Valor Econômico
A opção que fica é a de a Comissão Europa, o
braço executivo da UE, colocar em vigor provisoriamente a parte comercial do
acordo
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia
ganhou um novo obstáculo, com o Parlamento Europeu aprovando nesta quarta-feira
uma moção para submeter o texto legal do tratado à análise da Corte de Justiça
da União Europeia.
Dos 669 eurodeputados presentes, 334 votaram
a favor da revisão jurídica e 324 contra. Ou seja, o Parlamento ficou rachado,
com vitória por dez votos. Houve 11 abstenções. O resultado foi recebido com
aplausos pela metade dos eurodeputados.
A moção, apresentada por um grupo de 144 eurodeputados, solicita ao Tribunal de Justiça da UE que se pronuncie sobre dois pontos: se o acordo pode ser aplicado antes da ratificação total por todos os 27 Estados-membros e se suas disposições restringem a capacidade da UE de definir políticas ambientais e de proteção ao consumidor.
Normalmente, o tribunal leva de 18 a 24 meses
para emitir esse tipo de parecer. Isso significa que uma decisão final do
Parlamento Europeu sobre o acordo, na prática, ficaria adiada por cerca de dois
anos — o que, para alguns críticos, poderia enterrar o entendimento
birregional, como de fato desejam setores oposicionistas.
Uma alternativa seria a Comissão Europeia,
braço executivo da UE, implementar provisoriamente o acordo, permitindo que as
empresas se beneficiem desde já do tratamento preferencial acertado, enquanto
aguardam a decisão judicial e a aprovação definitiva do Parlamento.
Essa opção é juridicamente possível, mas
carrega dificuldades políticas para a Comissão, com o risco de acirrar o
confronto com os eurodeputados e de o tratado vir a ser posteriormente
rejeitado.
Um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que
ainda não há decisão tomada sobre a aplicação provisória, mas reconheceu que,
pelas regras da UE, essa possibilidade existe.
A verdade é que apenas o chamado “split” — a
separação do acordo, com a entrada em vigor imediata da parte comercial —
permitiria à UE levar adiante seus compromissos, diante do protecionismo de
parte dos diferentes atores europeus.
O que está acontecendo é patético. A UE sofre
pressão da Rússia, é menosprezada pelos Estados Unidos, enfrenta o avanço da
China e, ainda assim, um grupo de eurodeputados insiste em bloquear um
compromisso alinhado à busca de autonomia estratégica do bloco.
Tudo isso porque a UE vai dar uma cota de 99
mil toneladas de carne bovina para o Mercosul, e a cota para a entrada de
açúcar, com tarifa menor, é inferior ao que o bloco do cone sul já exporta para
a Europa.
É desnecessário mencionar os enormes ganhos
obtidos pelos europeus na negociação com o Mercosul.
O presidente do Conselho Europeu, António
Costa, foi incisivo ao pedir, pouco antes do voto, que os eurodeputados
respeitassem a inteligência dos europeus — numa forma de dizer que o debate
sobre o Mercosul tem sido recheado de distorções e falsidades. Foi ignorado.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão
Europeia, relatou ontem no Fórum de Davos sua satisfação pela assinatura do
acordo com o Mercosul há cinco dias.
''Trata-se de um avanço importante após 25
anos de negociações'', disse ela. ''Graças a este acordo, a UE e a América
Latina criaram a maior zona de comércio livre do mundo. Um mercado que
representa mais de 20% do PIB mundial. Participam dele 31 países, com um total
de mais de 700 milhões de consumidores''.
Ela destacou que, ''em conformidade com o
Acordo de Paris, ''esse acordo envia uma mensagem poderosa ao mundo inteiro:
que preferimos o comércio justo aos direitos aduaneiros, a parceria ao
isolamento, a sustentabilidade à exploração. E que estamos determinados a
reduzir os riscos para as nossas economias e a diversificar as nossas cadeias
de abastecimento''.
Agora, com a decisão de hoje do Parlamento, a
base jurídica do acordo de associação UE-Mercosul (EMPA, em inglês) e do acordo
comercial provisório (iTA, em inglês) será, portanto, objeto de avaliação pelo
Tribunal. O Parlamento Europeu continuará a examinar os textos, enquanto
aguarda o parecer do Tribunal. Posteriormente, deverá decidir se aprova ou não
o acordo.

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