quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Partidos de centro mais fortes tornariam o Brasil mais governável? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A ausência de um centro programático não é um acidente do sistema político brasileiro, mas uma consequência de seus incentivos institucionais

Tem se tornado comum atribuir as dificuldades governativas no Brasil à suposta ausência de partidos políticos de centro ideologicamente fortes e programáticos. A conclusão parece intuitiva: faltaria ao sistema político brasileiro um “centro responsável”, capaz de moderar extremos, oferecer previsibilidade e garantir estabilidade.

Mas vale inverter a pergunta: se os partidos de centro fossem de fato ideológicos e programáticos, o governo eleito teria mais ou menos governabilidade?

Nesse sistema, é praticamente inexorável que o partido do presidente não detenha maioria nas duas Casas do Congresso. Governar, portanto, exige a construção de coalizões amplas e heterogêneas. Se os partidos de centro fossem fortemente orientados por programas e ideologias, a dificuldade e o custo de formar e sustentar essas coalizões seriam significativamente maior.

Partidos programáticos têm preferências mais rígidas, linhas vermelhas claras e menor margem para acomodações pragmáticas. Convencê-los a integrar uma coalizão implicaria concessões substantivas de agenda, com impactos diretos sobre a coerência do programa vencedor e sobre a capacidade decisória do Executivo. Em outras palavras, mais centro ideológico poderia significar menos governabilidade – não mais.

No presidencialismo multipartidário, os partidos não se distinguem primordialmente entre fortes ou fracos, mas entre protagonistas e coadjuvantes. Os protagonistas são aqueles que disputam, com alguma chance, a Presidência da República e precisam, para isso, construir identidades programáticas capazes de organizar o espectro ideológico. Já os coadjuvantes priorizam a trajetória legislativa: buscam maximizar bancadas, tornar-se pivôs da coalizão e participar do governo, independentemente de quem vença a eleição presidencial.

Essa posição estrutural gera incentivos muito claros. Para os partidos coadjuvantes, investir em programas nacionais rígidos ou em identidades ideológicas densas tende a ser um mau negócio do ponto de vista estratégico. A flexibilidade – frequentemente rotulada como oportunismo – é, na verdade, uma estratégia racional de sobrevivência e influência em um sistema no qual raramente comandarão o Executivo.

Por isso, a expectativa de que esses partidos se transformem espontaneamente em forças programáticas nacionais ignora a lógica institucional que os molda. No presidencialismo multipartidário, apenas os partidos protagonistas têm incentivos reais para se programatizar. São eles que organizam o debate ideológico; os demais orbitam como satélites, negociando apoio em troca de acesso a recursos e poder decisório.

Uma análise institucional mais rigorosa mostra que o chamado Centrão não é um desvio patológico do sistema; é um produto previsível de seus incentivos.

Isso não significa negar os problemas que ele gera – nem idealizar seus efeitos. Significa apenas reconhecer que defesas normativas de um centro ideológico e programático não são soluções simples para dilemas complexos.

A estabilidade democrática, a coerência programática e a governabilidade não dependem apenas da vontade dos partidos, mas das regras do jogo que estruturam suas escolhas.

Se quisermos um sistema político mais previsível, responsável e programático, o debate precisa ir além da nostalgia de um centro que talvez nunca tenha existido como imaginamos – e encarar, com mais pragmatismo analítico, os limites e trade-offs do presidencialismo multipartidário brasileiro.

Feliz Ano Novo! Que 2026 traga eleições competitivas, resultados legítimos e – sobretudo – vencedores e perdedores dispostos a respeitar as regras do jogo democrático.

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