sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Radiografia do trumpismo. Por Pablo Ortellado

O Globo

Estudo mostra uma coalizão dividida sobre o respeito às regras constitucionais e sobre o papel da religião na vida nacional

Uma pesquisa da More in Common (Beyond Maga) publicada no aniversário de um ano do governo Donald Trump traz muitas novidades sobre o que caracteriza e o que move o trumpismo. Ele aparece como uma coalizão movida por preocupações com imigração e a “cultura woke”. Os resultados foram publicados no GLOBO na terça-feira.

A pesquisa segmenta o eleitorado de Trump em quatro grandes grupos, dois deles mais radicais, dois mais moderados. A segmentação foi produzida agrupando os eleitores por padrões de identidade, visão sobre o presidente, partidarismo e religiosidade.

O primeiro grupo de eleitores são os “radicais Maga” (Make America Great Again é o slogan de Trump). Reúne 29% dos que votaram em Trump, é quase inteiramente branco, mais velho e muito religioso. Ao lado dele, há um grupo também com posições radicais, os “conservadores anti-woke”. Eles são mais escolarizados e mais ricos, mais laicos e compõem 21% dos eleitores de Trump.

Em seguida, há os “republicanos tradicionais”, um pouco mais jovens, com um pouco mais de mulheres e posições mais próximas das que caracterizavam o Partido Republicano antes da revolução trumpista. São 30% dos eleitores de Trump.

Por fim, há a “direita relutante”, que se distingue pelo apoio mais fraco a Trump e por se identificar mais como independente. Para todas as perguntas da pesquisa que medem apoio às medidas de Trump, constata-se apoio intenso nos dois primeiros grupos e mais moderado nos dois últimos, sobretudo no último.

A pesquisa mostra, por uma série de perguntas, que os eleitores de Trump não são mais avessos à imigração que os democratas ou os independentes. Sessenta e oito por cento dos que votaram em Trump concordam que os Estados Unidos são uma nação de imigrantes (a média é 71% para todos os americanos). Num termômetro de 0 a 100 que mede sentimentos mais quentes ou mais frios, os eleitores de Trump dão nota média de 71 aos imigrantes legais, praticamente a mesma dada pelos que não votaram nele (72).

Quando se usa o termômetro para medir o sentimento em relação aos imigrantes ilegais, a nota é bem diferente. Enquanto eleitores de Trump dão nota média 20, os demais dão quase o dobro, 39. Quem votou no presidente não diverge dos demais no apoio ou rechaço à imigração — diverge apenas no tema da imigração ilegal.

As medidas mais controversas de Trump nessa área não têm apoio consensual. Pouco mais da metade de seus eleitores (52%) concorda com o uso de militares para atuar na deportação de imigrantes ilegais; 46% concordam com deportações sem audiência com um juiz; e apenas 15% concordam com a deportação de imigrantes a terceiros países (como a prisão em El Salvador).

O relatório identifica três questões que incomodam os eleitores de Trump no tocante à “cultura woke” — a cultura progressista de proteção e promoção de “minorias”, como mulheres, negros e LGBT+. Os eleitores de Trump acreditam que a “cultura woke” promove censura por meio dos cancelamentos. Dos que votaram nele, 59% creem que a cultura do cancelamento silenciou pessoas por terem determinadas opiniões (a média dos Estados Unidos é 42%).

Esses eleitores também acreditam que a esquerda woke comprometeu a pluralidade de perspectivas nas universidades, na imprensa e em Hollywood. Setenta e seis por cento acham que essa esquerda arruinou a educação, a imprensa e o entretenimento americanos (a média dos Estados Unidos é 41%).

Os eleitores de Trump também acham que a “cultura woke” comprometeu o sistema meritocrático. Enquanto 36% dos americanos acreditam que os brancos têm vantagens sobre as minorias na escola e no trabalho, apenas 11% dos eleitores de Trump pensam assim. Inversamente, enquanto 11% dos americanos acreditam que as minorias têm vantagens sobre os brancos, entre os eleitores de Trump são 22%, o dobro.

O estudo mostra uma coalizão dividida sobre o respeito às regras constitucionais e sobre o papel da religião na vida nacional. Apesar disso, o trumpismo encontra coesão na ideia de que os Estados Unidos estão em crise, na rejeição ao establishment político e no sentimento de que as queixas da direita são desprezadas.

Embora metade dos eleitores apoie as medidas mais radicais e ofereça respaldo quase incondicional a Trump, outra metade ainda gostaria que as políticas respeitassem os limites constitucionais. Essa composição, porém, pode ser momentânea. Enquanto as queixas da direita continuarem tratadas com desdém pelas elites, a coalizão trumpista seguirá se nutrindo do ressentimento — e pode, cedo ou tarde, consolidar uma maioria radical disposta a ultrapassar os limites constitucionais.

 

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