sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pé frio de Trump. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

É como se a Groenlândia se despejasse sobre os EUA, provocando o pior inverno do século

No Brasil, os bolsonaristas levam um balde de gelo com a nova intimidade entre Trump e Lula

Parece castigo divino. Justamente quando Donald Trump ameaça falir o planeta se a Dinamarca não lhe der a Groenlândia, o caos ambiental —no qual ele não acredita e favorece com suas medidas de fim do mundo— castiga os EUA com o pior inverno dos últimos 40 anos: nevascas brutais, cidades a 30° abaixo de zero, mortes por hipotermia, comércio, indústria e transportes parados e vida impossível fora de casa.

É como se o Ártico, que ele tanto ambiciona, ouvisse seus bramidos e se despejasse de uma vez sobre sua cabeça e a de seus eleitores —pena que também sobre a de quem não vota nele.

Com tanta neve que se converte em gelo (a camada de cima derrete e a água se recongela), é significativo que o braço armado de Trump, o Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Controle de Imigração e Alfândega), atenda em inglês pela sigla ICE —gelo. Trata-se da polícia encarregada da identificação, detenção e deportação de pessoas de cabelo preto escorrido, incluindo meninos de 5 anos. Para compensar o estilo gelado com que conduz suas operações, o ICE dispara tiros à queima-roupa em cidadãos americanos inocentes e imobilizados.

Talvez Trump seja pé-frio. Em abril último, quando da morte do papa Francisco e às vésperas da eleição do sucessor pelo Vaticano, um repórter perguntou a Trump se tinha um favorito para o cargo —como se o assunto lhe dissesse respeito. A pergunta era encomendada e Trump já estava com a resposta pronta: sim, ele mesmo poderia ser um grande papa. O clero ignorou seu palpite, claro, mas —surpresa!—, como se Trump lhe tivesse dado a ideia, elegeu o cardeal Robert Francis Prevost, um americano. E não apenas americano como muito ligado à América Latina e, sagrado Leão 14, atento à crueldade contra os imigrantes.

No Brasil, o verão pega fogo, mas os bolsonaristas também estão levando um balde de gelo. Como explicar que, de repente, Trump, que nem sabe mais quem era Bolsonaro, passe horas ao telefone discutindo a cena internacional e trocando carinhos com... o Lula?

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