Folha de S. Paulo
A desconfiança generalizada nas instituições
políticas alimenta os populismos de diferentes cores
De fato, existe no Brasil amplo reservatório
de eleitores dispostos a acreditar que um líder providencial pode, sozinho,
mudar o rumo do país
O último governo eleito antes do golpe militar de 1964 resultou de uma disputa que levou ao Palácio do Planalto um líder populista de direita, Jânio Quadros. O primeiro presidente eleito depois da ditadura foi outro, Fernando Collor. O populismo —especialmente o direitoso— não é incomum na política brasileira, mas algo recorrente. Quem assistir ao ótimo documentário "Caçador de Marajás", de Charly Braun (Globoplay), sobre a ascensão e queda de Collor, não deixará de notar o muito que ele tem em comum —no discurso antissistema e na imagem messiânica do Salvador da Pátria— com personagens tão diferentes quanto Quadros, e, naturalmente, Jair Bolsonaro.
De fato, existe no Brasil amplo reservatório
de eleitores dispostos a acreditar que um líder providencial pode, sozinho,
mudar o rumo do país. Essa disposição está associada a uma profunda
desconfiança em relação às instituições políticas, particularmente elevada no
Brasil —mesmo se comparada à de países latino-americanos assemelhados a nós
outros em termos de modernização socioeconômica e experiência democrática.
A escassa confiança nas instituições torna
pouco atraentes as soluções baseadas em negociação, compromisso e construção
coletiva. Partidos, Congresso, burocracias e tribunais são vistos como entraves
ou espaços irremediavelmente corruptos. Nesse ambiente inseguro, prospera a
expectativa de que a política possa ser substituída pela vontade de um líder
supostamente impoluto e disposto a enfrentar a roubalheira enraizada nos
Poderes da República e nos partidos.
O populismo traz
à luz um paradoxo da democracia.
Ela funciona justamente por criar mecanismos de controle e fiscalização do
poder: imprensa livre; investigações independentes; órgãos estatais de
controle; e organizações da sociedade civil —todos essenciais para limitar
abusos, revelar malfeitorias e responsabilizar governantes.
Mas em sociedades onde é baixa a
credibilidade das instituições políticas, aqueles mesmos mecanismos produzem um
efeito ambíguo. A exposição reiterada —e necessária— de escândalos e
irregularidades reforça a percepção de que todas as instituições são
disfuncionais e a política é essencialmente venal. Sua reverberação nas redes
sociais —onde verdades, meias-verdades, boatos e invencionices recebem o mesmo
tratamento— ajuda a ampliar o descrédito generalizado. É dele que se alimentam
os populismos de qualquer cor política.
É quando a qualidade da operação dos sistemas
de controle passa a ser decisiva. Em sociedades de escassa confiança,
"furos" jornalísticos desprovidos de evidências, investigações
longas, mal delimitadas, sigilosas ou acompanhadas de divulgação parcial de achados
tendem a ampliar o ceticismo generalizado, mesmo se revelem irregularidades
reais. A exposição reiterada de suspeitas, sem provas visíveis e desfechos
claros, reforça a percepção de que a política é estruturalmente corrupta.
Assim, não importa apenas a existência de controles, mas a forma como se apuram
denúncias, como o sistema de justiça as processam e, sobretudo, se produzem
resultados válidos.

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