Valor Econômico
Tentar chegar em 2026 com juros e inflação
mais baixos, real não tão desvalorizado e emprego em recuperação parece melhor
do que tentar esperar que o Congresso ajude decisivamente na arrecadação
A circunstância é sempre peculiar. A atual vem, em parte, de um ciclo político às inversas. O desgoverno de Bolsonaro entregou o Palácio para o centrão e consolidou a demagogia e o oportunismo da política econômica em 2021 e 2022, principalmente. A campanha de 2022 foi marcada, nesse plano, por truques como a desoneração dos combustíveis e outros e pelo adiamento do cumprimento de sentenças judiciais.
A expansão das transferências mudou o patamar
da despesa pública, patamar consolidado na campanha e expresso na PEC da
Transição. A mudança do arcabouço fiscal passou para o centro das atenções. Que
o teto de crescimento das despesas tenha se tornado piso não surpreende. Mas
existe aí espaço para negociação e ajustes.
De outro lado, a busca da recomposição de
receitas passou por uma rodada importante, mas limitada pelos interesses
beneficiados pelas desonerações e outros recursos. A natureza política do
orçamento bateu em um teto de aceitação de mais arrecadação pelo Congresso,
mesmo sem mais impostos. E emendas parlamentares com potencial de ampliação
descontínua de gastos completam a pressão dos participantes do mercado via
preços dos ativos.
A negociação é política, não técnica. Mas
argumentos técnicos são usados de um lado e de outro, como sempre na busca da
legitimação das decisões.
A demanda efetiva é um princípio. O gasto
cria a renda, não o contrário. As decisões de gastar, consumir, produzir e
investir, no entanto, essas precisam ser explicadas. A existência de um fluxo
de renda ou de um estoque de riqueza não implica que haverá gasto.
Simetricamente, redução de gasto é redução da
renda e contenção do consumo, da produção e do investimento. Mais uma vez, por
que as pessoas deixam de gastar, as empresas de produzir e investir?
E o efeito multiplicador dos investimentos?
Investir (comprar coisas para aumentar a produção) é criar renda que, em parte,
será consumida, isto é, vai realizar a produção de bens de consumo e estimular
mais produção. Círculo virtuoso.
A célebre relevância da diferença entre a produção
de bens de capital e a de bens de consumo, presente também em Kalecki.
Assim, corte nos investimentos, públicos ou
privados, com o multiplicador potenciando a queda da renda, são o melhor
caminho para a queda da atividade, no limite, recessão. Círculo vicioso.
Os dois passos acima (demanda efetiva e
criação da renda com o multiplicador) estão em Keynes, ou no que eu entendi de
Keynes.
O futuro é incerto, imprevisível. O dinheiro,
como reserva de valor, permite que o gasto seja adiado, liga o futuro ao
presente, e o presente ao futuro. O grau de nossa inquietação é nossa
inclinação a não gastar, manter a riqueza na forma líquida para gasto – ou não
– oportuno. A preferência pela liquidez é tal estado de espírito, mais ou menos
exacerbado conforme o que se espera do futuro.
Mas nossa ignorância em relação ao futuro não
nos impede de agir. No princípio era a ação (Goethe, Marx, Freud). E recorremos
a convenções para agir. O preço de um ativo é resultado de uma convenção: um
fluxo de caixa futuro esperado (qual?) e uma taxa de desconto (qual?).
Nossas decisões subjetivas são imediatamente
decisões sociais. Uma carteira de ativos (estoques, ações, dinheiro, dívida)
compõe nossa decisão a respeito das expectativas sobre o futuro. A posse de
cada ativo implica um retorno esperado composto de rendimento, custo de
carregamento e prêmio de liquidez.
Se há um meio de dotar o dinheiro de
“capacidade criadora ... sem ser necessário que seu dono se exponha aos
aborrecimentos e riscos inseparáveis das aplicações industriais (ações,
estoques) e mesmo usurárias (dívida privada)”, para usar a formulação de Marx,
este é a dívida pública.
A composição da carteira depende de nossa
avaliação sobre tais atributos, avaliação feita nos mercados em que os ativos
são negociados. Existe um mercado de dinheiro que é o mercado da dívida
pública. Trocas entre dinheiro e dívida determinam as taxas de juros.
A necessidade de financiamento do gasto
público cria a base da remuneração de risco mais baixo, público ou privado, com
o primeiro dando o piso. O prêmio de liquidez que o dinheiro carrega se
materializa nos juros da dívida. Não só o prazo em que se abre mão da liquidez,
mas a avaliação do risco de o pagamento dos juros ser feito com emissão de
dívida nova.
Quem compra dívida quer os juros, não o
principal. A transformação de juros em dívida pode não ser redução da liquidez
individualmente, mas é para o conjunto. Alguém tem que comprar dívida para
outro receber os juros. Contas de capital abertas completam o cenário: abrir
mão dos juros pune o especulador, câmbio flutuante também. Mas é uma queda de
braço que, ao menos no curto prazo, piora as coisas.
Keynes tratou do curto prazo, do ciclo e do
longo prazo, sempre a partir daqueles passos (demanda efetiva e multiplicador).
No longo prazo, a recomendação de gasto público estável em infraestrutura que
garanta um mínimo de atividade e expectativa de gasto privado. No ciclo, uma
política fiscal que atenue as oscilações da atividade e mantenha a economia em
situação de “quase auge”. No curto prazo, gasto público para impedir que a
economia entre em “equilíbrio” inaceitavelmente abaixo do pleno emprego, isto
é, que o emprego criado pelo setor privado na busca de “ganhar dinheiro” seja
politicamente aceitável.
Ao longo de 2015, o investimento do governo
federal caiu de R$ 55 bilhões para R$ 38 bilhões em reais de hoje no acumulado
em 12 meses. Algo como reduzir o investimento de 9,5% para 6,5% do PIB. A
recessão que se seguiu pode ter tido causas adicionais, mas essa entra na conta
com destaque. Cortar 3% do PIB em um ano... e nos investimentos...
A conta trivial sobre o estado das contas
públicas é de um excesso de despesa sobre a receita líquida de 2% do PIB. A
receita líquida, no acumulado do ano, já está crescendo junto com a despesa
(12% nominais). Talvez passe a crescer menos com a desaceleração da alta das
transferências (Bolsa Família, etc) já em curso. E isso pode afetar o
crescimento da arrecadação para baixo em 2025. Muito incerto o resultado. Mas,
no princípio era a ação.
Tentar chegar em 2026 com juros e inflação
mais baixos, real não tão desvalorizado, atividade e emprego em recuperação,
depois da desaceleração já combinada em 2025, parece melhor do que tentar
esperar que o Congresso ajude decisivamente na arrecadação. Cortar investimentos
é errado. Reduzir o ritmo de crescimento de certas (decisão política) despesas
é o espaço que existe.

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