quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Os EUA, polícia do mundo. Por Ivan Alves Filho

Os Estados Unidos se arvoram em polícia do mundo. A face externa dos Estados Unidos repousa em uma espécie de fascismo de exportação.

Senão vejamos. A História registra que os sucessivos governos norte-americanos promoveram invasões de todo tipo em mais de 70 países, e estamos nos referindo somente ao século XX. Assim, os Estados Unidos invadiram a Nicarágua em 1912, o Haiti em 1915, a República Dominicana em 1916, a Rússia Soviética em 1918, o Panamá em 1941, a Coréia em 1945, além de terem fomentado golpes militares em países como Guatemala em 1954, Laos em 1955, Indonésia em 1957-1959, Congo em 1961, o Brasil em 1964. A guerra contra o Vietnam, quando os Estados Unidos lançaram contra esse país do sudeste asiático duas vezes e meia a quantidade de bombas lançadas durante toda a Segunda Guerra Mundial, se configurou como uma das ações mais tenebrosas cometidas por um país contra outro ao longo da História. 

Por outro lado, a administração Kennedy chegou a criar uma escola de repressão no Panamá, onde se ensinava a prática da tortura aos militares latino-americanos. E os Estados Unidos ainda foram responsáveis por jogar duas bombas atômicas contra o povo japonês, em 1945. Até hoje, não foi feito sequer um pedido de desculpas por essa insanidade, por essa brutalidade sem precedentes na História da humanidade. Um dos poucos períodos em que a política dos Direitos Humanos prevaleceu nos Estados Unidos ocorreu durante a gestão de Jimmy Carter, que pressionou, por exemplo, ditaduras como a brasileira nos anos 70.

Acontece que a barbárie promovida pelos Estados Unidos em vários pontos da Ásia e da América Latina, sobretudo, se volta hoje contra o próprio povo americano. O atual governo de Donald Trump começa a reprimir com violência os protestos internos. 

Não que a tradição liberal nos Estados Unidos fosse tão coerente assim. Longe disso: apenas dois partidos se alternam no poder há mais de um século. Uma eleição, por sinal, que se desenrola em um Colégio Eleitoral cujas regras são praticamente incompreensíveis para os observadores dos outros países. A ponto de podermos considerar que pluripartidarismo e eleições diretas não fariam nem um pouco mal à vida política norte-americana.

Em todo caso, à força de desestabilizar e atacar militarmente metade do mundo, os norte-americanos foram habituados a uma cultura da violência raramente vista. E isso tem consequências internas. A desorientação reina nos Estados Unidos: cerca de 80 mil pessoas morrem anualmente, em função do uso de drogas. É estarrecedor. Não é por acaso que os Estados Unidos possuem a maior população carcerária do planeta, com cerca de dois milhões e meio de pessoas presas. Uma tragédia para qualquer país. Isso, sem aludir ao fato de que os Estados Unidos, com problemas complexos nas relações entre brancos e negros ao longo de sua História, agora perseguem os imigrantes estabelecidos por vezes há dezenas de anos em seu território. Haja liberalismo para segurar esse rojão.

Mas, sob o segundo Governo de Donald Trump, os Estados Unidos vão dando a impressão de que podem ir além do que já o foram no passado, com suas ameaças contra a América Latina e o próprio Canadá, sem esquecer os seus propósitos de anexação da Groenlândia, um território europeu.

Em um cenário que reúne, cada vez mais, fatores presentes tanto nos impasses que levaram à Primeira Guerra Mundial quanto à Segunda Guerra Mundial, é preciso entender que as investidas de Donald Trump podem levar o mundo à beira de uma catástrofe nuclear, como se já não bastassem tantos outros focos bélicos (Faixa de Gaza, Ucrânia, Irã, Sudão, Iêmen). 

Em uma época marcada pela mediocridade das lideranças mundiais - e pensar que houve no pós-guerra figuras como Charles De Gaulle, Ho Chi Minh, Bruno Kreisky, Willy Brandt, Josip Tito, Mikhail Gorbachov e Nelson Mandela, independentemente de sua coloração ideológica - cabe aos povos e governos mais sensatos isolar de uma vez por todas os reacionários e fascistas, reunindo em um mesmo espaço os democratas das mais diferentes sensibilidades. 

Esta é a tarefa primordial do nosso tempo. 

*Ivan Alves Filho, historiador

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