quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O quieto paradoxo da democracia. Por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A desconfiança generalizada nas instituições políticas alimenta os populismos de diferentes cores

De fato, existe no Brasil amplo reservatório de eleitores dispostos a acreditar que um líder providencial pode, sozinho, mudar o rumo do país

O último governo eleito antes do golpe militar de 1964 resultou de uma disputa que levou ao Palácio do Planalto um líder populista de direita, Jânio Quadros. O primeiro presidente eleito depois da ditadura foi outro, Fernando Collor. O populismo —especialmente o direitoso— não é incomum na política brasileira, mas algo recorrente. Quem assistir ao ótimo documentário "Caçador de Marajás", de Charly Braun (Globoplay), sobre a ascensão e queda de Collor, não deixará de notar o muito que ele tem em comum —no discurso antissistema e na imagem messiânica do Salvador da Pátria— com personagens tão diferentes quanto Quadros, e, naturalmente, Jair Bolsonaro.

De fato, existe no Brasil amplo reservatório de eleitores dispostos a acreditar que um líder providencial pode, sozinho, mudar o rumo do país. Essa disposição está associada a uma profunda desconfiança em relação às instituições políticas, particularmente elevada no Brasil —mesmo se comparada à de países latino-americanos assemelhados a nós outros em termos de modernização socioeconômica e experiência democrática.

A escassa confiança nas instituições torna pouco atraentes as soluções baseadas em negociação, compromisso e construção coletiva. Partidos, Congresso, burocracias e tribunais são vistos como entraves ou espaços irremediavelmente corruptos. Nesse ambiente inseguro, prospera a expectativa de que a política possa ser substituída pela vontade de um líder supostamente impoluto e disposto a enfrentar a roubalheira enraizada nos Poderes da República e nos partidos.

O populismo traz à luz um paradoxo da democracia. Ela funciona justamente por criar mecanismos de controle e fiscalização do poder: imprensa livre; investigações independentes; órgãos estatais de controle; e organizações da sociedade civil —todos essenciais para limitar abusos, revelar malfeitorias e responsabilizar governantes.

Mas em sociedades onde é baixa a credibilidade das instituições políticas, aqueles mesmos mecanismos produzem um efeito ambíguo. A exposição reiterada —e necessária— de escândalos e irregularidades reforça a percepção de que todas as instituições são disfuncionais e a política é essencialmente venal. Sua reverberação nas redes sociais —onde verdades, meias-verdades, boatos e invencionices recebem o mesmo tratamento— ajuda a ampliar o descrédito generalizado. É dele que se alimentam os populismos de qualquer cor política.

É quando a qualidade da operação dos sistemas de controle passa a ser decisiva. Em sociedades de escassa confiança, "furos" jornalísticos desprovidos de evidências, investigações longas, mal delimitadas, sigilosas ou acompanhadas de divulgação parcial de achados tendem a ampliar o ceticismo generalizado, mesmo se revelem irregularidades reais. A exposição reiterada de suspeitas, sem provas visíveis e desfechos claros, reforça a percepção de que a política é estruturalmente corrupta. Assim, não importa apenas a existência de controles, mas a forma como se apuram denúncias, como o sistema de justiça as processam e, sobretudo, se produzem resultados válidos.

 

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