida a
negociar
Donald Trump irrompeu
2026 colocando em marcha seu plano já bastante decantado de desconstrução da
ordem internacional vigente desde que seu país dominou o Ocidente na esteira da
vitória na Segunda Guerra Mundial.
Sem freios e contrapesos que modularam sua
volúpia no primeiro mandato, o republicano já passara o primeiro ano de seu
segundo termo a ruir as fundações do mundo como o conhecemos.
Da guerra tarifária às reviravoltas na
tentativa de controlar conflitos do Oriente Médio à Ucrânia,
com direito a intervenções militares quando lhe pareceram adequadas apesar do
discurso isolacionista, a hiperatividade desaguou numa nova doutrina.
Lançada em dezembro, a Estratégia de
Segurança Nacional poderia ser apenas mais um documento fadado aos escaninhos,
como as 18 versões que a antecederam. Agora, é leitura obrigatória: o capítulo
que trata da retomada do imperialismo regional no Hemisfério Ocidental acaba de
deixar o campo da hipótese.
A intervenção
militar ilegal de Trump contra o execrável ditador Nicolás
Maduro foi um tiro de advertência, no qual se anunciou ao mundo
que o republicano falava sério quando colocou no papel um plano para expulsar
atores externos, como China e Rússia,
do que vê como seu quintal.
Cuba está
na fila, valorizada pelo status de joia da coroa do antiamericanismo desde
1959. A Colômbia, que emergia como uma próxima vítima, foi coagida a sentar-se
à mesa para negociar.
Até um petroleiro com óleo embargado
venezuelano, que envergou bandeira russa achando que isso o protegeria, foi
apreendido perto da distante Islândia após uma operação militar. O governo
de Vladimir
Putin, preocupado com o que Trump lhe dará da Ucrânia, apenas
resmungou.
A Casa Branca também voltou seu voluntarismo
contra a Europa,
que não sem razão qualifica como um continente de líderes fracos. Ato contínuo
à captura de Maduro, Trump retomou
sua obsessão pela Groenlândia.
Com sua posição estratégica no Ártico, no
caminho de mísseis nucleares de silos russos e chineses e perto de rotas
marítimas importantes, o território autônomo da Dinamarca tem
66% das jazidas de terras raras específicas para aplicações de alta tecnologia
fora da China, rival dos EUA.
Ocorre que Copenhague faz parte da Otan,
fundada pelos americanos em 1949. Sem previsão de que seus 32 membros se
ataquem entre si, a aliança militar está fadada à implosão se Trump cumprir a
ameaça de tomada da ilha —caso a venda seja refutada, como foi em 1946.
Ainda na mesma semana, o americano, enquanto
enfrentava desgaste doméstico pela morte de uma cidadã pelo serviço de
imigração, anunciou que os EUA deixarão 66 organismos internacionais, 31 deles
da agônica ONU, que gostaria de ver fechada.
O mundo assiste atônito ao processo veloz
—que, por atabalhoado, pode refluir sozinho.
Governo impotente contra garimpo e facções
Por Folha de S. Paulo
Justiça exige plano de desintrusão em terra
indígena sob cerco da mineração ilegal controlada pelo CV
Documento da Funai relata ameaças a
lideranças indígenas na Terra Sararé e afirma que grupos usam armamento pesado
restrito, como fuzis
A atividade de garimpo,
por si só, já impacta a segurança, a subsistência e a saúde de povos indígenas.
Quando o crime
organizado é adicionado à equação, cai-se numa espiral funesta
de violência.
Desde o início do terceiro mandato de Luiz
Inácio Lula da
Silva, a gestão petista enfrenta dificuldades em conter a mineração nesses
territórios, tendo sido até instada pelo Supremo Tribunal Federal, em novembro
de 2023, a apresentar um plano de desintrusão (expulsão de não indígenas).
A história agora se repete na Terra Indígena
Sararé, em Mato Grosso, que teve uma das maiores taxas de invasão por
garimpeiros em 2023, conforme mostrou uma série de reportagens da Folha. Não à
toa, a área constava do plano de desintrusão apresentado
pelo governo em janeiro de 2024, atendendo à ordem do STF.
Na atual situação, o controle da mineração pela facção Comando Vermelho agrava o problema.
Em dezembro, a Justiça Federal determinou prazo de 45
dias para a entrega de um plano de expulsão dos invasores.
Segundo a decisão, o governo não deu prioridade à crise e houve "omissão
grave" em relação ao avanço da organização criminosa.
Documento da Funai de
outubro relata ameaças a lideranças indígenas, uso de estradas que levam à
aldeia dos nambikwaras e cooptação de indígenas para ocultar equipamentos.
Cita, ainda, que os grupos atuam como milícias e usam armamento pesado
restrito, como fuzis.
A violência aumenta com disputas entre
integrantes da facção e guardas montadas por garimpeiros. Segundo a Agência
Brasileira de Inteligência (Abin), foram registrados 46 homicídios na Terra
Sararé entre 2022 e 2024.
Facções como o Comando Vermelho e o Primeiro
Comando da Capital há anos vêm diversificando seus negócios ilícitos para além
do tráfico de drogas, com atuação nos setores de combustíveis, extração de
madeira e ouro.
O fenômeno é conhecido e exige integração
entre governos e forças de segurança, inclusive com rastreamento de operações
financeiras, para ser contido.
O Ministério dos Povos Indígenas alega que
operação recente liderada pelo Ibama na Terra Sararé resultou na destruição ou
apreensão de 650 acampamentos, 170 escavadeiras, 500 motores e 90 mil litros de
combustível.
Trata-se, porém, de mais uma medida pontual, enquanto o garimpo precisa ser combatido com atuação contínua de longo prazo, que fortaleça a fiscalização e aumente a presença do Estado, com infraestrutura, inteligência investigativa e segurança.
A normalização do improviso
Por O Estado de S. Paulo
Sem projeto claro, o governo Lula transforma
o improviso em método e ajuda a agravar o desequilíbrio institucional do País
que corrói a confiança na democracia
O Brasil encerrou mais um ano tendo
naturalizado aquilo que deveria ser exceção: o improviso como método de
governo. Decisões casuísticas, soluções provisórias eternizadas,
flexibilizações recorrentes de regras fiscais, institucionais e administrativas
passaram a ser justificadas por um estado de urgência permanente – muitas vezes
produzido pelo próprio Palácio do Planalto. Sob o rótulo de “pragmatismo”,
relativiza-se a previsibilidade; em nome da governabilidade, esgarçam-se
compromissos. O resultado é um Estado que opera sem norte e uma democracia que
se habitua perigosamente à instabilidade.
Esse quadro se agrava num contexto de
desarranjo institucional já evidente. O equilíbrio entre os Poderes, pilar do
regime democrático, vem sendo substituído por uma convivência disfuncional: um
Executivo frágil e reativo, um Legislativo hipertrofiado e um Judiciário cada
vez mais politizado. O Orçamento da União, capturado por interesses paroquiais
no Congresso, perdeu sua função estratégica de planejamento para se tornar
moeda de troca de curto prazo. Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal
(STF), ao extrapolar suas atribuições, contribui para a confusão de papéis e
para a erosão institucional.
Nada, porém, ocorre no vácuo. No centro desse
processo está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este jornal tem
insistido: trata-se de um mandato medíocre, conduzido por um Ministério fraco,
sem coesão, sem densidade técnica e sem capacidade de formular políticas
públicas estruturantes. A ausência de um projeto claro de país – que vá além da
repetição de políticas conhecidas e do cálculo eleitoral permanente – faz do
governo agente do desequilíbrio institucional, quando deveria ser seu principal
fator de correção.
Lula, historicamente visto como um hábil
articulador político, caminha para o fim do mandato se limitando à
administração improvisada de crises e à acomodação oportunista de pressões.
Governa-se por exceções sucessivas: contorna-se a regra fiscal, relativizam-se
limites administrativos, tolera-se a deformação do Orçamento e aceita-se a
judicialização excessiva como atalho político. A exceção vira método e a regra,
obstáculo. Em vez de liderar a recomposição institucional, o Planalto adapta-se
ao desarranjo e, ao fazê-lo, acaba por legitimá-lo. Não à toa, transformou o
STF no seu braço político para enfrentar o Congresso.
A retórica presidencial insiste em apresentar
flexibilidade como virtude e improviso como sensibilidade social. Esse
improviso se manifesta de forma concreta: na alteração sucessiva de metas
fiscais antes mesmo de sua tentativa de cumprimento; no uso recorrente de
créditos extraordinários para financiar despesas previsíveis; na multiplicação
de exceções no novo arcabouço fiscal; no relançamento de políticas antigas
(como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e o PAC) sem redesenho
estrutural; e na judicialização frequente de impasses políticos como atalho à
negociação institucional.
Mas o custo dessa escolha é alto. Esse
ambiente que conjuga o “mais do mesmo” com a aposta na sorte produz uma malaise perceptível na
sociedade. Não se trata apenas de indicadores econômicos ou de frustrações
pontuais, mas da sensação difusa de um país sem direção, governado no curto
prazo e refém de disputas entre Poderes que operam sem limites claros, nem
administrativos nem éticos. O resultado é o futuro sempre adiado em nome de
urgências fabricadas.
É legítimo perguntar se é possível iniciar um
novo ano prometendo estabilidade enquanto se governa pela exceção. A resposta é
evidente. Sem previsibilidade institucional, não há planejamento econômico,
tampouco sem responsabilidade fiscal e eficiência administrativa há confiança
política; e sem respeito aos limites entre os Poderes, não há democracia
saudável. A normalização do improviso cobra um preço elevado do Estado e da
sociedade.
Para romper esse ciclo, o Brasil precisará
mais do que slogans e gestos simbólicos. Exige-se liderança capaz de formular
um projeto claro de país, restaurar o equilíbrio institucional e substituir o
improviso por políticas consistentes. Até aqui, o governo lulopetista não
demonstrou disposição nem capacidade para essa tarefa. Persistir nesse caminho
é condenar o País a mais um ano de incerteza e estagnação. Com a eleição
batendo à porta, custa acreditar que essa lógica será revertida.
As fissuras na teocracia do Irã
Por O Estado de S. Paulo
Combinação explosiva de crise econômica,
repressão violenta e enfraquecimento geopolítico alimenta a mais ampla
contestação social ao regime dos aiatolás nos últimos anos
A nova onda de protestos no Irã, que já dura
cerca de duas semanas, é a culminação de uma crescente indignação social contra
o regime teocrático que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. O
estopim dos levantes, iniciados no final de 2025, é a grave crise econômica que
corroeu o poder de compra do rial, acompanhada de índices de inflação e
desemprego que tornaram insustentáveis as condições de vida para milhões de
iranianos.
A partir de protestos de comerciantes
localizados em Teerã, as manifestações se espalharam por todo o país, sobretudo
em cidades como Mashhad, Isfahan e Shiraz. A pauta também se diversificou,
unindo jovens, idosos, operários, estudantes, profissionais liberais e outros
segmentos da sociedade em prol do restabelecimento das liberdades civis que há
muito lhes foram tomadas à força pelos aiatolás.
A resposta do regime foi duríssima, como era
esperado. Na quinta-feira passada, as autoridades iranianas impuseram um
bloqueio total de acesso à internet no país, numa tentativa de interromper a
articulação entre os manifestantes e impedir que informações sobre a brutal
repressão aos protestos chegassem ao exterior. Debalde. Não só os relatos de
violência vieram a público, como a asfixia motivou ainda mais as multidões.
Além das motivações econômicas, há um
componente político incontornável a inflamar os protestos. O regime dá claros
sinais de desgaste, seja pela idade avançada do aiatolá Ali Khamenei e pela
incerteza em torno de sua sucessão, seja pelo descontentamento social acumulado
ao longo de décadas de autoritarismo religioso – especialmente contra as
mulheres.
Ademais, não se pode ignorar o contexto
externo. O Irã tem enfrentado desafios geopolíticos significativos nos últimos
anos, sobretudo desde 7 de outubro de 2023, quando o infame ataque do Hamas
contra Israel deflagrou a guerra em Gaza. Embora não se possa responsabilizar
diretamente Teerã pela ofensiva terrorista, o ataque irrompeu uma cadeia de
eventos que alterou profundamente o equilíbrio regional. A reação militar de
Israel e dos EUA obliterou a rede de alianças e grupos armados associados à
projeção de poder do Irã no Oriente Médio.
Desde então, essa engrenagem desabou como um
castelo de cartas. O enfraquecimento ou a destruição de grupos que fustigavam
Israel e o Ocidente – entre eles o próprio Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no
Líbano – reduziu sensivelmente a capacidade de dissuasão do regime iraniano.
Somam-se a isso o desgaste provocado pela prolongada crise econômica e o
consequente isolamento político, fatores que minaram a aura de poder que o
regime cultivava para intimidar inimigos mundo afora e seus próprios cidadãos.
Dito isso, não se pode afirmar, ao menos por
ora, que os protestos configuram uma revolução capaz de derrubar o aiatolá e
promover uma transformação constitucional profunda. As forças de segurança
continuam fortes nas ruas, controlam grandes centros urbanos e ainda dispõem de
recursos consideráveis para sufocar qualquer dissidência. A ausência de uma
liderança de oposição reconhecida por todo o país também limita a capacidade
dos protestos de transformar indignação social em força política
transformadora.
Contudo, é inegável que algo significativo
está em curso no Irã. A atual onda de protestos combina insatisfação econômica
generalizada, crítica corajosa às barbaridades do regime e participação social
mais ampla, sem restrições de gênero ou faixa etária, segundo consta. O
bloqueio da internet e a repressão violenta podem até fragmentar o movimento,
mas não parecem ter dissuadido uma parcela considerável da população iraniana
de desafiar abertamente o regime.
É cedo para antever quais desdobramentos
concretos essa mobilização produzirá a curto ou médio prazos. A história
recente do Irã recomenda cautela diante de prognósticos precipitados. O regime
já sobreviveu a várias ondas de protestos desde 1979. Ainda assim, os sinais de
seu desgaste são evidentes. A persistência dos protestos, a ampliação de sua
base social e a disposição de desafiar a repressão indicam que a teocracia
enfrenta uma contestação interna que, se ainda não pode ser vista como uma
ruptura revolucionária, expõe as fissuras na estrutura de poder dos aiatolás.
O custo do chavismo para o Brasil
Por O Estado de S. Paulo
Crise humanitária na Venezuela revela o
impacto concreto da ditadura além de suas fronteiras
Desde que o êxodo de venezuelanos fugindo da
crise política, econômica e social em seu país ganhou contornos de crise
humanitária, a partir de 2017, o Brasil busca formas de atender a uma população
de refugiados que só cresce, pressionando a oferta de serviços públicos na
fronteira. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social,
Família e Combate à Fome, em janeiro de 2017 havia 438 famílias venezuelanas
inscritas em programas de benefícios sociais depois de atravessar a fronteira
com o Brasil. Em dezembro de 2024, foram registradas mais de 153 mil famílias
que cruzaram o mesmo caminho para escapar das garras de Nicolás Maduro.
Acolher refugiados é uma obrigação legal e
humanitária determinada pela Constituição, pelo Estatuto dos Refugiados e por
tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Não há dúvida de que o
governo brasileiro cumpre o seu dever ao ajudar venezuelanos expulsos de sua
terra pela fome, inflação, desemprego, instabilidade política e violações
generalizadas de direitos humanos que marcaram a era Maduro, adepto de um
chavismo ainda mais autocrático e violento do que o do próprio Hugo Chávez.
A experiência de abrigar essa legião de
desvalidos deveria bastar para fazer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o
PT adotarem um tom mais severo em relação aos desmandos do agora ex-ditador, e
não a complacência sempre dispensada ao “companheiro”. O chavismo tem imposto
um preço alto ao Brasil, que vai desde o calote bilionário da Venezuela em
operações de crédito que, segundo estimativas oficiais, já passa de R$ 10
bilhões, até o custo social de amparar milhares de maltratados pela ditadura
venezuelana.
É um custo que não para de crescer. Quase 380
mil venezuelanos estão inscritos no Cadastro Único, via de acesso a programas
sociais brasileiros. Os dados, do Painel de Informações Sociais para Refugiados
e Migrantes Venezuelanos, mostram que em setembro de 2025 a quantidade de
venezuelanos no Brasil atendidos pelo Bolsa Família, com benefício mínimo de R$
600 mensais, chegou a 205,6 mil. Outros 14,6 mil recebiam o Benefício de
Prestação Continuada (BPC), auxílio que corresponde a um salário mínimo mensal.
O censo demográfico do IBGE mostra que a
população venezuelana residente no País aumentou 9.363% de 2010 (2.869) a 2022
(271.514). Dados do Observatório das Migrações Internacionais, publicados no
final do ano passado, com base em registros da Polícia Federal, apontam 582 mil
venezuelanos com residência ativa no País. Por esses números, pode-se concluir
que ao menos um em cada três imigrantes venezuelanos recebe algum benefício
social no Brasil.
Um país que exporta miséria, instabilidade e violações sistemáticas de direitos humanos cobra seu preço também de seus vizinhos. O Brasil, ao cumprir corretamente suas obrigações humanitárias, acaba arcando com as consequências de uma ditadura que insiste em se apresentar como projeto político legítimo. Ignorar essa realidade apenas transfere para o contribuinte brasileiro o ônus de um regime que fracassou em tudo o que prometeu. A solidariedade com o povo venezuelano não pode continuar servindo de álibi para a indulgência com seus algozes.
Apesar de acordo UE-Mercosul, mundo está mais
protecionista
Por Valor Econômico
Anúncios da China e do México apontam que o mundo caminha mesmo na trilha de mais protecionismo e barreiras às transações comerciais
Tudo parece indicar que o acordo União
Europeia-Mercosul deve ser finalmente assinado nos próximos dias, após 26 anos
de negociações tortuosas. O presidente Lula celebrou o acordo como uma vitória
do multilateralismo, enquanto a alemã Ursula von der Leyen destacou a liderança
do bloco europeu em um momento em que EUA e China intensificam o uso do
comércio como arma de coerção geopolítica. Apesar da importância do acordo, o
maior pacto inter-regional da história, abrangendo € 111 bilhões (US$ 129
bilhões) em comércio e mais de 780 milhões de pessoas, outras notícias recentes
apontam que o mundo caminha mesmo na trilha de mais protecionismo e barreiras
às transações comerciais. A guerra tarifária lançada pelo presidente dos EUA,
Donald Trump, em abril do ano passado, colocou em marcha mudanças estruturais
na economia global, cujos danos se revelam lentamente e quase sempre tarde
demais para serem revertidos.
Em 2025, a economia e o comércio global
mostraram uma surpreendente resiliência diante da extraordinária elevação da
tarifa média de importação dos EUA de 2,5% para até 27% - reduzida para 16,8%
em novembro após Trump conceder diversas exceções e múltiplos “acordos”
bilaterais. No entanto, para este ano a maioria das projeções aponta uma
gradual desaceleração, com os economistas vendo um impacto mais pronunciado das
tarifas de Trump e crescente incerteza geopolítica - o ano já começou
disruptivo, com o ataque dos EUA contra a Venezuela e o ditador Nicolás Maduro,
com consequências ainda incertas para a região e o resto do mundo. Na mais
recente projeção da ONU, divulgada na quinta-feira (8), a economia global
deverá crescer 2,7% este ano, abaixo dos 2,8% estimados para 2025, segundo o
estudo “Situação e Perspectivas Mundiais”. Para o comércio global, a ONU prevê
uma desaceleração, para um crescimento de 2,2% este ano, ante 3,8% estimados em
2025.
A ausência de retaliação dos países às
tarifas de Trump - com exceção da China - ajudou a economia e o comércio global
a evitarem os prognósticos pessimistas de meados do ano passado. Também o
esforço de diversificação do comércio ajudou as principais economias a
navegarem no ambiente mais desafiador. O Brasil, por exemplo, registrou em 2025
um superávit comercial de US$ 68,3 bilhões, mais do que o esperado
inicialmente, embora inferior ao saldo de US$ 74,2 bilhões de 2024. Mas foi a
China que mais se destacou no redirecionamento do comércio. Mesmo vendendo 30%
menos para os EUA, a gigante asiática chegou em novembro com um saldo comercial
superior a US$ 1 trilhão.
A agressividade com que a China despeja
produtos baratos ao redor do mundo tem gerado reações, com Brasil, Índia e UE,
por exemplo, impondo tarifas antidumping sobre produtos chineses. Mesmo assim,
o desconforto entre os parceiros comerciais continua aumentando. Em dezembro, o
presidente francês, Emmanuel Macron, ameaçou a China com mais tarifas caso
Pequim não tome medidas para reduzir seu superávit comercial de mais de US$ 350
bilhões com a UE.
No lado chinês, com uma economia ainda
atolada com a contração do seu mercado imobiliário, Pequim também tem erguido
barreiras às importações para proteger seus produtores em meio ao fraco consumo
interno. A carne brasileira, por exemplo, será alvo de uma sobretaxa de 55% no
que exceder uma cota de importação da China de 1,1 milhão de toneladas este
ano. Os chineses foram os maiores compradores da carne brasileira em 2025, com
1,6 milhão de toneladas.
Além da defesa do mercado doméstico, o
protecionismo também está sendo usado como arma de coerção. Na semana passada,
o governo chinês anunciou restrições às exportações de produtos relacionados a
terras raras para o Japão, incluindo aqueles destinados a uso não militar, em
meio à crescente tensão de dois rivais regionais históricos. Sob pressão dos
EUA, seu maior parceiro comercial, o México impôs tarifas de 50% sobre
importações da China e de outros países asiáticos com os quais não possui
acordos de livre comércio. O tarifaço mexicano também atingiu o Brasil.
Em artigo recente, Gita Gopinath,
ex-vice-diretora-gerente e economista-chefe do FMI (Valor, 7/1), alerta sobre os
impactos das disputas em torno das tarifas e do caos das políticas. Ela cita o
caso Brexit, aprovado por referendo. “Apesar do forte aumento da incerteza, o impacto
econômico inicial foi mínimo. Mas uma década depois a estimativa é de que o
Reino Unido tenha perdido entre 6% e 8% do PIB em comparação com o resultado
que teria na sua trajetória pré-Brexit”, escreveu ela. Nos EUA, o aumento de
mais de 14 pontos na tarifa média de importação contribuiu para elevar a
inflação americana em 0,7 ponto porcentual. “Sem as tarifas, a inflação poderia
ter retornado à meta de 2% do Federal Reserve”, acrescentou.
Nesse contexto, o acordo de livre comércio UE-Mercosul é bem-vindo e uma grande vitória institucional, mas como observou o diplomata brasileiro e ex-diretor-geral da OMC Roberto Azevêdo ao Valor (2/1): “Eu gostaria muito de ver o acordo ser assinado, por mais que ele não tenha o grau de ambição que eu gostaria. Mas o realismo me diz que eu só acredito nesse acordo quando ele estiver assinado. E talvez até depois, porque mesmo depois de assinado ainda pode haver surpresas”. Que assim não seja.
Tensões, ameaças e acordo: o tabuleiro global
em 2026
Por Correio Braziliense
A proximidade desses dois eventos – um
militar e outro comercial – mostra uma divergência de modelos no mundo
contemporâneo: um baseado no uso direto da força e outro em instrumentos
econômicos para gerar influência
A atual disposição demonstrada pelos
Estados Unidos em impor seu poderio bélico e suas ambições imperialistas dá
sinais preocupantes. Sob o mandato de Donald Trump — apesar da resistência
política interna e da desaprovação de parcela significativa dos eleitores
norte-americanos —, 2026 começou com operações militares e ameaças que acendem
o alerta pelo mundo. Diante das pretensões declaradas do presidente
republicano, vários fóruns globais avaliam os riscos de rompimentos da ordem
baseada em regras estabelecidas conjuntamente em defesa da harmonia entre as
nações.
Neste domingo, Trump partiu pra cima de Cuba
ao dizer que deve "fazer um acordo". "Não haverá mais petróleo
nem dinheiro para Cuba — zero! Sugiro fortemente que façam um acordo,
antes que seja tarde demais", publicou no Truth Social, sua plataforma de
rede social. Já no sábado, os EUA comandaram o lançamento de uma série de
ataques em larga escala contra o grupo jihadista Estado Islâmico em todo o
território da Síria. A ofensiva foi em represália após a ação que, em dezembro
do ano passado, matou três americanos no país do Oriente Médio, segundo as
agências que atuam na conturbada região.
Mas, uma semana antes, em 3 deste mês, a
operação que mais surpreendeu: a invasão militar à Venezuela e a captura de
Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores. Lideranças diversas e especialistas
apontam que essa ação pode colocar os EUA fora da ordem jurídica mundial.
A intervenção em território venezuelano foi
um dos episódios mais dramáticos na política externa norte-americana das
últimas décadas, uma vez que violou princípios básicos de soberania e direito
internacional, representando uma ameaça à estabilidade global e aos valores
democráticos. Além disso, o fato de o motivo geopolítico central desse
movimento estar ligado tanto à importância estratégica dos recursos naturais
venezuelanos — especialmente petróleo — quanto à rivalidade direta
com potências como China e Rússia, reforça que as peças do tabuleiro estão se
mexendo de uma maneira que merece atenção.
Paralelamente à jogada dos EUA sobre a
Venezuela, na sexta-feira passada o Mercosul e a União Europeia concluíram um
acordo de livre comércio histórico, encerrando mais de 25 anos de negociações e
criando uma área comum envolvendo cerca de 780 milhões de pessoas e um grande
contingente de PIB global. Esse passo indica uma aposta no multilateralismo, na
cooperação econômica e em normas previsíveis, justamente no momento em que o
unilateralismo e o uso da força parecem prevalecer na política externa dos
EUA.Enquanto Washington recorre à coerção militar, sem contar chantagens
abertas, para alcançar objetivos estratégicos, as lideranças do Mercosul e da
UE escolhem avançar em um instrumento geoeconômico de integração.
A proximidade desses dois eventos — um
militar e outro comercial — mostra uma divergência de modelos no mundo
contemporâneo: um baseado no uso direto da força e outro em instrumentos
econômicos e diplomáticos para gerar cooperação e influência. Esse conjunto de
fatos evidencia que a geopolítica contemporânea não é mais dominada por um
único polo de poder, mas por uma interação de instrumentos econômicos,
políticos e militares que competem em arenas distintas — desde mercados globais
até princípios de direito internacional.
A invasão à Venezuela e as constantes tensões criadas por Trump tornam ainda mais urgente a busca de alternativas de diplomacia entre blocos, países e organismos mundiais consolidados. O poder militar e os recursos naturais não podem ser usados como estratégias para redefinir fronteiras, alianças e normas internacionais. E isso não apenas por motivos econômicos, mas, principalmente, para preservar um sistema global baseado em regras, estabilidade e cooperação.
Ceará é 1º lugar em identificação de
desaparecidos
Por O Povo (CE)
Para além de demonstrar a importância da
modernização constante e da valorização dos profissionais dedicados à área, o
resultado representa um alento para milhares de famílias vítimas dos
desaparecimentos, que retomam sua dignidade emocional
Relatório técnico mais recente da Rede
Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), vinculado ao Ministério de
Justiça e Segurança Pública (MJSP), traz uma boa notícia para o Ceará: o Estado
liderou a identificação de pessoas desaparecidas no Brasil no último ano, com
37 pessoas identificadas pela Perícia Forense do Estado (Pefoce).
Os dados correspondem ao período de outubro
de 2024 e outubro de 2025 e, segundo o Governo do Ceará, refletem os
investimentos na área a partir da modernização de processos e ao reforço
estrutural técnico da Pefoce. Do total, foram 28 identificações com a
comparação de DNA entre familiares de pessoas desaparecidas e restos mortais
sem identificação, e nove com cruzamento genético entre restos mortais e perfis
de pessoas condenadas registrados no banco de dados.
Os bancos de perfis genéticos são uma das
bases da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas (Lei n.º
13.812/2019). Na última Mobilização Nacional de Identificação de Pessoas
Desaparecidas, realizada em agosto de 2025, foram coletadas 592 amostras
biológicas de referências de familiares e 20 amostras de referências
diretas, relacionadas a 453 casos de desaparecimento — dados cruciais para
identificar os milhares de desaparecidos no Brasil. Somente em 2025, foram
69.354 desaparecimentos até outubro, conforme dados do Sistema Nacional de
Informações de Segurança Pública (Sinesp). No Ceará, o sistema indica 2.376
pessoas desaparecidas em 2025, uma média de sete por dia.
Para além de demonstrar a importância da modernização
constante e da valorização dos profissionais dedicados à área, o resultado
representa um alento para milhares de famílias vítimas dos desaparecimentos,
que retomam sua dignidade emocional.
Os familiares com entes desaparecidos vivem o
que se chama de "perda ambígua", quando não se sabe o verdadeiro
status de vida ou morte do desaparecido. Segundo o estudo "Um olhar sobre
a saúde mental de familiares com entes desaparecidos: revisão de escopo",
a perda ambígua é o "tipo mais estressante de perda", por impedir a
resolução e a realização de rituais de apoio ao luto, além de provocar
"percepções confusas sobre os papéis familiares e sobre quem está dentro
desse núcleo ou não".
A celeridade das análises da Pefoce também possibilita a identificação de desaparecidos ainda em vida. Familiares que estejam a procura de um ente desaparecido podem ir à unidade da Pefoce com documento oficial de identificação com foto e, se possível, informações sobre a pessoa desaparecida, como nome completo, data de nascimento, local e data aproximada do desaparecimento. A coleta do material genético é simples, indolor e feita por meio de swab bucal. O serviço é gratuito e os dados passam a integrar o banco de perfis genéticos, que se comunica com sistemas de outros estados, ampliando as possibilidades de identificação.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.