Folha de S. Paulo
Entrevista de Armínio Fraga à Folha e
apurações na mídia levantam hipótese de negligência
Há ainda zonas de sombra a esclarecer na atuação da autoridade monetária nos últimos anos
Em entrevista
que foi ao ar no site desta Folha no dia 24, o economista
Armínio Fraga afirmou que o Banco Central teria
demorado a agir diante das evidências de graves problemas do Banco Master.
Na opinião do ex-presidente da instituição (1999-2002), a autoridade monetária
tinha todas as ferramentas para fiscalizar a instituição financeira, que já
dava sinais críticos há muito tempo.
Fraga não fez menção mais definida ao período a que se referia. Quando o BC deveria ter agido? Sabemos que o atual presidente, Gabriel Galípolo, assumiu no início de 2025, e anunciou a intervenção no mês de novembro. Deveria tê-lo feito antes? Ou as dificuldades já seriam detectáveis antes de 2025, durante a gestão de Roberto Campos Neto (2019-2024), atual vice-chairman do Nubank?
Pelo que disse Fraga, sem a esperada precisão
cronológica, o "burburinho já existia bem antes, há muito tempo".
Pelo menos os indícios, declarou ele, "estavam expostos".
Na quarta-feira (28), o jornal O Estado de S. Paulo publicou em seu site uma
matéria com o título "Campos Neto sabia dos problemas do Master, mas
evitou intervir no banco em seu último ano no BC". Segundo o vetusto diário,
o ex-presidente da instituição "priorizava solução de mercado e teria
atuado para evitar liquidação do Master duas vezes em 2024". Procurado
pelo jornal, não se pronunciou.
Note-se que não se tratava de artigo de
opinião, com ilações acerca das preferências ideológicas do personagem e de
suas hipotéticas consequências práticas na avaliação e condução do caso. Campos
Neto, de qualquer modo, sempre foi inclinado ao característico "deixa o
mercado resolver". Contou com as simpatias das finanças e era visto como
antípoda de um ainda inexistente futuro cupincha de Lula, que viria para acabar
com a autonomia do BC e arbitrar a taxa de juros de acordo com as vontades do
Planalto –o que, muito longe disso, não aconteceu.
Embora possa ser questionado por ser membro e
cão de guarda do governo petista, o ministro da Fazenda, Fernando
Haddad, que está por deixar o cargo, também colocou sua colher no
assunto, em entrevista ao UOL: "Eu acredito que Galípolo herdou um
problema que é o Banco Master. Todo ele constituído na gestão anterior. O Banco
Master não cresceu na gestão atual. Mas nesse ano, o Galípolo descascou o
abacaxi".
Essas manifestações não são definitivas, mas
deixam no ar a indagação sobre possível negligência.
Armínio também fez menção, na entrevista
à Folha, a um aspecto espinhoso, ao considerar que "não está muito
claro ainda por que esse assunto foi tão longe", apesar de o BC possuir
todas as ferramentas.
Abre-se aí terreno fértil para a imaginação,
num país em que ficção e realidade já são praticamente a mesma coisa.
Para ficar num aspecto pontual: segundo
apuração publicada pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, Ailton de Aquino
Santos, diretor de Fiscalização desde julho de 2023, teria pedido ao
ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, a aquisição de créditos do Master.
Santos afirma ter agido de boa-fé, sem saber das fraudes –não há motivos para
duvidar de sua palavra.
Há, contudo, razões para crer que a atuação
do BC ao longo deste caudaloso caso Master tem muitas áreas de sombra por se
iluminar.

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