sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Refletir sobre o futuro aos 104 anos. Por Andrea Jubé

Valor Econômico

O que o centenário Edgar Morin ensina sobre as lições da História e as múltiplas crises contemporâneas

”A ignorância é a mãe de todos os vícios”, afirmou Machado de Assis, em uma crônica de 1889. É incomum citarmos “sabedoria” entre os votos para o ano novo, junto com “saúde, amor e prosperidade”. Em se tratando de 2026, quando teremos palpitantes eleições no Brasil, deveríamos acrescentar “serenidade e tolerância”.

Mas, raramente, mencionamos mais “conhecimento” ou “saber”. Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras, quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.

A lição de um dos mais respeitados filósofos contemporâneos é de que em uma realidade de inteligência artificial, células-tronco, trans-humanismo, o mais urgente seria resgatar valores. “Fica claro que o verdadeiro progresso de que a humanidade necessita seria o da compreensão humana, da benevolência, da solidariedade, da amizade, sendo que nesse campo só houve avanços parciais e provisórios, num contexto de retrocesso generalizado”.

A receita é do intelectual francês Edgar Morin, que em 2025, na plenitude de seus 104 anos, lançou mais um livro: “Lições da História”, publicado no Brasil pela L&PM. Ele enumera 16 lições que os fatos históricos deixam para a humanidade, como a força do improvável, o papel dos mitos, heróis e santos, a contradição entre progresso e moralidade, o poder devastador das guerras. Centenário, ele afirma que vida é metamorfose: [a História] “nos lembra que a humanidade sempre esteve e sempre estará em transformação”.

A história de Morin é inspiradora. Graduou-se em direito, história e geografia, mas sempre se declarou autodidata. Visionário, já na década de 70 escrevia sobre os riscos para o planeta e para o ser humano da degradação ambiental. Doutor Honoris Causa de mais de 40 universidades, é reconhecido pelo ambicioso “O Método”, publicado entre 1977 e 2004, obra de seis volumes sobre transdisciplinaridade e o pensamento complexo.

Em “Lições da História”, ele adverte que, em 2025, a humanidade estava “sendo arrastada para um grande retrocesso por um conjunto de crises ecológicas, políticas, econômicas; deixando-se de lado a afetividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja, realidades humanas essenciais”.

Ele enxerga o retrocesso ao lado do progresso. “É incontestável que avanços científicos e tecnológicos não param, como mostram as manipulações do DNA e de células-tronco na biologia ou os desenvolvimentos exponenciais das ciências do digital”, reconhece. “Enquanto o planeta está entregue a processos regressivos que parecem implacáveis, com a hegemonia do lucro, as degradações ecológicas, as guerras e as múltiplas crises interligadas numa policrise”, lamentou.

Morin reflete que essa ideologia promete “a imortalidade, uma sociedade perfeita regulada por inteligência artificial e a continuação da aventura humana em planetas colonizados, a começar pela Lua e por Marte: o trans-humanismo torna-se pós-humanismo”. Contudo, critica a “ausência de qualquer progresso moral no progresso científico-técnico-econômico”, e retrocessos morais nas crises e guerras, insistindo que o verdadeiro progresso seria a “compreensão humana”.

O debate que envolve avanços científicos, longevidade e imortalidade está no radar dos líderes mundiais. Em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em evento com empresários na Malásia, que tem “compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, o que não seria muito “no mundo de hoje”.

O repórter Assis Moreira, do Valor, lembrou que, recentemente, uma transmissão ao vivo capturou os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, tratando do tema. “Órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem se torna - e pode até mesmo alcançar a imortalidade”, disse Putin. “Alguns preveem que, neste século, os humanos poderão viver até 150 anos”, completou Xi.

Para além da empreitada de viver 100 anos, e mais um pouco, o verdadeiro debate deveria ser em que condições chegar nesse estágio, e o que fazer com essa vivência. É onde entra a sabedoria. Lúcido, Morin caminha para os 105 anos estudando e publicando livros.

Nesta semana, a revista The Economist argumentou que Lula não deveria disputar a reeleição aos 80 anos - embora não mencionasse o americano Donald Trump, que tem a mesma idade e o mesmo desejo do brasileiro. Como tem afirmado, se estiver saudável e lúcido, Lula tem o direito de concorrer. O que ele precisará deixar claro é o que mais terá a oferecer ao país e aos brasileiros em eventual quarto governo.

Segundo Morin, outra lição da História é “fazer entender que o poder revela a natureza humana e permite a realização das piores e das melhores potencialidades”. Que venha um 2026 com saúde, prosperidade e sabedoria para todos nós.

 

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