segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Concessão se firma no transporte como política de Estado

Por O Globo

Governo prevê para este ano 14 leilões de rodovias e oito de ferrovias, com R$ 300 bilhões em investimentos

Estão previstos para este ano 14 leilões de rodovias federais e oito de ferrovias, pacote que deve gerar investimentos de R$ 300 bilhões ao longo dos contratos. Para atrair investidores, o governo tem apostado no BNDES como fonte de financiamentos. O banco encerrou 2025 com uma carteira de empréstimos estimados em R$ 22 bilhões para concessionárias de rodovias e em R$ 3,7 bilhões para as de ferrovias. O objetivo do BNDES é superar tais valores neste ano.

Faz sentido econômico que um banco estatal de fomento ofereça crédito a projetos de interesse público, em especial para investimentos de longo prazo de maturação, como as obras de infraestrutura. O importante é garantir que sejam projetos bem formatados do ponto de vista financeiro, já que o setor privado só entra em negócios que sejam rentáveis. Num modelo bem estruturado de concessões, o Tesouro não é instado a arcar com custos ou prejuízos de obras faraônicas, as contas públicas são poupadas — e o país ganha com investimentos para recuperar estradas precárias ou construir ferrovias necessárias.

Que um partido como o PT — historicamente resistente a privatizações e a investimentos privados — tenha se rendido à realidade é uma notícia alvissareira. Significa que o país sedimenta uma política de Estado num setor crítico, a infraestrutura de transportes. Como as concessões ao setor privado estão consolidadas, o secretário executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, assegura que as eleições marcadas para este ano em nada afetarão o calendário de licitações.

O BNDES será responsável pela estruturação de quatro leilões rodoviários: a Rota dos Sertões (BR-116, entre Bahia e Pernambuco); Rota Gerais (BRs-070 e 251, em Minas); Rota Agro-Central (BRs-070, 174 e 364, entre Mato Grosso e Rondônia); e Rota Integração do Sul (BRs-116, 158, 290 e 392, no Rio Grande do Sul). Além desses, estão previstos vários outros, alguns com a participação das atuais concessionárias. No campo ferroviário, haverá concessões para Corredor MG-RJ, Anel Ferroviário Sudeste, Malha Oeste, Corredor Leste-Oeste, Ferrogrão, Malha Sul (três trechos) e Ferrovia Norte-Sul. Está prevista até licitação para transporte de passageiros entre Brasília e Luiziânia.

A qualidade precária das rodovias brasileiras, exposta na última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte, mostra por que os investimentos serão bem-vindos. Apenas 32,5% dos mais de 114 mil quilômetros de estradas analisados (52,6% das pavimentadas no Brasil e 6,6% de toda a malha rodoviária) são considerados de “ótima” qualidade. Outros 19,5% são vistos como “ruins” ou “péssimos”. As vias com melhor avaliação costumam ser aquelas sob gestão privada, pois recebem mais investimentos em manutenção. O indicador que sintetiza melhor a situação diz respeito aos problemas no pavimento: eles ocorrem em 64,4% das estradas sob gestão pública e em 34,4% das vias sob concessão.

Por certo, o setor privado só assumirá as estradas com tráfego razoável. Há muitas vias de baixa circulação, mas vitais para a população do interior. Elas têm de ser mantidas com recursos públicos. Para isso, o governo tem o dever de manter uma gestão fiscal responsável e um plano coerente que lhe permita arcar com os investimentos necessários.

Uso de IA na escola traz riscos, mas pode ser meio para recuperar atraso

Por O Globo

Cerca de 70% dos alunos afirmam usar robôs, mas apenas 32% dizem ter recebido instruções dos professores

A disseminação veloz das ferramentas de inteligência artificial (IA) tem trazido turbulência aos sistemas educacionais. A IA tem obrigado escolas e instituições de ensino a lidar com situações imprevistas no aprendizado e na avaliação dos alunos. Não se trata apenas de garantir a lisura de provas e trabalhos — hoje infestados de conteúdos fraudulentos gerados por robôs. É preciso que a pedagogia avance no desenvolvimento de métodos capazes de extrair da nova tecnologia o que ela tem de melhor. Várias empresas têm desenvolvido sistemas de IA para disseminá-los nas redes escolares. Professores devem estar capacitados a aproveitar a IA no aperfeiçoamento de suas aulas e a instruir os alunos para que a usem do modo mais produtivo.

Há, é verdade, alguns efeitos negativos. Níveis maiores de confiança na IA estão associados a menor capacidade de pensamento crítico, revelou pesquisa da Microsoft e da Universidade Carnegie Mellon. Quando um robô de IA executa tarefas essenciais ao aprendizado, o aluno sai prejudicado. Há também o perigo de ele aprender errado, já que as ferramentas de IA são abastecidas com dados que não passam por checagens rígidas, e alucinações, embora tenham se tornado menos frequentes nos modelos mais recentes, ainda são comuns. A IA deve ser um instrumento de auxílio, e não um substituto do aprendizado.

A pressão para uso da IA nas escolas tem crescido. Em dezembro, a xAI, de Elon Musk, anunciou um projeto em El Salvador para usar o robô Grok em milhares de escolas, onde está matriculado mais de 1 milhão de estudantes. É preciso, contudo, manter um pé atrás em relação às promessas mais delirantes. Basta lembrar que o programa “um laptop por criança”, promessa dos anos 1990 e 2000, em nada mudou a capacidade cognitiva dos alunos, como demonstraram estudos. Embora seja hoje evidente que o computador pessoal e a internet trouxeram avanços enormes ao aprendizado, apenas estar à frente de uma tela ou ter acesso a um robô de IA pode não significar nada.

No Brasil, está prometida para este ano a inclusão de aulas de educação digital e midiática no currículo do ensino básico. A iniciativa deve servir para preparar o aluno a interagir com a IA. Cerca de 70% dos estudantes do ensino médio afirmam já usar IA, mas apenas 32% dizem ter recebido instruções da escola para aplicar a nova tecnologia, segundo a última edição da pesquisa Cetic.br.

O Brasil pode se inspirar em experiências de outros países. A Estônia, ao constatar que 90% dos alunos do ensino médio já usavam chatbots e começavam a transferir tarefas para esses robôs, conseguiu que a OpenAI adaptasse o ChatGPT ao uso escolar. Agora o robô responde a questionamentos com novas perguntas, para estimular o aprendizado, e não com respostas diretas. É preciso estar atento a exemplos desse tipo. Quem sabe, em vez de ser um meio para alunos fraudarem provas e trabalhos escolares como afirmam os críticos, a IA não traz uma oportunidade para o Brasil recuperar seu atraso na educação?

Agro dá exemplo raro de produtividade no país

Por Folha de S. Paulo

Safra brasileira de grãos mais que dobra em 13 anos, aumento superior ao da área plantada

Tendência será determinante para o sucesso no mercado global, se impedir avanço do cultivo sobre as matas nativas

Dados do IBGE divulgados na última quinta (15) mostram que a safra brasileira de grãos teve expansão de 113% entre 2012 e 2025. O percentual impressiona também porque, segundo o instituto, tal desemprenho se deve mais ao incremento da produtividade do que à ampliação das áreas cultivadas.

Trata-se de tendência inescapável. A disponibilidade de terras para o setor hoje é menor do que na década passada, e seus preços, maiores. O uso da parcela não ocupada no período será cada vez mais limitado por proibições de importação de itens cultivados em áreas desmatadas.

Em 2025, o total de grãos colhidos alcançou 346,1 milhões de toneladas, com impactos positivos na taxa anual de inflação (4,26% no ano passado) e na balança comercial. O IBGE aponta que a produção foi favorecida pelas boas condições climáticas e pela ampliação de áreas de cultivo de algodão, arroz, soja, milho e sorgo.

Neste 2026, estima-se redução de 1,8%, para 339,8 milhões de toneladas. Ainda assim, uma vez confirmada, será superado o dobro da safra de grãos de 2012, que somou 162 milhões de toneladas —volume menor do que a colheita apenas de soja no ano passado (166,1 milhões de toneladas).

O terreno plantado apresentou aumento considerável de 66,8% no período, passando de 48,9 milhões para 81,6 milhões de hectares. Pelas estatísticas do IBGE, contudo, tal evolução não acompanhou o velocidade da expansão do volume colhido de grãos.

Investimentos privados em tecnologias mais avançadas capazes de extrair o máximo potencial produtivo das plantações foram decisivas, assim como o desenvolvimento de variedades de grãos adaptadas aos biomas do país, em especial pela Embrapa, caso raro de estatal que dá algum retorno ao dinheiro público.

As apostas nesses dois vetores —modernização de culturas e pesquisa científica— serão ainda mais importantes nos próximos anos para elevar a colheita e a competitividade dos grãos brasileiros, principalmente diante de mudanças já antecipadas no mercado internacional, sobretudo em relação à soja.

A pressão dos Estados Unidos para que a China aumente as importações de soja americana tende a afetar os volumes embarcados pelo Brasil a esse mercado. Em contrapartida, a implementação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, esperada para ocorrer neste ano, abre a possibilidade de ampliação das exportações de grãos ao parceiro —ainda mais de soja, que é isenta de cotas.

Há condicionantes, porém. A UE exigirá dos exportadores a anuência a seu Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento, conforme os termos do acordo, e o rastreamento dos produtos destinados a seu mercado até o final deste ano.

Qualquer que seja o cenário futuro, a produção agrícola do país depende da união do aumento de produtividade com manejo ambiental sustentável.

A privatização que o PT aprende a aceitar

Por Folha de S. Paulo

Concessões em transportes batem recorde sob Lula 3, movidas a escassez de recursos para investir

Desde 1995, foram 160 delas em rodovias, ferrovias portos e aeroportos, das quais 95, nos últimos dois governos de ideologias opostas

Avessas à venda de empresas estatais por ideologia estatista e afinidade corporativista, as administrações petistas ao menos aprenderam a aceitar outra modalidade de privatização —a concessão de serviços públicos, especialmente no setor de infraestrutura.

Essas desestatizações são mais palatáveis à esquerda por não envolverem mudanças patrimoniais para o Estado e, sobretudo, por haver menos interesses sindicais envolvidos. Entregar uma rodovia federal à exploração privada em troca de investimentos e melhorias, por exemplo, não envolve maior perda de empregos privilegiados no aparato estatal.

Quaisquer que sejam as motivações e convicções, é positivo que este terceiro governo Luiz Inácio Lula da Silva já tenha batido um recorde histórico com 50 concessões na área de transportes, aí incluídos rodoviário, ferroviário, portuário e aeroportuário, como noticiou a Folha.

Superam-se as 45 do quadriênio de Jair Bolsonaro (PL) e, com boa folga, as 26 dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando as operações tiveram início sob a legislação atual. É notável, ademais, que Lula só tenha iniciado as concessões nesses setores em 2007, já em seu segundo governo.

Desde a aprovação da Lei de Concessões, em 1995, foram 160 delas em transportes, das quais 95, quase 60%, nos últimos dois governos de ideologias opostas. Essa concentração, como se vê, não reflete pensamento econômico —trata-se de necessidade.

Os primeiros governos petistas tentaram reviver, ainda que em escala menor, o modelo desenvolvimentista de crescimento econômico impulsionado por investimento público que imperou entre os anos 1950 e 1980. Depois do colapso orçamentário de Dilma Rousseff e da brutal recessão de 2014-16, porém, essa ilusão se tornou insustentável.

Nos tempos da ditadura militar, o investimento com dinheiro do Tesouro chegou a ultrapassar 2% do Produto Interno Bruto; sob Lula 2 e Dilma 1, rondou 1% do PIB; hoje, mesmo com a disposição perdulária de Lula 3, está na casa de 0,5% —cifra que tende a cair com o avanço das despesas obrigatórias com Previdência e pessoal sobre o Orçamento.

Resta, pois, recorrer ao capital privado para manter, ampliar e reformar rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, o que já deveria ter ocorrido há mais tempo, com regulação e contratos adequados. Ainda há, infelizmente, um enorme atraso a superar na venda de estatais, como o demonstra de forma calamitosa a derrocada dos Correios.

Um mundo sob riscos geoeconômicos

Por O Estado de S. Paulo

Relatório do Fórum Econômico Mundial alerta para a perigosa escalada da rivalidade entre potências e mostra como transformar a economia em arma ameaça a estabilidade global

Global Risks Report 2026, nova edição do tradicional relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial a partir de uma consulta a mais de 1.300 líderes públicos, executivos e especialistas, oferece um retrato inquietante – e cada vez mais familiar – do estado do mundo. Pela primeira vez, os conflitos geoeconômicos encabeçam a lista dos maiores riscos globais no curto prazo, superando guerras convencionais e ameaças ambientais imediatas. Não se trata de um detalhe técnico menor, mas de um sinal eloquente de que a economia deixou de ser apenas um terreno de interdependência para se tornar um instrumento de poder, coerção e disputa estratégica.

Quase 40% dos entrevistados projetam um período de elevada instabilidade nos próximos dois anos, marcado por desinformação, polarização social, eventos climáticos extremos e conflitos entre países. O dado, por si só, seria alarmante em qualquer contexto. Torna-se mais grave num mundo mais fragmentado, menos cooperativo e progressivamente hostil às regras que sustentaram, com todas as suas imperfeições, a ordem internacional das últimas décadas.

O relatório organiza os riscos globais em grandes categorias – geopolíticos, econômicos, sociais, ambientais e tecnológicos –, mostrando como eles se interligam e se reforçam. Além da confrontação geoeconômica, figuram entre os principais riscos de curto prazo os conflitos armados entre Estados, crises econômicas, polarização política e os impactos de eventos climáticos extremos. No horizonte de longo prazo, seguem dominando as preocupações com a mudança do clima, a perda de biodiversidade, o colapso de ecossistemas e os riscos associados ao uso desregulado de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial.

Há, porém, uma tensão evidente entre o diagnóstico e a realidade. O documento insiste, corretamente, na necessidade de cooperação internacional, responsabilidade compartilhada e diálogo multilateral como únicas respostas viáveis a riscos que não respeitam fronteiras. A prática global, contudo, segue em sentido oposto.

Grandes potências estão empenhadas em assegurar e expandir suas esferas de influência, recorrendo cada vez mais a instrumentos econômicos, comerciais e tecnológicos como armas geopolíticas. De um lado estão os Estados Unidos, conduzidos pela lógica de um imperialismo redivivo pela doutrina trumpista, que combina protecionismo agressivo, negação do multilateralismo e uso seletivo de sanções e tarifas. De outro, o eixo sino-russo, que articula autoritarismo político, revisionismo geopolítico e contestação aberta às normas liberais do pós-guerra fria. A inspiração autocrática de lado a lado parece ser a tônica.

O resultado é o enfraquecimento das instituições multilaterais, a erosão de mecanismos de coordenação global e o recrudescimento do protecionismo, com impactos diretos sobre cadeias de suprimento, segurança alimentar, transição energética e estabilidade financeira. Em vez de cooperação, prevalece a lógica do jogo de soma zero. Há intimidação econômica explícita onde deveria haver diálogo. No lugar de regras comuns, a lei do mais forte.

Longe de ser futurologia alarmista, o Global Risks Report 2026 é um espelho desconfortável de um mundo que parece ter aprendido pouco com crises recentes – pandemia, guerras regionais, emergência climática, crises financeiras em escala global e a explosão da desinformação como estratégia deliberada de ação pública de tribos ideológicas.

Ignorar esse diagnóstico seria um erro grave. Mais grave é que governos com poder para mitigar esses riscos seguem adotando estratégias que os aprofundam. Ao privilegiar rivalidades geoeconômicas, agendas protecionistas e projetos de hegemonia que solapam a cooperação, as grandes potências tornam cada vez mais improvável a construção das respostas coletivas de que o mundo precisa. Entre o discurso protocolar do diálogo e a prática recorrente da confrontação, a ordem internacional avança para um período prolongado de instabilidade, afastando-se perigosamente das soluções para crises que afirma querer evitar. O Brasil precisa saber como resguardar seus melhores interesses nesse contexto.

Os desafios da vacinação no Brasil

Por O Estado de S. Paulo

Só 2 das 21 vacinas para crianças de até 2 anos atingiram meta de cobertura de 95% em 2025, o que indica que o trabalho de restaurar a confiança da população na ciência está longe do fim

Os dados preliminares da vacinação de crianças no Brasil ao longo de 2025 indicam que o trabalho de restauração da confiança da população na ciência está longe do fim. Segundo o Painel de Cobertura Vacinal do Ministério da Saúde, entre as 21 vacinas disponíveis no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para crianças de até 2 anos, só 2 atingiram a meta – 95% de cobertura – definida para seu público-alvo. As crianças brasileiras receberam a contento somente a BCG, que protege contra a tuberculose (96,8%), e a vacina contra a hepatite B para crianças com menos de 30 dias (95,11%).

São imunizantes garantidos gratuitamente a todas as crianças, em todas as cidades do País, por meio da rede pública de saúde. Para proteger os menores contra doenças infecciosas preveníveis, mães, pais ou responsáveis devem levá-los a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) a fim de atualizarem suas cadernetas de vacinação. Mas, como atestam os números, esse cuidado tem sido negligenciado.

Indicadores acumulados até novembro do ano passado ilustram esse preocupante descuido. Apenas 86,60% do público-alvo recebeu a vacina injetável contra a poliomielite, doença causadora da paralisia infantil. A segunda dose da tríplice viral, que combate o sarampo, a rubéola e a caxumba, registrou cobertura de 78,91%. Não à toa, nas Américas, foram registrados novos surtos de sarampo, moléstia que há muito havia sido erradicada da região.

Já é sabido que apenas a manutenção de uma cobertura vacinal abrangente assegura a proteção de um número maior de crianças. A erradicação de uma doença não é sinônimo de desaparecimento na natureza. Famílias e autoridades, cada qual na medida de suas responsabilidades, não podem baixar guarda na vacinação das crianças – gesto simples que, comprovadamente, salva vidas.

O próprio PNI é a prova da eficiência de uma política de saúde pública de Estado, não de governos. Criado ainda no regime militar, o programa atravessou gerações e se consolidou na democracia, tornando-se referência mundial de programa de vacinação universal e gratuita. Graças à adesão histórica da sociedade ao PNI, o Brasil praticamente acabou com a mortalidade infantil por doenças infecciosas preveníveis e aumentou a expectativa de vida. Por tudo isso, é lamentável constatar que uma parte considerável de cidadãos passou a ignorar esse legado, simbolicamente materializado pelas campanhas de vacinação protagonizadas pelo “Zé Gotinha”.

Grande parte dessa descrença na ciência é atribuível a um movimento antivacina que passou a vicejar a partir de 2015, pondo em risco a saúde de milhões de crianças mundo afora. O Brasil não passou incólume por essa onda obscurantista, culminando na campanha contra as vacinas encampada pelo então presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. Desde então, ganharam tração notícias falsas sobre supostos efeitos adversos dos mais diferentes imunizantes. O estrago foi grande: no caso da covid-19, apenas 3,49% das crianças que poderiam ter sido imunizadas contra a doença receberam a vacina ao longo do ano passado.

A despeito das promessas do presidente, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda não conseguiu restabelecer os patamares de cobertura vacinal para todos os imunizantes do PNI. As famílias têm o dever de imunizar suas crianças, haja vista que, à luz da lei, a apresentação da caderneta de vacinação atualizada é requisito para uma série de atos da vida civil, como a matrícula nas escolas das redes pública e privada para menores de 18 anos. Ao poder público, por sua vez, cabe a adoção de ações estratégicas, como, por exemplo, busca ativa para chegar até as crianças suscetíveis a contrair doenças evitáveis, além de reforço nas campanhas de comunicação.

O Brasil acumulou experiência suficiente com o PNI para voltar a ocupar um lugar de destaque no cenário global de cobertura vacinal de sua população. Desperdiçar essa conquista é um ato de irresponsabilidade com as futuras gerações de brasileiros.

Corte tímido nas emendas

Por O Estado de S. Paulo

Veto à parte ínfima de recursos à mão do Congresso mostra que Lula mal finge ser austero

A irrelevância do veto a R$ 392,8 milhões em emendas parlamentares no Orçamento de 2026, que acaba de ser sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pode ser medida pelo fato de não haver a mínima chance de o corte abrir uma nova crise com o Congresso, que ignorou olimpicamente a tesourada presidencial. Pudera, deputados e senadores já haviam garantido, em acordo com o próprio Planalto, o pagamento de R$ 19 bilhões em emendas até o fim do primeiro semestre, antes, portanto, das restrições impostas pela legislação eleitoral.

Nesse faz de conta, Lula mal finge que é fiscalmente austero e os parlamentares mal afetam indignação, com um ou outro protesto. E assim o Orçamento segue seu curso, conduzido por um Legislativo que domina cerca de 80% das verbas discricionárias – aquelas que, em tese, o Executivo teria liberdade de decidir como dispor.

Durante a campanha eleitoral de 2022, Lula classificou essa captura orçamentária pelo Congresso de “bandidagem”, entre outras designações duras para o orçamento secreto. Mas, de lá para cá, a situação não só se consolidou, como se agravou.

A bem da verdade, o presidente continua a espernear contra o protagonismo do Congresso na destinação de bilhões de reais em recursos públicos. No mês passado, durante reunião do Conselhão, Lula chamou de “erro histórico” o fato de o Congresso “sequestrar 50% do Orçamento da União”, mas disse que isso só vai acabar quando “mudar quem governa e aprova” a peça orçamentária. Ora, não foi exatamente isso o que Lula prometeu fazer depois de eleito?

A necessidade urgente de reduzir o abuso na indicação de emendas parlamentares nem de longe é contemplada pelo insignificante volume do veto presidencial. Recorde-se que, duas semanas antes da sanção do Orçamento, Lula sancionou a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que projetou para este ano nada menos que R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Desse total, em torno de R$ 12 bilhões são de emendas de comissão, sob gestão, em tese, dos ministérios. A prática política tem demonstrado que esses recursos só têm servido a barganhas nada republicanas entre Legislativo e Executivo.

Criadas para dar participação a deputados e senadores em decisões de investimento público, as emendas se agigantaram em tal grau nos últimos anos que se converteram numa aberração institucional que mudou o eixo do poder político, virou atalho para fraudes e desvio de dinheiro público e, ademais, fez letra morta da Constituição. Julgado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, o orçamento secreto só foi extinto em teoria. Na prática, a opacidade continua a ditar o caminho das emendas, infladas ainda mais neste ano eleitoral.

O Planalto ainda poderá bloquear recursos, o que justificaria a redução modesta como um meio de fugir da derrubada do veto pelo Congresso, algo previsível levando-se em conta que o apoio político ao governo no Congresso é frágil. Diante disso, a recomendação feita por Lula de mudar “quem governa e quem aprova” para dar fim à desordem orçamentária até parece ajuizada, mas é traída por suas próprias ações.

Dívida pública acelera no Brasil e no mundo

Por Valor Econômico

Presidente Lula deve encerrar mandato com aumento de 11 pontos percentuais na relação dívida/PIB

A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) não mais se estabilizará em 2028, como o Tesouro previa, mas acelerará até 2029 e encerrará o horizonte de projeção, em 2035, muito maior do que no cenário anterior. O Brasil não está sozinho nesse cenário de maior endividamento governamental. A dívida pública global atingiu o recorde de US$ 102 trilhões em 2024, segundo dados da Unctad, e deverá atingir 100% do PIB até 2029, de acordo com projeção do FMI. Mas no Brasil a situação é pior, porque sobre uma dívida crescente incide uma das maiores taxas de juro do mundo.

A relação dívida/PIB deve atingir, segundo o Tesouro, 83,6% este ano, acima dos 82,3% projetados em julho. O indicador alcançará o pico de 88,6% do PIB em 2032. A piora na trajetória, de acordo com o relatório, decorre da mudança nos parâmetros macroeconômicos - que incorporaram em média juros mais elevados e menor crescimento nominal do PIB - mas, sobretudo, de um resultado primário pior em relação ao relatório anterior.

As projeções de mercado e da Instituição Fiscal Independente do Senado indicavam que a trajetória ascendente não seria interrompida em 2028, como previa o Tesouro, e, em muita delas, seguiria crescendo até 2033, pelo menos. A situação se deteriorou pela ausência de superávits primários que permitissem abater parte do principal da dívida, e pelas sucessivas retiradas de gastos primários da contabilidade das metas. Com aprovação legislativa, em 2027 R$ 96,1 bilhões em precatórios deixarão de ser incluídos para a consecução dos objetivos fiscais.

Mais que isso, os novos números do Tesouro pioram ainda mais o legado do atual governo. Ao terminar seu mandato, o presidente Lula deixará um endividamento de 83,6% em relação ao PIB e não de 82,3%, como previsto em julho. Será um aumento de quase 11 pontos percentuais em apenas quatro anos, uma deterioração fiscal apenas um pouco menor que a desastrosa atuação do governo de Dilma Rousseff, quando a relação aumentou pelo menos 14 pontos, ainda que considerados cinco anos e meio de gestão.

No mundo, as consequências da crise financeira global 2007-08, a pandemia de covid-19 e a crise energética após a invasão da Ucrânia pela Rússia aumentaram drasticamente a dívida pública, e a perspectiva é de que ela continue subindo, em meio a sinais de desaceleração no crescimento econômico global, elevação das taxas de juros para conter a inflação, maior protecionismo comercial e turbulência geopolítica.

Muitas das principais economias mundiais têm dívida pública superior (ou com previsão de ultrapassar) 100% do PIB, como China, França, Itália, Japão e Estados Unidos. Porém, no geral, esses países possuem mercados de títulos soberanos profundos e líquidos e opções de políticas públicas mais amplas, o que ajuda a mitigar o risco fiscal.

Por outro lado, muitos mercados emergentes e países de baixa renda enfrentam desafios fiscais mais complexos, apesar de suas dívidas em geral alcançarem menos de 60% do PIB. Mas suas opções de políticas e de acesso a financiamento são limitadas. A dívida pública dos países em desenvolvimento cresceu duas vezes mais rápido que a das economias avançadas desde 2010, atingindo US$ 31 trilhões. Os custos da dívida permanecem desproporcionalmente altos, comprometendo recursos para gastos com desenvolvimento. Somente em 2024, esses países gastaram US$ 921 bilhões com pagamentos de juros, um aumento de 10% em termos anuais.

Isso reflete a drástica mudança na dinâmica da dívida pública nos últimos anos. Não se trata apenas de seu tamanho, mas também do seu custo. Da crise financeira global até o período da covid-19, o aumento da dívida ocorreu em um ambiente de juros muito baixo, até negativos, resultando em despesa financeira estável no orçamento. Mas a situação agora é diferente. A alta da inflação pós-covid (2022-23) levou a uma onda de aperto monetário global. O FMI estima que os gastos com juros subiram para 2,9% do PIB em 2025, ante 2% em 2020, e a previsão é de que continuem a subir até o fim da década. O ambiente financeiro também é desafiador, com as avaliações dos ativos financeiros em níveis elevados. Eventualmente, uma correção de mercado pode ocorrer.

As pressões sobre os gastos públicos decorrem de múltiplas fontes, da crescente necessidade de ações de defesa e resposta a eventos climáticos severos à pressão das populações por mais acesso a saúde, educação e habitação. Mais recentemente, com disputas geopolíticas exacerbadas pelo presidente Donald Trump e pela invasão russa da Ucrânia, há pressão adicional por gastos com defesa, que começaram a subir rapidamente.

No caso do Brasil, a pressão por mais gastos para ganhos no curto prazo vem dos três poderes. O ajuste das contas públicas para colocar a dívida em uma trajetória sustentável exige a formulação de políticas públicas sustentáveis de longo prazo. Se reeleito, o presidente Lula disse que essa não é sua agenda, o que aumenta a vulnerabilidade do país a crises externas, que virão.

Uma experiência do usuário cada vez pior

Por Correio Braziliense

Se antes éramos reféns dos canais de TV por assinatura, passamos a ter liberdade de escolha com o sempre disponível catálogo da Netflix, Max, Prime etc.

Quando o mundo dos streamings surgiu, houve amplo reconhecimento à mudança no paradigma do consumo do conteúdo audiovisual trazida por essas plataformas. Se antes éramos reféns dos canais de TV por assinatura, que na maior parte das vezes ofereciam muitas produções que sequer eram de nosso interesse, passamos a ter liberdade de escolha com o sempre disponível catálogo da Netflix, Max, Prime etc.

A grande vantagem também era a possibilidade de consumir aquilo que nos interessava de maneira personalizada. Poder escolher entre as opções dublada e legendada e, até mesmo, a fonte, tamanho e cor da tradução simultânea. O conteúdo sob demanda destruiu o modelo de negócio das grandes operadoras de TV a cabo, hoje tão atrasadas quanto as velhas locadoras.

No entanto, o que parece acontecer nos últimos anos com a maior parte dos streamings é uma inversão da lógica de prevalência inegociável da melhor experiência do usuário. Ao mesmo tempo que passaram a vender publicidade nos planos mais baratos de seus serviços, as plataformas oferecem, cada vez menos, qualidade. São frequentes as quedas de sinal, sobretudo em momentos de alta de audiência, como finais de competições de futebol, novelas ou realities shows.

Ao adotar a venda de espaços publicitários e comercializar a atenção do seu usuário, as plataformas abrem mão do que era o principal diferencial do serviço: uma experiência amigável a quem paga por aquela assinatura. Não se trata de inovação de um modelo de negócio já milionário, mas de retrocesso.

Os olhos mais especializados em conteúdos audiovisuais já entenderam que a crise entre os serviços e seus clientes vai além e já atinge a própria qualidade das produções em cartaz. O cardápio continua farto, mas não mais com a mesma assertividade de outrora. Tudo parece feito para cérebros cada vez mais sedentos por respostas prontas, por uma conclusão sem reflexão.

O mundo repercutiu, por exemplo, os episódios finais da decenal série Stranger things, criada pelos irmãos Matt e Ross Duffer. Se no início a produção ficou marcada por trazer a temática do terror e do suspense sob uma ótica infantojuvenil e nostálgica, sua despedida teve muito mais caráter saudosista do que uma trama que realmente sustentasse algo novo. Ainda que no cinema a última impressão nem sempre é a que fica, o desfecho deixou a desejar para a maioria.

A decepção com Stranger things se estende a muitas outras produções que parecem durar muito mais do que deveriam. Mais do que dar respostas e preencher lacunas, o cinema deve incentivar o imaginário do espectador. A escolha das plataformas de espremer até a última gota dos seus títulos mais reconhecidos é mais uma traição ao prometido ganho de experiência trazido por elas em seus surgimentos há cerca de 15 anos.

São raras decisões como a comunicada pelo diretor Vince Gilligan, conhecido pelos sucessos Breaking bad e seu spin-off, Better call Saul. No comando de Pluribus — ficção de sucesso exibida pela Apple TV, que coloca a protagonista Carol (Rhea Seehorn) em meio a uma humanidade infectada por uma mente coletiva, incapaz de demonstrar qualquer traço de infelicidade —, Gilligan nada contra a corrente e já anunciou: "Vou demorar".

Em uma sociedade faminta por conteúdo a todo momento, diante da velocidade do consumo de informações na palma da mão, é comum cobrarmos que nossos artistas preferidos lancem um álbum por ano ou que nossa série de estimação divulgue logo todos os episódios para iniciarmos a maratona.

Gilligan, no entanto, vai na contramão. Ao Hollywood Reporter, quebrou as expectativas: "Sim, sendo honesto, isso vai frustrar algumas pessoas. Trabalhamos na velocidade em que trabalhamos, muito parecido com o ritmo em que as geleiras derretem. Portanto, haverá um intervalo considerável entre as temporadas", disse.

Um alívio em um mundo no qual a essência sempre perde espaço para o acúmulo.

A união é que faz a força

Por O Povo (CE)

O escândalo que envolve o Banco Master é um cenário desafiador, complexo e que exige uma ação de resposta de Estado que some todas as forças disponíveis e competentes. No sentido de sabermos o que aconteceu, quem são os responsáveis e os caminhos legais que podem, e devem, ser adotados para que as situações provadas sejam devidamente punidas

O escândalo que envolve o Banco Master insere-se entre os maiores que o Brasil já viu acontecer em seu sistema financeiro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chega a sugerir que a evolução do que tem sido descoberto pode transformá-lo no maior caso da história, com bilhões de reais desviados para atender interesses pessoais e enriquecer o patrimônio pessoal de gente mal intencionada, em especial os proprietários da instituição envolvida e seus executivos.

O Master teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro do ano passado, medida extrema adotada diante de um quadro grave de crise de liquidez e indícios de irregularidades financeiras. Os reflexos sobre o sistema financeiro são inevitáveis considerando que apenas na instituição diretamente atingida há um contingente de 1,6 milhão de clientes prejudicados. É onde a conta nos chega, a todos, através do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

É um cenário desafiador, complexo e que exige uma ação de resposta de Estado que some todas as forças disponíveis e competentes. No sentido de sabermos o que aconteceu, quem são os responsáveis e os caminhos legais que podem, e devem, ser adotados para que as situações provadas sejam devidamente punidas. O peso do exemplo será fundamental para garantir, inclusive, que o sistema se fortaleça para situações futuras.

Infelizmente, ao contrário do que seria o recomendável, há problemas de convivência entre as instâncias públicas mobilizadas para investigação. A começar pelo Judiciário, diante das críticas que têm sido feitas ao comportamento do relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, o que tem gerado um quadro tenso nas relações, em especial, com a Polícia Federal. Infelizmente, cenário que fragiliza o lado que precisa estar forte para o enfrentamento de interesses que envolvem figuras poderosas, no ambiente econômico e na estrutura política.

Há necessidade de um freio de arrumação e, nesse sentido, a iniciativa do presidente da República de chamar para uma reunião, na semana passada, representantes da Polícia Federal, Banco Central, Receita Federal e o ministro que responde no momento pela presidência do STF, Alexandre de Moraes, pode ser um primeiro movimento importante nesse sentido. Mesmo que, no nosso entendimento, o Ministério Público também devesse fazer parte da conversa, pelo papel fundamental que lhe cabe na fase de investigação e, mais adiante, na denúncia contra os que tiverem responsabilidade comprovada.

Não é momento para brigas e desentendimentos, mesmo que não se deva cobrar uma postura de subserviência e que seja importante preservar os espaços de independência e autonomia. O que não pode, e tem sido eventualmente observado, é deixar que se instale um quadro de competição onde deve prevalecer a colaboração na busca do objetivo comum, tratando-se de órgãos públicos com tarefas e competências definidas em lei, de proteger o cidadão.

 

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