Disputa entre China e EUA exige nova estratégia do Brasil
Por O Globo
Doutrina Trump desafia Itamaraty a renegociar
termos que tragam benefícios ao país
A nova doutrina geopolítica de Donald Trump
impõe desafio não trivial à diplomacia brasileira. A captura do ex-ditador
Nicolás Maduro pelos americanos e a intenção declarada de Trump de assumir o
controle do petróleo venezuelano deixaram claro para a América Latina que a
reedição da Doutrina Monroe com seu Corolário Trump não é bravata.
Enquanto os Estados Unidos mantinham distância do continente, a China aproveitou para fincar raízes. Passou a financiar projetos de infraestrutura, a erguer fábricas e a firmar parcerias em setores estratégicos, como energia, mineração ou agronegócio. Agora, o Itamaraty será testado na defesa dos laços brasileiros com a China, maior parceiro comercial brasileiro, mas também na negociação de termos vantajosos na maior aproximação com Washington.
Será preciso desenvolver uma estratégia que
leve em conta várias questões. O Brasil conta com a
segunda maior reserva mundial de terras-raras e outros minérios críticos para a
transição energética. A economia brasileira apresenta alto grau de
digitalização, que torna o país mercado crucial para o desenvolvimento de
tecnologias como a telefonia celular de sexta geração (6G) ou a inteligência
artificial (IA). Em todas essas áreas, há um conflito latente entre os
interesses chineses e americanos, que será preciso saber mediar em favor do
Brasil.
O país aproveitou a aproximação com a China
apostando num mundo multipolar — ela se tornou o maior importador da soja
brasileira, mercado em que o principal concorrente são os Estados Unidos. Esse
quadro começou a ser abalado a partir da negociação entre chineses e americanos
depois do tarifaço de Trump — os Estados Unidos exigiram da China prioridade à
soja americana. Caso situações desse tipo se repitam no futuro, será difícil
para o Brasil fazer valer seus interesses diante de países com muito mais
poder.
Outra preocupação da diplomacia deve ser
melhorar a qualidade das transações comerciais. No relacionamento com a China,
o Brasil basicamente exporta matérias-primas e importa manufaturados. A pauta
do comércio com os Estados Unidos é mais diversificada, com mais industrializados
nas exportações brasileiras. O recuo de Trump na imposição de tarifas ainda não
contemplou boa parte desses produtos. Ainda é possível alcançar resultados mais
satisfatórios com negociações bem conduzidas.
A estratégia brasileira deve se estender a
minerais cobiçados, como terras-raras. O Brasil engatinha na exploração de suas
reservas, e seria frustrante converter-se em mero fornecedor primário. Deveria
aproveitar o momento para atrair refino e beneficiamento desses minérios,
absorvendo a tecnologia hoje controlada pelos chineses.
O mesmo objetivo deve ser almejado na atração
de data centers para processamento dos dados necessários ao funcionamento dos
sistemas de IA. Há interesse em localizá-los no Brasil, em razão da matriz
energética limpa (tais centrais são consumidores vorazes de eletricidade).
Novamente, o país precisará saber aproveitar a oportunidade para desenvolver
recursos humanos e incorporar tecnologia dos americanos.
Não será fácil redefinir o ponto de
equilíbrio entre Washington e Pequim. Mas um fato deve ser evidente: a pior
forma de atingi-lo é guiar as decisões diplomáticas por preferências
ideológicas. Se fizer isso, alinhando-se a um dos polos, o Brasil só terá a
perder.
Incentivo à vacinação não tem sido suficiente
para proteger população
Por O Globo
Apesar da melhora depois da pandemia, apenas
duas vacinas atingiram meta de cobertura em 2025
Apenas duas das 30 vacinas oferecidas
gratuitamente pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) cumpriram no ano
passado a meta de cobertura, de pelo menos 90%. A BCG, contra a tuberculose,
atingiu 96,8%. A vacina contra
hepatite B, 95,1%. Mesmo a vacina contra a poliomielite, popular no passado,
registrou adesão abaixo de 90%. A tríplice viral, contra sarampo, rubéola e
caxumba, ficou em preocupantes 79%.
Não faltam motivos para vacinar a população.
“Doenças que eram grande flagelo, como diarreias, sarampo ou pneumonias,
ficaram sob controle. Vivemos uma redução drástica na mortalidade infantil”,
diz Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. Estudo
recente publicado na revista médica britânica The Lancet estimou que, nas
últimas cinco décadas, as vacinas salvaram 154 milhões de vidas, ou seis por
minuto (101 milhões delas, de crianças).
As coberturas vacinais começaram a cair no
Brasil a partir de 2015, seguindo uma tendência percebida no mundo todo desde
2009. Em consequência, doenças contagiosas que já haviam sido controladas
voltaram a ameaçar. Depois de perder o certificado de país livre do sarampo em
2019, o Brasil voltou a recuperá-lo em 2024. Mas não pode haver tranquilidade
com coberturas deficientes. Surtos recentes nos Estados Unidos e no Canadá
levaram a América do Norte a também perder a certificação de região livre da
doença.
Vários fatores têm contribuído para a queda
na cobertura no Brasil. Na descrição de Carolina Barbieri, gestora médica de
Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan, os principais foram
“desabastecimento de vacinas; mais mulheres no mercado de trabalho, consequentemente,
com menor disponibilidade de levar os filhos aos postos de saúde; mudanças no
sistema de informação do PNI, que passou a ser nominal, trazendo mais
complexidade às notificações; além das fake news sobre os imunizantes”. Depois
de queda expressiva durante a pandemia, a cobertura vacinal voltou a se
recuperar em 2022, mas os índices de imunização ainda estão longe do nível
ideal.
O próprio efeito positivo das vacinas, ao
diminuir a incidência de diversas doenças, costuma levar a população a se
descuidar, pela falsa ideia de que está segura e protegida, quando, na verdade,
os vírus continuam a circular. À primeira brecha na barreira de proteção da
população, eles voltam a atacar.
Todas as instâncias da administração pública precisam tomar as medidas necessárias para a população manter a vacinação em dia. Antes de tudo, são necessários estoques de vacina em quantidade suficiente. Tem sido frequente o desperdício de doses com prazo de validade expirado, prova eloquente das falhas na gestão da distribuição. Também não se podem menosprezar as dificuldades logísticas num país de dimensões continentais como o Brasil. Por fim, continuam essenciais campanhas duradouras de esclarecimento que combatam a desinformação que continua a circular com mentiras sobre os efeitos das vacinas. Há uma guerra a vencer para controlar as doenças.
A dura tarefa de disciplinar as emendas
parlamentares
Por Folha de S. Paulo
Dino veda repasses a ONGs de parentes de
congressistas, e Lula faz remanejamentos que são só remendos
Orçamento prevê R$ 60 bi para emendas;
reverter tal anomalia passa por entendimentos institucionais, que dependem de
pressão da sociedade
Por meio de emendas, deputados federais e
senadores podem hoje decidir o destino de pelo menos um quarto do Orçamento não
destinado a despesas obrigatórias. A depender da evolução das receitas, a
parcela neste 2026 pode passar de um terço do gasto discricionário.
A responsabilidade pela determinação de
tamanho volume de recursos seria já em si enorme e controversa. O caso se torna
mais grave devido ao fato de que o montante seja manipulado sem que existam
projetos de aplicação, verificação de resultados e punições por ineficiências.
Pior, não é raro
que tais verbas sejam desencaminhadas, em aplicações que beneficiam
negócios e propriedades de parlamentares, ou simples objeto de corrupção.
Desde 2024, o ministro Flávio Dino,
do Supremo Tribunal Federal (STF), dedica-se
a limitar a falta de transparência na elaboração e execução de emendas. Conteve
a transferência opaca de recursos para governos municipais e estabeleceu
critérios técnicos de elaboração de projetos. Acabou, assim, por forçar o
Congresso a promover normas mínimas para o uso desse dinheiro.
Em uma nova investida, Dino acaba de proibir
que um parlamentar destine
verbas para ONGs administradas por parentes. É mais uma tentativa de
circunscrever a privatização de recursos públicos, embora limitada —há emendas
de autoria coletiva pelas quais parlamentares podem encaminhar dinheiro a uma
entidade da família de um colega, em troca do mesmo favor.
Levantamento do jornal O Globo mostrou que
repasses de emendas para ONGs se multiplicam desde 2019, atingindo o recorde de
R$ 1,7 bilhão em 2025. Tudo indica, pois, que se trata de um mecanismo de
apropriação quase direta de verbas.
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
também procura conter o arbítrio do Legislativo. Vetou R$ 400 milhões, travou a
execução de mais de R$ 3 bilhões e pretende remanejar outros R$ 7 bilhões em
emendas no Orçamento de 2026 —aprovado com cerca de R$ 60 bilhões
em despesas fixadas por deputados e senadores.
São remendos em um tecido institucional roto
pela expansão do poder congressista sem o equivalente aumento da
responsabilização, da capacidade técnica e da lisura. O uso de emenda como
instrumento paroquial e ineficiente de gasto público entranha-se no sistema
político, forma currais, financia aliados regionais e diminui a concorrência
eleitoral. Tornou-se vital para a corporação parlamentar.
Reverter esse processo —que se intensificou
ao longo de uma sequência de presidentes politicamente fragilizados desde o
segundo mandato de Dilma
Rousseff (PT)— exigirá um complexo entendimento institucional.
Chegar a ele dependerá da força do Palácio do
Planalto, de compromissos políticos e pressões da sociedade. Nas piores
hipóteses, a mudança será forçada por escândalos incontornáveis ou por uma
crise fiscal aguda.
Mais cuidado com as áreas verdes de São Paulo
Por Folha de S. Paulo
Após demandas populares e decisões da
Justiça, prefeitura suspende permissões para derrubadas de árvores
Não se trata de travar o desenvolvimento, mas
autorizações devem ser criteriosas, e políticas de compensação podem ser
reavaliadas
As mobilizações populares em defesa da
arborização da capital paulista, ao lado de decisões da Justiça, têm produzido
efeitos sobre a gestão de Ricardo Nunes (MDB).
Na última segunda (12), a
prefeitura suspendeu por tempo indeterminado a autorização,
emitida em agosto do ano passado, para que uma construtora derrubasse três
árvores em empreendimento no bairro de Pinheiros.
A medida junta-se a outra do governo Nunes,
que em novembro interrompeu o corte de 14 árvores na associação A Hebraica,
clube da comunidade judaica.
Pode parecer pouco, mas cada metro quadrado
de área verde importa numa metrópole permeada por ilhas de calor e que vem
sendo cada vez mais impactada pela mudança
climática oriunda do aquecimento global —como os temporais que
derrubam árvores e o fornecimento de energia.
Quando a água liberada por plantas evapora,
retira-se calor do ambiente. Já asfalto e concreto absorvem grande quantidade
de calor durante o dia e o liberam lentamente à noite. Surgem as ilhas de
calor: zonas mais quentes da cidade, que continuam assim mesmo após o pôr do
sol.
Ademais, áreas verdes retêm a água das
chuvas, contendo alagamentos. Centros na Europa e na China já estão
implementando desenhos
urbanísticos conhecido como cidades-esponja, que visam drenar e
escoar essa água de forma natural por meio do aumento da vegetação.
O elevado custo desse tipo de projeto pode
ser por ora impeditivo no Brasil, mas a cidade mais rica do país tem o dever de
ao menos manejar suas áreas verdes de forma racional, levando em consideração a
crise do clima.
O Judiciário paulista precisou intervir. Em
dezembro, determinou a paralisação imediata de supressão arbórea na obra de uma
construtora no chamado Bosque dos Salesianos, no Alto da Lapa.
Um mês antes, a derrubada de 384 árvores por um empreendimento imobiliário no
Butantã foi
interrompida pela Justiça.
Não se trata de travar o desenvolvimento, mas
autorizações devem ser criteriosas e menos açodadas, e as políticas de
compensação podem ser reavaliadas em prol do bem-estar da população.
Com suas duas suspensões recentes, a prefeitura parece ao menos estar atenta. Em outubro, deu início ao Inventário da Arborização Urbana, que vai identificar e catalogar as mais de 650 mil árvores em vias públicas da capital e está previsto para ser concluído em três anos. Trata-se de mapeamento crucial para o manejo técnico da vegetação que há muito tempo já deveria ter sido feito.
O Brasil não é refém de Lula e Bolsonaro
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisas eleitorais recentes expõem uma
direita dividida entre a competitividade institucional e o peso do
bolsonarismo. Mas o País não pode se ver como prisioneiro desse cenário
As primeiras pesquisas eleitorais de 2026,
divulgadas nos últimos dias pelos institutos Genial/Quaest e Meio/Ideia, ajudam
a organizar o debate sobre a sucessão presidencial deste ano. Lidas em
conjunto, evidenciam o quanto o Brasil ainda permanece dividido e revelam, ao
mesmo tempo, um presidente competitivo, alternativas moderadas sendo travadas e
o avanço de uma candidatura que vive, sobretudo, da herança política do
bolsonarismo. Como toda pesquisa eleitoral, esses levantamentos apenas retratam
o momento. Num cenário ainda em formação, com candidaturas não oficializadas e
estratégias em disputa, os ventos políticos mudam com maior rapidez.
Feita essa ressalva, convém registrar que a
Quaest confirma um ponto central já indicado pela pesquisa Ideia. Entre os
nomes hoje testados, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, segue como
o adversário mais competitivo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em
um eventual segundo turno. No confronto direto, Lula aparece com 44% das
intenções de voto, contra 39% de Tarcísio – uma diferença estreita, dentro da
margem de erro, que não se repete quando o petista enfrenta outros governadores
da direita ou candidatos de menor projeção nacional. O governador do Paraná,
Ratinho Junior, que acaba de se apresentar como pré-candidato à Presidência,
aparece como o terceiro nome mais competitivo da direita.
Tarcísio ainda é o nome mais capaz de ameaçar
a tentativa de reeleição de Lula. No primeiro turno, contudo, o governador
paulista permanece travado. Nos cenários testados pela Quaest, Lula lidera com
porcentuais que variam de 40% a 35%, enquanto Tarcísio aparece em patamares
mais baixos (27%, na melhor hipótese), atrás do senador Flávio Bolsonaro (32%
no melhor cenário para ele). É aí que se impõe o lamento da direita
democrática: uma candidatura com maior potencial eleitoral e perfil mais
institucional segue desperdiçada, refém de um campo político sequestrado pelo
bolsonarismo na fase pré-eleitoral. O custo dessa captura é elevado – não
apenas para a direita, mas para a qualidade do debate público.
Por outro lado, a mesma pesquisa mostra a
consolidação de Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula no campo da
direita. No primeiro turno, o “zero um” aparece com intenções de voto entre 23%
e 32%, conforme o cenário, superando Tarcísio e os demais governadores da
direita. No segundo turno contra Lula, o senador ainda perde – 45% a 38% –, mas
com desempenho suficiente para se apresentar como candidato competitivo. Esse
avanço não decorre de trajetória própria nem de um projeto nacional
consistente, mas, em grande medida, da incorporação quase automática do
eleitorado fiel a Jair Bolsonaro, fenômeno que este jornal já apontou (ver
editorial O nome do pai, 19/12/2025).
Com essa consolidação, torna-se difícil
imaginar que Flávio desista da disputa, salvo em um cenário de racha explícito
na família. O contraste é eloquente: enquanto Flávio ocupa redes sociais e
espaços na mídia como candidato declarado, Tarcísio segue equilibrando pratos
de forma cuidadosa, quase silenciosa, preso a um cálculo que combina cautela
institucional, lealdade política e receio de confrontar o bolsonarismo mais
radical.
As pesquisas ainda acrescentam um pano de
fundo decisivo: o País segue dividido sobre a permanência de Lula no poder.
Segundo o Instituto Ideia, 46,9% avaliam que o presidente merece continuar no
cargo, enquanto 50% defendem o contrário. Na Quaest, 56% afirmam que Lula não
merece um novo mandato. A margem é estreita, e a disputa, aberta.
Não está escrito nas estrelas que o Brasil
está condenado a um duelo empobrecido e reciclado entre lulismo e bolsonarismo.
O País não é prisioneiro desse cenário. A democracia brasileira é mais ampla do
que essa dicotomia estéril. Há espaço – e necessidade – para lideranças que
saibam disputar o poder sem sequestrar campos inteiros do espectro político,
que ofereçam projetos em vez de heranças e que compreendam que vencer eleições
é apenas o começo. Superar esses limites é uma urgência nacional.
Trump não se preocupa com a democracia
Por O Estado de S. Paulo
Ao ignorar a Constituição venezuelana e
aviltar o Direito Internacional, Trump faz da crise na Venezuela um instrumento
de poder, não uma oportunidade de reconstrução democrática
Depois de descartar a realização de eleições
na Venezuela, o presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu divulgar em sua rede
social, a Truth Social, uma montagem em que aparece como “presidente interino”
do país sul-americano. A essa altura, poucas pessoas ainda se surpreendem com
as excentricidades do republicano. O gesto, no entanto, vai além da provocação:
ele explicita que a democracia venezuelana e o sofrimento de sua população não
estão entre as prioridades da Casa Branca.
O infortúnio do ditador Nicolás Maduro, agora
detido em Nova York, não desperta a solidariedade dos genuínos democratas.
Ainda assim, sua captura por forças militares dos EUA representou uma flagrante
violação do Direito Internacional e ignorou o próprio Congresso norte-americano.
Trata-se de um precedente grave, independentemente de quem seja o alvo da ação.
Dado que Maduro, por óbvio, não retornará ao
Palácio de Miraflores, o mínimo esperado seria uma atuação firme de Washington
para garantir que a vontade livre e soberana dos venezuelanos finalmente
prevalecesse. Mas essa expectativa é ociosa. Como afirmou Trump à NBC News,
“primeiro, precisamos consertar o país. Não dá para ter eleição. Não há a menor
chance de as pessoas sequer votarem”.
A Constituição venezuelana é inequívoca: em
caso de “falta absoluta” do presidente nos primeiros quatro anos de mandato,
uma nova eleição deve ser convocada no prazo de 30 dias. Mas, para alguém que
frequentemente despreza os limites dados pela ordem jurídica de seu próprio
país, o que seria a Lei Maior de uma nação sul-americana senão letra morta?
Orientado pela nova Estratégia de Segurança
Nacional da Casa Branca, Trump vem aplicando sua leitura renovada da Doutrina
Monroe – “a América para os americanos” – e reforçando a lógica de um mundo
dividido em esferas de influência. A isso se somam interesses econômicos
diretos. O presidente norte-americano mira a maior reserva comprovada de
petróleo do planeta, localizada na Venezuela, e pretende explorá-la em
benefício próprio. Só não avançou mais nesse objetivo porque as próprias
petroleiras dos EUA hesitam em investir em um país mergulhado em incerteza
política e institucional.
Como observou o cientista político Carlos
Gustavo Poggio em publicação no X, durante o pronunciamento feito em Mar-a-Lago,
logo após a ação militar na Venezuela, Trump mencionou a palavra “petróleo” 15
vezes. “Democracia” não foi citada uma única vez.
Há quem enxergue méritos nessa postura. Além
de ter removido um facínora do poder, Trump não seria hipócrita como outros presidentes
norte-americanos, dado o histórico de intervenções dos EUA, supostamente em
nome da democracia – tão extenso quanto fracassado. A suposta franqueza, porém,
também serve para mascarar uma hipocrisia de outra natureza.
O que se observa, até aqui, é uma acomodação
da Casa Branca com figuras centrais do regime bolivariano, como a presidente
interina, Delcy Rodríguez, que integrou com Maduro a chapa “vencedora” da
eleição fraudada de 2024. Permanecem intocados seu irmão, Jorge Rodríguez,
presidente da Assembleia Nacional, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, e
o ministro da Defesa, Vladimir Padrino. Todos são quadros históricos do
chavismo e corresponsáveis pelo colapso institucional e humanitário do país
desde a era Hugo Chávez.
Não surpreende, portanto, o crescimento das
suspeitas de que Trump, movido por interesses estratégicos e econômicos, e a
cúpula remanescente do regime, empenhada em preservar poder e dinheiro, tenham
chegado a algum tipo de acordo no qual os interesses mais prementes da população
venezuelana são absolutamente irrelevantes. O resultado é perverso: Maduro saiu
de cena, mas as garras do regime permanecem afiadas.
Ao relegar a democracia a um papel
secundário, Trump não apenas mantém a Venezuela em um estado de profunda
incerteza, como também abre espaço para que seus principais adversários
geopolíticos – China e Rússia – ainda se sintam autorizados a agir de forma
igualmente arbitrária em qualquer parte do mundo. O custo dessa postura tende a
ser alto – e não só para a Venezuela.
Impessoalidade em prática
Por O Estado de S. Paulo
Ricardo Nunes agiu como manda a Constituição
ao não interferir na prisão de sua irmã
A prisão de Janaina Reis Miron, irmã do
prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), por força de mandados judiciais em
aberto, lançou luz sobre uma das principais vitrines da atual gestão municipal:
o programa Smart Sampa, sistema de monitoramento e reconhecimento facial
espalhado por ruas e avenidas da capital paulista. O episódio, por envolver um
familiar direto do chefe do Poder Executivo paulistano, exigia da Prefeitura
uma postura inequívoca de respeito à ordem jurídica e às instituições – e foi
isso o que se viu.
Identificada por câmeras do sistema e detida
na zona sul de São Paulo, Janaina era considerada foragida da Justiça depois de
descumprir pena alternativa após condenações por desacato, lesão corporal e
embriaguez ao volante. Os fatos que deram origem ao processo ocorreram em 2022,
quando, abordada por policiais em Botucatu (SP), a sra. Miron se recusou a
cooperar, ofendeu e ameaçou agentes públicos e ignorou as sanções que lhe foram
impostas pela Justiça. A conversão da pena em prisão decorreu de seu próprio
desdém às determinações judiciais.
Diante disso, a reação de Nunes foi correta:
objetiva e impessoal. Em nota, a Prefeitura afirmou que “a prisão está amparada
em mandados judiciais, obedeceu ao rigor da lei e foi executada seguindo os
critérios de identificação do Smart Sampa”. Ao fazê-lo, a administração
municipal reafirmou um princípio elementar do Estado de Direito: decisões
judiciais não podem ser relativizadas em função dos vínculos pessoais dos
sentenciados.
O caso, ademais, reforça a natureza impessoal
de uma política pública que vem apresentando resultados concretos. Assim como o
Muralha Paulista, do governo estadual, o Smart Sampa acumula números
auspiciosos: milhares de foragidos da Justiça capturados, prisões em flagrante
e pessoas desaparecidas localizadas, reunindo famílias que antes viviam a
angústia da separação de seus entes queridos. São dados que explicam por que o
programa Smart Sampa se tornou peça central da estratégia de segurança urbana
da capital paulista.
Nada disso, porém, autoriza exaltação.
Afinal, o prefeito não fez mais do que cumprir seu dever constitucional. Agir
de forma impessoal não é uma escolha do administrador público, mas uma
obrigação inscrita no artigo 37 da Constituição, que rege a administração
pública. Ao não interferir, não condescender e não personalizar o episódio da
prisão de sua irmã, Nunes apenas se submeteu ao que a lei exige de qualquer
governante.
Dito isso, em um país no qual a mixórdia entre interesses públicos e privados e o tratamento privilegiado que é dispensado a familiares de autoridades, lamentavelmente, não são raros, a normalidade institucional é digna de nota deste jornal. Não como um elogio pessoal a Nunes, mas como parâmetro de conduta a ser observado por todos os servidores públicos. A reação republicana à prisão de sua irmã, por si só, não engrandece a gestão do prefeito da maior cidade do País. Apenas demonstra que, nesse caso, as instituições funcionaram como devem funcionar. E é exatamente isso – nada mais, nada menos – que se espera de uma democracia madura.
Fraude ameaça virar crise de confiança
institucional
Por Correio Braziliense
Decisão do ministro Dias Toffoli de prorrogar
por mais 60 dias as investigações sobre suspeitas de irregularidades confirma
que não se trata apenas de um escândalo bancário. Trata-se de um teste de
estresse da própria arquitetura institucional que sustenta a economia
brasileira.
Não existe normalidade quando o caminho do
dinheiro faz com que a fraude se misture ao poder. O crime se torna uma grave
patologia institucional. A decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo
Tribunal Federal (STF), de prorrogar por mais 60 dias as investigações sobre
suspeitas de irregularidades na operação envolvendo o Banco Master e o Banco de
Brasília (BRB) confirma que não se trata apenas de um escândalo bancário.
Trata-se de um teste de estresse da própria arquitetura institucional que sustenta
a economia brasileira.
A Polícia Federal (PF) aponta que o Master
teria emitido Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com promessa de
rentabilidade de até 40% acima da taxa básica do mercado — retorno que, na
lógica financeira, soa irreal sem risco extremo ou mecanismos artificiais. O
volume estimado do esquema, na casa de R$ 12 bilhões, agrava o quadro. O que
parecia um problema bancário localizado passa a ter sinais de engrenagem
estruturada: uso de fundos de investimento, elos societários e familiares,
transações entre partes relacionadas, ativos sem liquidez e artificialmente
precificados, além de suspeitas de laranjas e sócios ocultos.
A tipificação mencionada nas apurações
evidencia a gravidade: organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição
financeira, indução de investidores ao erro, uso de informação privilegiada,
manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Isso revela uma quebra de
paradigma: não se trata de inadimplência ou erro de gestão, mas de possíveis
fraudes sistemáticas que podem ter explorado vulnerabilidades do mercado de
capitais e, sobretudo, a confiança pública. E confiança é o elemento invisível
mais importante da estabilidade econômica.
A crise ganha contornos sistêmicos não
necessariamente pelo tamanho do banco, mas pela interconexão e pelo efeito
dominó. Se a percepção pública for a de que regras podem ser contornadas, o
resultado é previsível: investidores recuam, o custo de captação aumenta, o
crédito encarece e a credibilidade do mercado sofre um dano que não se resolve
com discursos, apenas com instituições funcionando dentro de suas competências.
O ponto de maior sensibilidade institucional
está na tentativa de venda do Master ao BRB, que chegou a avançar, mas foi
barrada pelo Banco Central (BC). Há indícios, segundo a PF, de envolvimento de
dirigentes do BRB no esquema. A suspeita de ativos inflados — inclusive com
créditos inexistentes — para melhorar artificialmente a situação do banco antes
de uma possível negociação torna o episódio ainda mais grave. Ao vetar a
operação, o BC reafirmou um princípio essencial: prudência regulatória não pode
ser substituída por acomodação política.
É nesse momento que o Estado Democrático de
Direito precisa mostrar solidez. O Banco Central tem atribuição legal e
constitucional para zelar pela estabilidade do sistema financeiro e pela
integridade prudencial do mercado. A PF deve investigar crimes complexos,
rastrear fluxos e identificar redes de fraude. O Ministério Público Federal é o
titular da ação penal e fiscal da lei, com independência para conduzir a
acusação e requisitar diligências. O Tribunal de Contas da União atua para
proteger o patrimônio público e fiscalizar operações que possam envolver risco
ao erário. E o STF deve garantir o devido processo, a competência adequada e o
equilíbrio institucional, evitando que o tribunal seja percebido como
protagonista de uma crise que deveria arbitrar.
O risco maior não é apenas a fraude: é a erosão de fronteiras. Quando surgem decisões fora da praxe, disputas sobre custódia de provas e sinais de tensão entre órgãos, o país corre o risco de substituir o devido processo por uma guerra institucional. No mercado financeiro, essa percepção é particularmente tóxica, porque a estabilidade depende da crença de que as regras são previsíveis e valem para todos.
Do papel à prática: o desafio de proteger 22
mil mulheres
Por O Povo (CE)
Com mais de 22 mil medidas protetivas em
2025, o Ceará enfrenta o desafio de garantir que a ordem judicial não seja
apenas papel, especialmente no Interior
A expressiva alta nas solicitações de medidas
protetivas no Ceará em 2025, ultrapassando a marca de 22 mil pedidos, é um dado
de magnitude incontornável, merecendo considerações. O número carrega uma
dualidade intrínseca: por um lado, sinaliza que a mulher cearense, mesmo imersa
em ciclos de violência, confia nas instituições de Justiça para buscar socorro.
Por outro, lança sobre o Estado a responsabilidade de garantir que essas
milhares de decisões judiciais não se convertam em letras mortas.
Não há tinta de caneta de magistrado que pare
bala ou faca se não houver um aparato de segurança pública robusto para
fiscalizar o cumprimento da normativa. É neste ponto nevrálgico que o Governo
cearense deve ser cobrado com rigor.
A estrutura de proteção, embora tenha
avançado, sofre de macrocefalia crônica: concentra-se em Fortaleza e grandes
centros, deixando os pequenos municípios à mercê do improviso.
Em cidades onde o anonimato inexiste, a
vítima muitas vezes não dispõe de uma delegacia especializada ou abrigo. Sem
uma rede capilarizada e materialmente equipada, a medida protetiva no sertão
corre o risco de ser apenas um documento burocrático.
Além da presença física da polícia, há uma
lacuna de inteligência. O Estado precisa refinar o perfil dessas mulheres. Quem
são as 22 mil cearenses que pediram socorro no último ano? Compreender o
contexto socioeconômico e territorial que fermenta a violência é vital. Sem
diagnóstico preciso, as políticas públicas estão no escuro.
Contudo, a repressão e a concessão de medidas
são apenas parte da ação. O enfrentamento eficaz das violências de gênero exige
mudança de paradigma, saindo da resposta puramente punitiva para a preventiva e
intersetorial.
Iniciativas como o projeto Renova, da UFC em
parceria com o TJCE e MPCE, iluminam o caminho. Ao focar em grupos reflexivos
para homens autores de violência, ataca-se a raiz do problema. O dado de que a
participação nessas atividades reduz drasticamente a reincidência criminal
comprova que desconstruir o machismo estrutural é tão ou mais eficiente que a
punição.
Da mesma forma, as ações do Ministério
Público, que levam o debate para escolas, universidades e empresas, são vitais.
A violência doméstica não começa na agressão física; está nos ambientes
permissivos e na falta de educação emocional de jovens.
O Estado precisa, portanto, agir em frentes simultâneas. Provar que a sua rede de apoio vai além do papelório judicial e alcança a mulher no mais isolado dos distritos. Refinar a inteligência para entender quem são essas 22 mil vítimas e onde estão as falhas de cobertura no Interior. Fomentar políticas preventivas. Do contrário, continuaremos contando corpos com medidas protetivas no bolso.

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