segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Novos desastres climáticos desafiam as autoridades

Por O Globo

Pelo menos 83% do território do Rio e metade dos municípios brasileiros são vulneráveis a tragédias ambientais

A tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, um dos maiores desastres naturais da História do país, com mais de 900 mortes, completou 15 anos ontem. Desde 2011, líderes mundiais participaram de 14 conferências do clima, os alertas de especialistas sobre a iminência de novas catástrofes foram mais enfáticos e constantes, e novas tragédias aconteceram para confirmar que não são alarmistas. Temporais mataram 242 pessoas em Petrópolis e 133 em Pernambuco em 2022, 65 no Litoral Paulista em 2023 e 185 no Rio Grande do Sul em 2024, deixando cidades inteiras debaixo de água. Os números assustadores aparentemente não bastaram para que as medidas de prevenção necessárias fossem tomadas.

Reportagem do GLOBO mostrou que, apenas no conjunto de 30 municípios do estado do Rio, 83% do território é vulnerável a novas tragédias, segundo o relatório de avaliação de riscos de desastres provocados por chuvas, elaborado pela secretaria estadual de Planejamento e Gestão e pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos. Nessas áreas, há quase 1,7 milhão de domicílios em risco. Os municípios com a maior parcela do território sujeita a catástrofes são justamente os mais atingidos em episódios anteriores: Nova Friburgo, 96,3%; Bom Jardim, 94,3%; Petrópolis, 93,6%; Teresópolis, 91,8%.

Nos demais estados brasileiros, a situação não é diferente. Segundo a plataforma Adapta Brasil, 2.807 dos 5.570 municípios do país já estão em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade climática. O dado consta do relatório “Cidades verdes-azuis resilientes”, que reúne conhecimento científico e tecnológico atualizado para apoiar programas e ações de governos, empresas e da própria sociedade na construção de ambientes urbanos mais preparados e sustentáveis diante da crise climática.

Já passou da hora de os governos federal, estaduais e municipais agirem com urgência para, se não evitar por completo, ao menos minimizar os efeitos de tragédias climáticas. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) considera fundamental que as autoridades estejam preparadas para que o socorro imediato inclua — além da disponibilidade de abrigos temporários, medicamentos, alimentos e água — apoio psicológico a todos os impactados, assim como a identificação de áreas seguras e o estabelecimento de rotas de fuga. A lista de investimentos prementes tem de incluir aprimoramento da comunicação, para que a população compreenda riscos, alertas e alarmes. É necessário ainda atualizar mapeamentos de áreas suscetíveis aos riscos, dar destino adequado aos resíduos sólidos, priorizar obras de engenharia, reurbanização, arborização e drenagem, recuperar a vegetação nas margens de rios e controlar a erosão.

O investimento é alto, mas não há outro caminho. Ninguém espera mais que as metas de redução das emissões de gases causadores de efeito estufa sejam cumpridas e evitem que os desastres naturais se tornem cada vez mais frequentes e extremos. É preciso estarmos prontos para reduzir danos. Tragédias podem ocorrer a qualquer momento. Nenhum governante poderá alegar que terá sido por falta de aviso.

Transporte público requer planejamento e ação integrados

Por O Globo

Previsto para este trimestre, estudo do governo sobre 187 projetos deverá orientar investimentos

Está prevista para este trimestre a conclusão de um estudo iniciado em 2024 sobre a situação do transporte público em 21 capitais e regiões metropolitanas. Realizado pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades, o levantamento já identificou 187 projetos locais para atender à demanda até 2054. O objetivo é estimar investimentos, examinar boas práticas internacionais e propor modelos de governança e mecanismos de financiamento. Num país carente de planejamento de longo prazo, o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana é uma notícia alvissareira.

Cansados com superlotação, atrasos e desconforto em ônibus, trens e metrôs, os brasileiros têm abandonado o transporte público. Em 2017, os deslocamentos diários em ônibus representavam 45% do total. Em 2024, não chegaram a 31%, segundo a Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana. No mesmo período, o uso de carro próprio, moto e transporte por aplicativo deu um salto. Só que não há espaço nas ruas para tantos veículos transitarem.

Por isso os engarrafamentos crescem. Em dez capitais, os brasileiros gastam quase duas horas por dia (116,5 minutos) se deslocando, revela pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos. É muito tempo perdido, tornando a economia brasileira mais improdutiva. Para mudar a situação, é preciso incentivar o transporte público e garantir que ele reduza o tempo de deslocamento. São essenciais investimentos em corredores de ônibus, BRTs, VLTs, trens e metrôs.

O estudo do governo estima que, para implantar os 187 projetos nas 21 capitais e regiões metropolitanas, serão necessários R$ 434 bilhões. Contando com a receita das passagens, já será difícil encontrar recursos. Sem ela, qualquer melhoria se torna impossível. Esse é um setor já com subsídios altíssimos. Não há dinheiro sobrando no Tesouro para aumentá-los ainda mais.

Na atração de investimentos privados, governadores e prefeitos precisam criar uma governança que privilegie a racionalidade. Quando ônibus estaduais disputam usuários com os municipais, quando linhas de BRT da Prefeitura canibalizam linhas de metrô do estado, não há como ganhar eficiência. Estados, capitais e regiões metropolitanas devem ter uma gestão integrada do ponto de vista institucional, financeiro e técnico. Há bons exemplos a seguir. Em Pernambuco, as prefeituras de Recife e Olinda e o governo estadual criaram um consórcio público. Em Goiás, a capital, municípios da Região Metropolitana e o estado formaram uma câmara deliberativa. No Espírito Santo, as cidades delegaram ao governo estadual a gestão do sistema de transporte.

É uma lástima que, movido tão somente pela visão eleitoreira, o mesmo governo responsável pelo estudo sobre mobilidade ameace adotar a tarifa zero no país todo, política que condenará os brasileiros a décadas de serviços medíocres de transporte público. Não faz sentido autoridades federais se meterem a legislar sobre tarifas de transporte, atribuição dos governos locais. Seu dever é fornecer subsídios técnicos para as melhores escolhas. É o que se espera do estudo previsto para breve.

A marcha imperial de Trump

Por Folha de S. Paulo

Republicano captura Maduro, ameaça Groenlândia, o que põe em xeque a Otan, e abandona organismos globais

Nova doutrina deixou o campo da hipótese; Cuba está na fila, e a Colômbia, que emergia como próxima vítima, foi coagida a negociar

Donald Trump irrompeu 2026 colocando em marcha seu plano já bastante decantado de desconstrução da ordem internacional vigente desde que seu país dominou o Ocidente na esteira da vitória na Segunda Guerra Mundial.

Sem freios e contrapesos que modularam sua volúpia no primeiro mandato, o republicano já passara o primeiro ano de seu segundo termo a ruir as fundações do mundo como o conhecemos.

Da guerra tarifária às reviravoltas na tentativa de controlar conflitos do Oriente Médio à Ucrânia, com direito a intervenções militares quando lhe pareceram adequadas apesar do discurso isolacionista, a hiperatividade desaguou numa nova doutrina.

Lançada em dezembro, a Estratégia de Segurança Nacional poderia ser apenas mais um documento fadado aos escaninhos, como as 18 versões que a antecederam. Agora, é leitura obrigatória: o capítulo que trata da retomada do imperialismo regional no Hemisfério Ocidental acaba de deixar o campo da hipótese.

A intervenção militar ilegal de Trump contra o execrável ditador Nicolás Maduro foi um tiro de advertência, no qual se anunciou ao mundo que o republicano falava sério quando colocou no papel um plano para expulsar atores externos, como China e Rússia, do que vê como seu quintal.

Cuba está na fila, valorizada pelo status de joia da coroa do antiamericanismo desde 1959. A Colômbia, que emergia como uma próxima vítima, foi coagida a sentar-se à mesa para negociar.

Até um petroleiro com óleo embargado venezuelano, que envergou bandeira russa achando que isso o protegeria, foi apreendido perto da distante Islândia após uma operação militar. O governo de Vladimir Putin, preocupado com o que Trump lhe dará da Ucrânia, apenas resmungou.

A Casa Branca também voltou seu voluntarismo contra a Europa, que não sem razão qualifica como um continente de líderes fracos. Ato contínuo à captura de Maduro, Trump retomou sua obsessão pela Groenlândia.

Com sua posição estratégica no Ártico, no caminho de mísseis nucleares de silos russos e chineses e perto de rotas marítimas importantes, o território autônomo da Dinamarca tem 66% das jazidas de terras raras específicas para aplicações de alta tecnologia fora da China, rival dos EUA.

Ocorre que Copenhague faz parte da Otan, fundada pelos americanos em 1949. Sem previsão de que seus 32 membros se ataquem entre si, a aliança militar está fadada à implosão se Trump cumprir a ameaça de tomada da ilha —caso a venda seja refutada, como foi em 1946.

Ainda na mesma semana, o americano, enquanto enfrentava desgaste doméstico pela morte de uma cidadã pelo serviço de imigração, anunciou que os EUA deixarão 66 organismos internacionais, 31 deles da agônica ONU, que gostaria de ver fechada.

O mundo assiste atônito ao processo veloz —que, por atabalhoado, pode refluir sozinho.

Governo impotente contra garimpo e facções

Por Folha de S. Paulo

Justiça exige plano de desintrusão em terra indígena sob cerco da mineração ilegal controlada pelo CV

Documento da Funai relata ameaças a lideranças indígenas na Terra Sararé e afirma que grupos usam armamento pesado restrito, como fuzis

A atividade de garimpo, por si só, já impacta a segurança, a subsistência e a saúde de povos indígenas. Quando o crime organizado é adicionado à equação, cai-se numa espiral funesta de violência.

Desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a gestão petista enfrenta dificuldades em conter a mineração nesses territórios, tendo sido até instada pelo Supremo Tribunal Federal, em novembro de 2023, a apresentar um plano de desintrusão (expulsão de não indígenas).

A história agora se repete na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, que teve uma das maiores taxas de invasão por garimpeiros em 2023, conforme mostrou uma série de reportagens da Folha. Não à toa, a área constava do plano de desintrusão apresentado pelo governo em janeiro de 2024, atendendo à ordem do STF.

Na atual situação, o controle da mineração pela facção Comando Vermelho agrava o problema.

Em dezembro, a Justiça Federal determinou prazo de 45 dias para a entrega de um plano de expulsão dos invasores. Segundo a decisão, o governo não deu prioridade à crise e houve "omissão grave" em relação ao avanço da organização criminosa.

Documento da Funai de outubro relata ameaças a lideranças indígenas, uso de estradas que levam à aldeia dos nambikwaras e cooptação de indígenas para ocultar equipamentos. Cita, ainda, que os grupos atuam como milícias e usam armamento pesado restrito, como fuzis.

A violência aumenta com disputas entre integrantes da facção e guardas montadas por garimpeiros. Segundo a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foram registrados 46 homicídios na Terra Sararé entre 2022 e 2024.

Facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital há anos vêm diversificando seus negócios ilícitos para além do tráfico de drogas, com atuação nos setores de combustíveis, extração de madeira e ouro.

O fenômeno é conhecido e exige integração entre governos e forças de segurança, inclusive com rastreamento de operações financeiras, para ser contido.

O Ministério dos Povos Indígenas alega que operação recente liderada pelo Ibama na Terra Sararé resultou na destruição ou apreensão de 650 acampamentos, 170 escavadeiras, 500 motores e 90 mil litros de combustível.

Trata-se, porém, de mais uma medida pontual, enquanto o garimpo precisa ser combatido com atuação contínua de longo prazo, que fortaleça a fiscalização e aumente a presença do Estado, com infraestrutura, inteligência investigativa e segurança.

A normalização do improviso

Por O Estado de S. Paulo

Sem projeto claro, o governo Lula transforma o improviso em método e ajuda a agravar o desequilíbrio institucional do País que corrói a confiança na democracia

O Brasil encerrou mais um ano tendo naturalizado aquilo que deveria ser exceção: o improviso como método de governo. Decisões casuísticas, soluções provisórias eternizadas, flexibilizações recorrentes de regras fiscais, institucionais e administrativas passaram a ser justificadas por um estado de urgência permanente – muitas vezes produzido pelo próprio Palácio do Planalto. Sob o rótulo de “pragmatismo”, relativiza-se a previsibilidade; em nome da governabilidade, esgarçam-se compromissos. O resultado é um Estado que opera sem norte e uma democracia que se habitua perigosamente à instabilidade.

Esse quadro se agrava num contexto de desarranjo institucional já evidente. O equilíbrio entre os Poderes, pilar do regime democrático, vem sendo substituído por uma convivência disfuncional: um Executivo frágil e reativo, um Legislativo hipertrofiado e um Judiciário cada vez mais politizado. O Orçamento da União, capturado por interesses paroquiais no Congresso, perdeu sua função estratégica de planejamento para se tornar moeda de troca de curto prazo. Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal (STF), ao extrapolar suas atribuições, contribui para a confusão de papéis e para a erosão institucional.

Nada, porém, ocorre no vácuo. No centro desse processo está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este jornal tem insistido: trata-se de um mandato medíocre, conduzido por um Ministério fraco, sem coesão, sem densidade técnica e sem capacidade de formular políticas públicas estruturantes. A ausência de um projeto claro de país – que vá além da repetição de políticas conhecidas e do cálculo eleitoral permanente – faz do governo agente do desequilíbrio institucional, quando deveria ser seu principal fator de correção.

Lula, historicamente visto como um hábil articulador político, caminha para o fim do mandato se limitando à administração improvisada de crises e à acomodação oportunista de pressões. Governa-se por exceções sucessivas: contorna-se a regra fiscal, relativizam-se limites administrativos, tolera-se a deformação do Orçamento e aceita-se a judicialização excessiva como atalho político. A exceção vira método e a regra, obstáculo. Em vez de liderar a recomposição institucional, o Planalto adapta-se ao desarranjo e, ao fazê-lo, acaba por legitimá-lo. Não à toa, transformou o STF no seu braço político para enfrentar o Congresso.

A retórica presidencial insiste em apresentar flexibilidade como virtude e improviso como sensibilidade social. Esse improviso se manifesta de forma concreta: na alteração sucessiva de metas fiscais antes mesmo de sua tentativa de cumprimento; no uso recorrente de créditos extraordinários para financiar despesas previsíveis; na multiplicação de exceções no novo arcabouço fiscal; no relançamento de políticas antigas (como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e o PAC) sem redesenho estrutural; e na judicialização frequente de impasses políticos como atalho à negociação institucional.

Mas o custo dessa escolha é alto. Esse ambiente que conjuga o “mais do mesmo” com a aposta na sorte produz uma malaise perceptível na sociedade. Não se trata apenas de indicadores econômicos ou de frustrações pontuais, mas da sensação difusa de um país sem direção, governado no curto prazo e refém de disputas entre Poderes que operam sem limites claros, nem administrativos nem éticos. O resultado é o futuro sempre adiado em nome de urgências fabricadas.

É legítimo perguntar se é possível iniciar um novo ano prometendo estabilidade enquanto se governa pela exceção. A resposta é evidente. Sem previsibilidade institucional, não há planejamento econômico, tampouco sem responsabilidade fiscal e eficiência administrativa há confiança política; e sem respeito aos limites entre os Poderes, não há democracia saudável. A normalização do improviso cobra um preço elevado do Estado e da sociedade.

Para romper esse ciclo, o Brasil precisará mais do que slogans e gestos simbólicos. Exige-se liderança capaz de formular um projeto claro de país, restaurar o equilíbrio institucional e substituir o improviso por políticas consistentes. Até aqui, o governo lulopetista não demonstrou disposição nem capacidade para essa tarefa. Persistir nesse caminho é condenar o País a mais um ano de incerteza e estagnação. Com a eleição batendo à porta, custa acreditar que essa lógica será revertida.

As fissuras na teocracia do Irã

Por O Estado de S. Paulo

Combinação explosiva de crise econômica, repressão violenta e enfraquecimento geopolítico alimenta a mais ampla contestação social ao regime dos aiatolás nos últimos anos

A nova onda de protestos no Irã, que já dura cerca de duas semanas, é a culminação de uma crescente indignação social contra o regime teocrático que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. O estopim dos levantes, iniciados no final de 2025, é a grave crise econômica que corroeu o poder de compra do rial, acompanhada de índices de inflação e desemprego que tornaram insustentáveis as condições de vida para milhões de iranianos.

A partir de protestos de comerciantes localizados em Teerã, as manifestações se espalharam por todo o país, sobretudo em cidades como Mashhad, Isfahan e Shiraz. A pauta também se diversificou, unindo jovens, idosos, operários, estudantes, profissionais liberais e outros segmentos da sociedade em prol do restabelecimento das liberdades civis que há muito lhes foram tomadas à força pelos aiatolás.

A resposta do regime foi duríssima, como era esperado. Na quinta-feira passada, as autoridades iranianas impuseram um bloqueio total de acesso à internet no país, numa tentativa de interromper a articulação entre os manifestantes e impedir que informações sobre a brutal repressão aos protestos chegassem ao exterior. Debalde. Não só os relatos de violência vieram a público, como a asfixia motivou ainda mais as multidões.

Além das motivações econômicas, há um componente político incontornável a inflamar os protestos. O regime dá claros sinais de desgaste, seja pela idade avançada do aiatolá Ali Khamenei e pela incerteza em torno de sua sucessão, seja pelo descontentamento social acumulado ao longo de décadas de autoritarismo religioso – especialmente contra as mulheres.

Ademais, não se pode ignorar o contexto externo. O Irã tem enfrentado desafios geopolíticos significativos nos últimos anos, sobretudo desde 7 de outubro de 2023, quando o infame ataque do Hamas contra Israel deflagrou a guerra em Gaza. Embora não se possa responsabilizar diretamente Teerã pela ofensiva terrorista, o ataque irrompeu uma cadeia de eventos que alterou profundamente o equilíbrio regional. A reação militar de Israel e dos EUA obliterou a rede de alianças e grupos armados associados à projeção de poder do Irã no Oriente Médio.

Desde então, essa engrenagem desabou como um castelo de cartas. O enfraquecimento ou a destruição de grupos que fustigavam Israel e o Ocidente – entre eles o próprio Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no Líbano – reduziu sensivelmente a capacidade de dissuasão do regime iraniano. Somam-se a isso o desgaste provocado pela prolongada crise econômica e o consequente isolamento político, fatores que minaram a aura de poder que o regime cultivava para intimidar inimigos mundo afora e seus próprios cidadãos.

Dito isso, não se pode afirmar, ao menos por ora, que os protestos configuram uma revolução capaz de derrubar o aiatolá e promover uma transformação constitucional profunda. As forças de segurança continuam fortes nas ruas, controlam grandes centros urbanos e ainda dispõem de recursos consideráveis para sufocar qualquer dissidência. A ausência de uma liderança de oposição reconhecida por todo o país também limita a capacidade dos protestos de transformar indignação social em força política transformadora.

Contudo, é inegável que algo significativo está em curso no Irã. A atual onda de protestos combina insatisfação econômica generalizada, crítica corajosa às barbaridades do regime e participação social mais ampla, sem restrições de gênero ou faixa etária, segundo consta. O bloqueio da internet e a repressão violenta podem até fragmentar o movimento, mas não parecem ter dissuadido uma parcela considerável da população iraniana de desafiar abertamente o regime.

É cedo para antever quais desdobramentos concretos essa mobilização produzirá a curto ou médio prazos. A história recente do Irã recomenda cautela diante de prognósticos precipitados. O regime já sobreviveu a várias ondas de protestos desde 1979. Ainda assim, os sinais de seu desgaste são evidentes. A persistência dos protestos, a ampliação de sua base social e a disposição de desafiar a repressão indicam que a teocracia enfrenta uma contestação interna que, se ainda não pode ser vista como uma ruptura revolucionária, expõe as fissuras na estrutura de poder dos aiatolás.

O custo do chavismo para o Brasil

Por O Estado de S. Paulo

Crise humanitária na Venezuela revela o impacto concreto da ditadura além de suas fronteiras

Desde que o êxodo de venezuelanos fugindo da crise política, econômica e social em seu país ganhou contornos de crise humanitária, a partir de 2017, o Brasil busca formas de atender a uma população de refugiados que só cresce, pressionando a oferta de serviços públicos na fronteira. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, em janeiro de 2017 havia 438 famílias venezuelanas inscritas em programas de benefícios sociais depois de atravessar a fronteira com o Brasil. Em dezembro de 2024, foram registradas mais de 153 mil famílias que cruzaram o mesmo caminho para escapar das garras de Nicolás Maduro.

Acolher refugiados é uma obrigação legal e humanitária determinada pela Constituição, pelo Estatuto dos Refugiados e por tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Não há dúvida de que o governo brasileiro cumpre o seu dever ao ajudar venezuelanos expulsos de sua terra pela fome, inflação, desemprego, instabilidade política e violações generalizadas de direitos humanos que marcaram a era Maduro, adepto de um chavismo ainda mais autocrático e violento do que o do próprio Hugo Chávez.

A experiência de abrigar essa legião de desvalidos deveria bastar para fazer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT adotarem um tom mais severo em relação aos desmandos do agora ex-ditador, e não a complacência sempre dispensada ao “companheiro”. O chavismo tem imposto um preço alto ao Brasil, que vai desde o calote bilionário da Venezuela em operações de crédito que, segundo estimativas oficiais, já passa de R$ 10 bilhões, até o custo social de amparar milhares de maltratados pela ditadura venezuelana.

É um custo que não para de crescer. Quase 380 mil venezuelanos estão inscritos no Cadastro Único, via de acesso a programas sociais brasileiros. Os dados, do Painel de Informações Sociais para Refugiados e Migrantes Venezuelanos, mostram que em setembro de 2025 a quantidade de venezuelanos no Brasil atendidos pelo Bolsa Família, com benefício mínimo de R$ 600 mensais, chegou a 205,6 mil. Outros 14,6 mil recebiam o Benefício de Prestação Continuada (BPC), auxílio que corresponde a um salário mínimo mensal.

O censo demográfico do IBGE mostra que a população venezuelana residente no País aumentou 9.363% de 2010 (2.869) a 2022 (271.514). Dados do Observatório das Migrações Internacionais, publicados no final do ano passado, com base em registros da Polícia Federal, apontam 582 mil venezuelanos com residência ativa no País. Por esses números, pode-se concluir que ao menos um em cada três imigrantes venezuelanos recebe algum benefício social no Brasil.

Um país que exporta miséria, instabilidade e violações sistemáticas de direitos humanos cobra seu preço também de seus vizinhos. O Brasil, ao cumprir corretamente suas obrigações humanitárias, acaba arcando com as consequências de uma ditadura que insiste em se apresentar como projeto político legítimo. Ignorar essa realidade apenas transfere para o contribuinte brasileiro o ônus de um regime que fracassou em tudo o que prometeu. A solidariedade com o povo venezuelano não pode continuar servindo de álibi para a indulgência com seus algozes.

Apesar de acordo UE-Mercosul, mundo está mais protecionista

Por Valor Econômico

Anúncios da China e do México apontam que o mundo caminha mesmo na trilha de mais protecionismo e barreiras às transações comerciais

Tudo parece indicar que o acordo União Europeia-Mercosul deve ser finalmente assinado nos próximos dias, após 26 anos de negociações tortuosas. O presidente Lula celebrou o acordo como uma vitória do multilateralismo, enquanto a alemã Ursula von der Leyen destacou a liderança do bloco europeu em um momento em que EUA e China intensificam o uso do comércio como arma de coerção geopolítica. Apesar da importância do acordo, o maior pacto inter-regional da história, abrangendo € 111 bilhões (US$ 129 bilhões) em comércio e mais de 780 milhões de pessoas, outras notícias recentes apontam que o mundo caminha mesmo na trilha de mais protecionismo e barreiras às transações comerciais. A guerra tarifária lançada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em abril do ano passado, colocou em marcha mudanças estruturais na economia global, cujos danos se revelam lentamente e quase sempre tarde demais para serem revertidos.

Em 2025, a economia e o comércio global mostraram uma surpreendente resiliência diante da extraordinária elevação da tarifa média de importação dos EUA de 2,5% para até 27% - reduzida para 16,8% em novembro após Trump conceder diversas exceções e múltiplos “acordos” bilaterais. No entanto, para este ano a maioria das projeções aponta uma gradual desaceleração, com os economistas vendo um impacto mais pronunciado das tarifas de Trump e crescente incerteza geopolítica - o ano já começou disruptivo, com o ataque dos EUA contra a Venezuela e o ditador Nicolás Maduro, com consequências ainda incertas para a região e o resto do mundo. Na mais recente projeção da ONU, divulgada na quinta-feira (8), a economia global deverá crescer 2,7% este ano, abaixo dos 2,8% estimados para 2025, segundo o estudo “Situação e Perspectivas Mundiais”. Para o comércio global, a ONU prevê uma desaceleração, para um crescimento de 2,2% este ano, ante 3,8% estimados em 2025.

A ausência de retaliação dos países às tarifas de Trump - com exceção da China - ajudou a economia e o comércio global a evitarem os prognósticos pessimistas de meados do ano passado. Também o esforço de diversificação do comércio ajudou as principais economias a navegarem no ambiente mais desafiador. O Brasil, por exemplo, registrou em 2025 um superávit comercial de US$ 68,3 bilhões, mais do que o esperado inicialmente, embora inferior ao saldo de US$ 74,2 bilhões de 2024. Mas foi a China que mais se destacou no redirecionamento do comércio. Mesmo vendendo 30% menos para os EUA, a gigante asiática chegou em novembro com um saldo comercial superior a US$ 1 trilhão.

A agressividade com que a China despeja produtos baratos ao redor do mundo tem gerado reações, com Brasil, Índia e UE, por exemplo, impondo tarifas antidumping sobre produtos chineses. Mesmo assim, o desconforto entre os parceiros comerciais continua aumentando. Em dezembro, o presidente francês, Emmanuel Macron, ameaçou a China com mais tarifas caso Pequim não tome medidas para reduzir seu superávit comercial de mais de US$ 350 bilhões com a UE.

No lado chinês, com uma economia ainda atolada com a contração do seu mercado imobiliário, Pequim também tem erguido barreiras às importações para proteger seus produtores em meio ao fraco consumo interno. A carne brasileira, por exemplo, será alvo de uma sobretaxa de 55% no que exceder uma cota de importação da China de 1,1 milhão de toneladas este ano. Os chineses foram os maiores compradores da carne brasileira em 2025, com 1,6 milhão de toneladas.

Além da defesa do mercado doméstico, o protecionismo também está sendo usado como arma de coerção. Na semana passada, o governo chinês anunciou restrições às exportações de produtos relacionados a terras raras para o Japão, incluindo aqueles destinados a uso não militar, em meio à crescente tensão de dois rivais regionais históricos. Sob pressão dos EUA, seu maior parceiro comercial, o México impôs tarifas de 50% sobre importações da China e de outros países asiáticos com os quais não possui acordos de livre comércio. O tarifaço mexicano também atingiu o Brasil.

Em artigo recente, Gita Gopinath, ex-vice-diretora-gerente e economista-chefe do FMI (Valor, 7/1), alerta sobre os impactos das disputas em torno das tarifas e do caos das políticas. Ela cita o caso Brexit, aprovado por referendo. “Apesar do forte aumento da incerteza, o impacto econômico inicial foi mínimo. Mas uma década depois a estimativa é de que o Reino Unido tenha perdido entre 6% e 8% do PIB em comparação com o resultado que teria na sua trajetória pré-Brexit”, escreveu ela. Nos EUA, o aumento de mais de 14 pontos na tarifa média de importação contribuiu para elevar a inflação americana em 0,7 ponto porcentual. “Sem as tarifas, a inflação poderia ter retornado à meta de 2% do Federal Reserve”, acrescentou.

Nesse contexto, o acordo de livre comércio UE-Mercosul é bem-vindo e uma grande vitória institucional, mas como observou o diplomata brasileiro e ex-diretor-geral da OMC Roberto Azevêdo ao Valor (2/1): “Eu gostaria muito de ver o acordo ser assinado, por mais que ele não tenha o grau de ambição que eu gostaria. Mas o realismo me diz que eu só acredito nesse acordo quando ele estiver assinado. E talvez até depois, porque mesmo depois de assinado ainda pode haver surpresas”. Que assim não seja.

Tensões, ameaças e acordo: o tabuleiro global em 2026

Por Correio Braziliense

A proximidade desses dois eventos – um militar e outro comercial – mostra uma divergência de modelos no mundo contemporâneo: um baseado no uso direto da força e outro em instrumentos econômicos para gerar influência

 A atual disposição demonstrada pelos Estados Unidos em impor seu poderio bélico e suas ambições imperialistas dá sinais preocupantes. Sob o mandato de Donald Trump — apesar da resistência política interna e da desaprovação de parcela significativa dos eleitores norte-americanos —, 2026 começou com operações militares e ameaças que acendem o alerta pelo mundo. Diante das pretensões declaradas do presidente republicano, vários fóruns globais avaliam os riscos de rompimentos da ordem baseada em regras estabelecidas conjuntamente em defesa da harmonia entre as nações.

Neste domingo, Trump partiu pra cima de Cuba ao dizer que deve "fazer um acordo". "Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba — zero! Sugiro fortemente que façam um acordo, antes que seja tarde demais", publicou no Truth Social, sua plataforma de rede social. Já no sábado, os EUA comandaram o lançamento de uma série de ataques em larga escala contra o grupo jihadista Estado Islâmico em todo o território da Síria. A ofensiva foi em represália após a ação que, em dezembro do ano passado, matou três americanos no país do Oriente Médio, segundo as agências que atuam na conturbada região.

Mas, uma semana antes, em 3 deste mês, a operação que mais surpreendeu: a invasão militar à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores. Lideranças diversas e especialistas apontam que essa ação pode colocar os EUA fora da ordem jurídica mundial.

A intervenção em território venezuelano foi um dos episódios mais dramáticos na política externa norte-americana das últimas décadas, uma vez que violou princípios básicos de soberania e direito internacional, representando uma ameaça à estabilidade global e aos valores democráticos. Além disso, o fato de o motivo geopolítico central desse movimento estar ligado tanto à importância estratégica dos recursos naturais venezuelanos — especialmente petróleo — quanto à rivalidade direta com potências como China e Rússia, reforça que as peças do tabuleiro estão se mexendo de uma maneira que merece atenção.

Paralelamente à jogada dos EUA sobre a Venezuela, na sexta-feira passada o Mercosul e a União Europeia concluíram um acordo de livre comércio histórico, encerrando mais de 25 anos de negociações e criando uma área comum envolvendo cerca de 780 milhões de pessoas e um grande contingente de PIB global. Esse passo indica uma aposta no multilateralismo, na cooperação econômica e em normas previsíveis, justamente no momento em que o unilateralismo e o uso da força parecem prevalecer na política externa dos EUA.Enquanto Washington recorre à coerção militar, sem contar chantagens abertas, para alcançar objetivos estratégicos, as lideranças do Mercosul e da UE escolhem avançar em um instrumento geoeconômico de integração.

A proximidade desses dois eventos — um militar e outro comercial — mostra uma divergência de modelos no mundo contemporâneo: um baseado no uso direto da força e outro em instrumentos econômicos e diplomáticos para gerar cooperação e influência. Esse conjunto de fatos evidencia que a geopolítica contemporânea não é mais dominada por um único polo de poder, mas por uma interação de instrumentos econômicos, políticos e militares que competem em arenas distintas — desde mercados globais até princípios de direito internacional.

A invasão à Venezuela e as constantes tensões criadas por Trump tornam ainda mais urgente a busca de alternativas de diplomacia entre blocos, países e organismos mundiais consolidados. O poder militar e os recursos naturais não podem ser usados como estratégias para redefinir fronteiras, alianças e normas internacionais. E isso não apenas por motivos econômicos, mas, principalmente, para preservar um sistema global baseado em regras, estabilidade e cooperação.

Ceará é 1º lugar em identificação de desaparecidos

Por O Povo (CE)

Para além de demonstrar a importância da modernização constante e da valorização dos profissionais dedicados à área, o resultado representa um alento para milhares de famílias vítimas dos desaparecimentos, que retomam sua dignidade emocional

Relatório técnico mais recente da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), vinculado ao Ministério de Justiça e Segurança Pública (MJSP), traz uma boa notícia para o Ceará: o Estado liderou a identificação de pessoas desaparecidas no Brasil no último ano, com 37 pessoas identificadas pela Perícia Forense do Estado (Pefoce).

Os dados correspondem ao período de outubro de 2024 e outubro de 2025 e, segundo o Governo do Ceará, refletem os investimentos na área a partir da modernização de processos e ao reforço estrutural técnico da Pefoce. Do total, foram 28 identificações com a comparação de DNA entre familiares de pessoas desaparecidas e restos mortais sem identificação, e nove com cruzamento genético entre restos mortais e perfis de pessoas condenadas registrados no banco de dados.

Os bancos de perfis genéticos são uma das bases da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas (Lei n.º 13.812/2019). Na última Mobilização Nacional de Identificação de Pessoas Desaparecidas, realizada em agosto de 2025, foram coletadas 592 amostras biológicas de referências de familiares e 20 amostras de referências diretas, relacionadas a 453 casos de desaparecimento — dados cruciais para identificar os milhares de desaparecidos no Brasil. Somente em 2025, foram 69.354 desaparecimentos até outubro, conforme dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). No Ceará, o sistema indica 2.376 pessoas desaparecidas em 2025, uma média de sete por dia.

Para além de demonstrar a importância da modernização constante e da valorização dos profissionais dedicados à área, o resultado representa um alento para milhares de famílias vítimas dos desaparecimentos, que retomam sua dignidade emocional.

Os familiares com entes desaparecidos vivem o que se chama de "perda ambígua", quando não se sabe o verdadeiro status de vida ou morte do desaparecido. Segundo o estudo "Um olhar sobre a saúde mental de familiares com entes desaparecidos: revisão de escopo", a perda ambígua é o "tipo mais estressante de perda", por impedir a resolução e a realização de rituais de apoio ao luto, além de provocar "percepções confusas sobre os papéis familiares e sobre quem está dentro desse núcleo ou não".

A celeridade das análises da Pefoce também possibilita a identificação de desaparecidos ainda em vida. Familiares que estejam a procura de um ente desaparecido podem ir à unidade da Pefoce com documento oficial de identificação com foto e, se possível, informações sobre a pessoa desaparecida, como nome completo, data de nascimento, local e data aproximada do desaparecimento. A coleta do material genético é simples, indolor e feita por meio de swab bucal. O serviço é gratuito e os dados passam a integrar o banco de perfis genéticos, que se comunica com sistemas de outros estados, ampliando as possibilidades de identificação. 

 

 

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