O Globo
Estudo mostra uma coalizão dividida sobre o
respeito às regras constitucionais e sobre o papel da religião na vida nacional
Uma pesquisa da More in Common (Beyond Maga) publicada no
aniversário de um ano do governo Donald Trump traz muitas novidades sobre o que
caracteriza e o que move o trumpismo. Ele aparece como uma coalizão movida por
preocupações com imigração e a “cultura woke”. Os resultados foram publicados
no GLOBO na terça-feira.
A pesquisa segmenta o eleitorado de Trump em quatro grandes grupos, dois deles mais radicais, dois mais moderados. A segmentação foi produzida agrupando os eleitores por padrões de identidade, visão sobre o presidente, partidarismo e religiosidade.
O primeiro grupo de eleitores são os
“radicais Maga” (Make America Great Again é o slogan de Trump). Reúne 29% dos
que votaram em Trump, é quase inteiramente branco, mais velho e muito
religioso. Ao lado dele, há um grupo também com posições radicais, os
“conservadores anti-woke”. Eles são mais escolarizados e mais ricos, mais
laicos e compõem 21% dos eleitores de Trump.
Em seguida, há os “republicanos
tradicionais”, um pouco mais jovens, com um pouco mais de mulheres e posições
mais próximas das que caracterizavam o Partido Republicano antes da revolução
trumpista. São 30% dos eleitores de Trump.
Por fim, há a “direita relutante”, que se
distingue pelo apoio mais fraco a Trump e por se identificar mais como
independente. Para todas as perguntas da pesquisa que medem apoio às medidas de
Trump, constata-se apoio intenso nos dois primeiros grupos e mais moderado nos
dois últimos, sobretudo no último.
A pesquisa mostra, por uma série de
perguntas, que os eleitores de Trump não são mais avessos à imigração que os
democratas ou os independentes. Sessenta e oito por cento dos que votaram em
Trump concordam que os Estados Unidos são uma nação de imigrantes (a média é
71% para todos os americanos). Num termômetro de 0 a 100 que mede sentimentos
mais quentes ou mais frios, os eleitores de Trump dão nota média de 71 aos
imigrantes legais, praticamente a mesma dada pelos que não votaram nele (72).
Quando se usa o termômetro para medir o
sentimento em relação aos imigrantes ilegais, a nota é bem diferente. Enquanto
eleitores de Trump dão nota média 20, os demais dão quase o dobro, 39. Quem
votou no presidente não diverge dos demais no apoio ou rechaço à imigração —
diverge apenas no tema da imigração ilegal.
As medidas mais controversas de Trump nessa
área não têm apoio consensual. Pouco mais da metade de seus eleitores (52%)
concorda com o uso de militares para atuar na deportação de imigrantes ilegais;
46% concordam com deportações sem audiência com um juiz; e apenas 15% concordam
com a deportação de imigrantes a terceiros países (como a prisão em El
Salvador).
O relatório identifica três questões que
incomodam os eleitores de Trump no tocante à “cultura woke” — a cultura
progressista de proteção e promoção de “minorias”, como mulheres, negros e
LGBT+. Os eleitores de Trump acreditam que a “cultura woke” promove censura por
meio dos cancelamentos. Dos que votaram nele, 59% creem que a cultura do
cancelamento silenciou pessoas por terem determinadas opiniões (a média dos
Estados Unidos é 42%).
Esses eleitores também acreditam que a
esquerda woke comprometeu a pluralidade de perspectivas nas universidades, na
imprensa e em Hollywood. Setenta e seis por cento acham que essa esquerda
arruinou a educação, a imprensa e o entretenimento americanos (a média dos
Estados Unidos é 41%).
Os eleitores de Trump também acham que a
“cultura woke” comprometeu o sistema meritocrático. Enquanto 36% dos americanos
acreditam que os brancos têm vantagens sobre as minorias na escola e no
trabalho, apenas 11% dos eleitores de Trump pensam assim. Inversamente,
enquanto 11% dos americanos acreditam que as minorias têm vantagens sobre os
brancos, entre os eleitores de Trump são 22%, o dobro.
O estudo mostra uma coalizão dividida sobre o
respeito às regras constitucionais e sobre o papel da religião na vida
nacional. Apesar disso, o trumpismo encontra coesão na ideia de que os Estados
Unidos estão em crise, na rejeição ao establishment político e no sentimento de
que as queixas da direita são desprezadas.
Embora metade dos eleitores apoie as medidas
mais radicais e ofereça respaldo quase incondicional a Trump, outra metade
ainda gostaria que as políticas respeitassem os limites constitucionais. Essa
composição, porém, pode ser momentânea. Enquanto as queixas da direita
continuarem tratadas com desdém pelas elites, a coalizão trumpista seguirá se
nutrindo do ressentimento — e pode, cedo ou tarde, consolidar uma maioria
radical disposta a ultrapassar os limites constitucionais.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.