domingo, 18 de janeiro de 2026

Conversas vãs. Por Merval Pereira

O Globo

Bem que o Ministro dizia que estamos numa cleptocracia.

Mas ele disse isso quando apoiava a Lava-Jato.

Mas, pelo jeito, tinha razão. Tá todo mundo envolvido nos Três Poderes.

No Legislativo também?

Você não viu aquele deputado que apresentou um projeto para colocar o limite do Fundo Garantidor de 250 mil para 1 milhão de reais? Do nada.

Já era para prevenir. Sabia o que ia acontecer.

Mas o caso de agora tem a ver com a Lava-Jato?

Não diretamente. Mas o Ministro que acabou com a Lava Jato abriu a porteira.

No julgamento do Mensalão, o advogado que fora ministro do governo que estava sendo julgado queria levar o caso para a primeira instância. Agora, querem ficar na última.

Como as coisas mudam, não é? Os ministros que acusavam o governo de ser uma cleptocracia são os mesmos que agora defendem um banqueiro acusado de corrupção?

Alguns dos principais ainda estão lá. O ministro que dizia que a cleptocracia era o problema, depois acabou com a Lava-Jato? O que deu nele?

Dizem que os procuradores começaram a procurar muito sobre a mulher dele. E a do outro ministro.

Ex-mulher. Eles se separaram.

O que houve?

Medo da Lei Magnitsky.

Alguém acreditou nessa separação?

Quem vai desacreditar de um ministro tão sério?

E o outro ministro?

Foi nomeado pelo governo que montava a cleptocracia. E não se sentiu impedido de julgar os casos que envolviam o partido.

Assim como não se sente impedido de ser o relator do processo contra aquele banco que estava envolvido com seus parentes.

Só soube que fora sorteado relator quando desceu do jatinho.

Que jatinho?

Pois ele não viajou de jatinho de um empresário amigo para ver o jogo do Palmeiras na final da Libertadores? Ao lado de um advogado do tal banco liquidado.

Mas ele garante que não sabia, e que só conversaram sobre futebol .

Mas ele podia se considerar impedido, pela coincidência.

Aí sim iam pensar que ele estava comprometido. Quem vai duvidar de um ministro?

Mas não precisava chamar para si o controle do caso, pois nenhum dos envolvidos tinha instância privilegiada.

Não tinha um deputado federal metido na história?

Nada. O deputado estava metido em outro negócio com o dono do banco, mas não estava sendo investigado. Aliás, não está sendo investigado, não tem nada a ver com a quebra do banco.

E por que o ministro decretou sigilo no mais alto grau?

Deve ter sido um engano. Ele voltou atrás, e permitiu que a Polícia Federal investigasse o caso.

Médio, né? Agora encurtou o prazo dos interrogatórios, aumentou o prazo da investigação, e escolheu os próprios peritos da Polícia Federal. Parece até que quer controlar a investigação.

O outro ministro resolveu incluir no inquérito das fake News as notícias sobre o contrato de advocacia do banco com o escritório da sua mulher e a compra de um resort de parentes do outro ministro por um fundo ligado ao banco que está sendo investigado.

Quer dizer que são mentirosas essas notícias?

Não, o contrato da mulher do ministro já foi avalizado pelo procurador-mor, está tudo legal.

Mas o pagamento de mais de cem milhões de reais não é muito exagerado?

Tá tudo legal, a princípio, pois o plenário já decidiu que parentes podem advogar em causas que o Tribunal está julgando.

E o resort. Era mentira?

Não, mas eles desconfiam que gente das internas andou vazando as informações para a imprensa.

Mas será que é verdade?

Se não fosse, o mais fácil seria desmentir.

Mas você acha que um Ministro tem que desmentir alguma coisa? Desconfiar de um ministro, era só o que faltava.

Mas por que o ministro está tão interessado nesse banco?

 

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