quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O começo do grande recuo sobre a Groenlândia. Por Gideon Rachman

Em Financial Times / Valor Econômico

Reação do mercado pode ter convencido Trump a mudar sua posição de tomar a ilha à força

Os ricos e poderosos se empurravam e acotovelavam para conseguir entrar e ver o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursar no Congress Centre de Davos. Talvez fosse o medo de perder algo importante; talvez fosse o desejo de presenciar um momento histórico.

Mas lá pela metade do discurso de mais de uma hora e cheio de divagações do presidente americano, muitos dos ouvintes já estavam checando seus celulares — ou saíam para outros compromissos.

O discurso de Trump não foi nenhum momento histórico. Mas marcou, sim, o início de um recuo em relação à Groenlândia. Em uma das poucas passagens relativamente coerentes, Trump descartou de maneira explícita a possibilidade de os EUA usarem a força para tomar a ilha da Dinamarca.

Se Trump começou a recuar em relação à Groenlândia, será porque finalmente se viu diante de alguma oposição — dos europeus, de dentro do seu próprio Partido Republicano e dos mercados. Ao mesmo tempo em que se gabava das novas altas do mercado de ações durante seu mandato, ele também observou que os mercados tinham caído de forma acentuada no dia anterior.

Foi a reação do mercado que convenceu Trump a atenuar suas políticas tarifárias depois do seu assim chamado “dia da libertação”, em 2 de abril. O mesmo pode estar acontecendo com a questão da Groenlândia.

Agora o presidente dos EUA exige "negociações imediatas". Os europeus fariam bem em levar o processo adiante sem nenhuma pressa — lembrando que Trump tem o hábito de fazer ameaças grandiosas que depois são esquecidas. Há menos de duas semanas, ele prometia ao povo do Irã que "a ajuda estava a caminho". Eles ainda estão à espera.

É claro que ainda é cedo demais para relaxar sobre a questão da Groenlândia. Uma parte substancial do discurso de Trump foi dedicada ao assunto — e ele continuou a afirmar seu argumentos estratégicos, em grande parte falaciosos, para justificar que a posse da ilha fique com os EUA.

No discurso, Trump tentou repetidas vezes condicionar a aceitação europeia de sua ambição de tomar a Groenlândia ao futuro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — reclamou que os europeus não mostram gratidão pela proteção americana e alegou, o que não é verdade, que os EUA pagaram praticamente 100% dos custos da aliança militar. Ele também disse que os EUA não têm nenhuma necessidade real da aliança da Otan porque estão protegidos por um "grande e belo oceano". E lembrou à sua plateia que Mark Rutte, o secretário-geral da Otan, certa vez o chamou de "papai" — um erro horroroso que Rutte nunca vai superar por completo.

Mas o presidente dos EUA preferiu usar uma linguagem vagamente intimidadora em vez de fazer ameaças explícitas e concretas. Ele ficou visivelmente irritado com o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no dia anterior, que foi um apelo emocionante para que as potências médias resistam à coerção das grandes potências.

Em seu discurso, Trump enfatizou a dependência que o Canadá tem dos EUA e disse a Carney: "Lembre-se disso, Mark, da próxima vez em que fizer suas declarações". Quanto aos aliados europeus dos EUA, Trump lhes disse, a respeito da questão da Groenlândia: "Vocês podem dizer não e nós lembraremos disso."

Só que a memória vale para os dois lados. Existe uma grande probabilidade de que — dentro de um mês — Trump já tenha deixado para trás a questão da Groenlândia e esteja envolvido com outra obsessão ou à procura de outra vítima para atacar.

Mas europeus, canadenses e outros aliados americanos não esquecerão o episódio da Groenlândia. Ele cristalizou muitos de seus temores e ressentimentos em relação aos EUA.

O motivo pelo qual o discurso de Carney teve uma repercussão tão ampla foi o reconhecimento explícito de que a velha ordem, baseada em um EUA benigno, acabou. E ele foi também um chamado à ação que muitos em Davos consideraram inspirador.

Quando Carney terminou de falar na terça-feira, ele foi aplaudido de pé pela plateia. Trump, por outro lado, recebeu uma salva de palmas morna. Essa diferença fala por si só.

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