O Globo
Bem que o Ministro dizia que estamos numa
cleptocracia.
Mas ele disse isso quando apoiava a
Lava-Jato.
Mas, pelo jeito, tinha razão. Tá todo mundo
envolvido nos Três Poderes.
No Legislativo também?
Você não viu aquele deputado que apresentou
um projeto para colocar o limite do Fundo Garantidor de 250 mil para 1 milhão
de reais? Do nada.
Já era para prevenir. Sabia o que ia
acontecer.
Mas o caso de agora tem a ver com a Lava-Jato?
Não diretamente. Mas o Ministro que acabou
com a Lava Jato abriu a porteira.
No julgamento do Mensalão, o advogado que
fora ministro do governo que estava sendo julgado queria levar o caso para a
primeira instância. Agora, querem ficar na última.
Como as coisas mudam, não é? Os ministros que
acusavam o governo de ser uma cleptocracia são os mesmos que agora defendem um
banqueiro acusado de corrupção?
Alguns dos principais ainda estão lá. O
ministro que dizia que a cleptocracia era o problema, depois acabou com a
Lava-Jato? O que deu nele?
Dizem que os procuradores começaram a
procurar muito sobre a mulher dele. E a do outro ministro.
Ex-mulher. Eles se separaram.
O que houve?
Medo da Lei Magnitsky.
Alguém acreditou nessa separação?
Quem vai desacreditar de um ministro tão
sério?
E o outro ministro?
Foi nomeado pelo governo que montava a
cleptocracia. E não se sentiu impedido de julgar os casos que envolviam o
partido.
Assim como não se sente impedido de ser o
relator do processo contra aquele banco que estava envolvido com seus parentes.
Só soube que fora sorteado relator quando
desceu do jatinho.
Que jatinho?
Pois ele não viajou de jatinho de um
empresário amigo para ver o jogo do Palmeiras na final da Libertadores? Ao lado
de um advogado do tal banco liquidado.
Mas ele garante que não sabia, e que só
conversaram sobre futebol .
Mas ele podia se considerar impedido, pela
coincidência.
Aí sim iam pensar que ele estava
comprometido. Quem vai duvidar de um ministro?
Mas não precisava chamar para si o controle
do caso, pois nenhum dos envolvidos tinha instância privilegiada.
Não tinha um deputado federal metido na
história?
Nada. O deputado estava metido em outro
negócio com o dono do banco, mas não estava sendo investigado. Aliás, não está
sendo investigado, não tem nada a ver com a quebra do banco.
E por que o ministro decretou sigilo no mais
alto grau?
Deve ter sido um engano. Ele voltou atrás, e
permitiu que a Polícia Federal investigasse o caso.
Médio, né? Agora encurtou o prazo dos
interrogatórios, aumentou o prazo da investigação, e escolheu os próprios
peritos da Polícia Federal. Parece até que quer controlar a investigação.
O outro ministro resolveu incluir no
inquérito das fake News as notícias sobre o contrato de advocacia do banco com
o escritório da sua mulher e a compra de um resort de parentes do outro
ministro por um fundo ligado ao banco que está sendo investigado.
Quer dizer que são mentirosas essas notícias?
Não, o contrato da mulher do ministro já foi
avalizado pelo procurador-mor, está tudo legal.
Mas o pagamento de mais de cem milhões de
reais não é muito exagerado?
Tá tudo legal, a princípio, pois o plenário
já decidiu que parentes podem advogar em causas que o Tribunal está julgando.
E o resort. Era mentira?
Não, mas eles desconfiam que gente das
internas andou vazando as informações para a imprensa.
Mas será que é verdade?
Se não fosse, o mais fácil seria desmentir.
Mas você acha que um Ministro tem que
desmentir alguma coisa? Desconfiar de um ministro, era só o que faltava.
Mas por que o ministro está tão interessado
nesse banco?

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