Folha de S. Paulo
Americano teme poder de armas e dinheiro, mas
União Europeia menos submissa ajudou
Acordo sugerido na Otan prevê entrega de
bases maiores, sob domínio eterno dos EUA
Donald Trump recuou.
Ao menos da boca para fora. Na manhã desta quarta, cancelou a ameaça de guerra
na Groenlândia,
mas disse que não abriria mão de tomar posse daquele "pedaço de
gelo"; que um "não" europeu teria consequência.
O negocista imobiliário chegou a perguntar:
"quem defenderia uma propriedade arrendada ou alugada?". De tarde, na
prática passou a dizer a repórteres que não queria se apropriar da ilha. Mais
importante, anunciou o
cancelamento de novo tarifaço contra europeus e
"diretrizes" para um acordo.
Como Trump recua? Como recuou, se foi isso mesmo que aconteceu? De mais novo, houve mais reação política. O que pode ter sido relevante?
1) Oposição de parte do Partido
Republicano; 2) Sururu nos mercados financeiros; 3) O fato de
a União Europeia ter
mantido parte da espinha ereta, ameaçando guerra comercial e o cancelamento do
acordo humilhante do ano passado; 4) A promessa de que os Estados
Unidos possam ter novos tipos de base na Groenlândia,
territórios dos quais seriam soberanos, tais como pequenas Guantánamos polares,
e direitos de pesquisar recursos naturais pela ilha, assim como ocupam parte de
Cuba.
É o que vazava pelos jornais americanos:
comandantes da aliança militar ocidental haviam discutido nesta quarta a
proposta das bases, liderados por Mark Rutte, secretário-geral da Otan e
bajulador de Trump, a quem chama de "papai". Pode ser que governos
não aceitem essa entrega parcial de território.
Mas ainda importa recapitular a reviravolta,
o modus operandi de Trump e levantar dúvidas. É possível que o mundo estivesse
lidando outra vez com o negocista que blefa alto para levar menos? Quando Trump
volta a atacar, além de retomar a ameaça contra o Irã?
O discurso que Trump fez no início da tarde
em Davos foi
a algaravia lunática, ególatra, agressiva e grosseira de sempre. Não raro, no
meio dessas arengas, Trump manda uma mensagem relevante.
Foi assim na ONU, em setembro do ano passado,
quando anunciou um armistício com o Brasil, elogiando Luiz Inácio Lula da
Silva, entre delírios de grandeza e queixas sobre teleprompters, uma escada
rolante quebrada e a manutenção do prédio da ONU.
Foi assim também na manhã desta quarta na
Suíça. Trump disse que não faria guerra na Groenlândia, entre ataques à Otan, à
"irreconhecível" Europa de
"moinhos de vento" (usinas elétricas eólicas) e imigrantes, à
integridade do Canadá,
à França, a países que mandam imigrantes "criminosos" e
"insanos" para os EUA, entre muitas vulgaridades. No meio da papa de
agressões, tinha um pedaço de toucinho, o recuo da ameaça militar.
É bem provável que Trump tivesse sido
alertado para o risco de os mercados financeiros americanos irem para o vinagre
com uma nova espiral de guerra comercial entre Estados Unidos e União Europeia.
Na terça, o preço de ações caíra muito nas
bolsas americanas, taxas de juros subiram e o dólar bambeou
por causa da alta do "risco Groenlândia", que se somava aos receios
causados por um paniquito na finança do Japão.
Baixas grandes nos mercados de ações, alguma
fuga de capital, início de pânico e reclamações diretas da gente mais graúda da
finança americana fizeram Trump recuar do tarifaço mais aloprado de abril de
2025, convém lembrar.
Mas desta vez houve mais política. A reação
canadense, denunciando a ameaça geral trumpista. A reação europeia. A reação do
Partido Republicano. Sem nova política, não vai dar.
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