O Globo
Liquidação do banco não provocou qualquer
abalo nos mercados. No ambiente político, parece um cataclismo
Liquidação de banco é sempre traumática. O
trauma é tanto maior quão mais amplos forem os laços da instituição com o
sistema financeiro. E quanto maior for o número de clientes, credores e
devedores. Por aí, a liquidação do Banco Master deveria passar como episódio
menor, sem qualquer abalo no sistema.
Para comparar: há 1,6 milhão de clientes do Master habilitados a receber seu dinheiro de volta. Parece muito, mas é nada diante do tamanho do sistema bancário no Brasil. Só o Itaú tem mais de 100 milhões de clientes, segundo dados recentes do Banco Central (BC). Por isso mesmo a liquidação do Master não provocou qualquer abalo nos mercados.
No ambiente político-institucional, parece um
cataclismo. Há reações no Congresso Nacional, no Tribunal de Contas da União
(TCU), no Supremo Tribunal Federal (STF) e entre políticos. Na maior parte dos
casos, nota-se um movimento para proteger Daniel Vorcaro, o dono do Master, e
para deixar ocultos eventuais parceiros que tiraram alguma vantagem das
operações do banco liquidado. Dá para desconfiar, não é mesmo?
Enquanto isso, os menores clientes do Master
estão há dois meses na fila para receber seu dinheiro, ou parte dele, de volta.
O Master se especializou em vender CDBs pagando rentabilidade bem acima do
mercado. Na propaganda, salientava-se que o título tinha risco zero se o
investidor aplicasse valores até R$ 250 mil. Risco zero para o investidor, mas
risco total para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — uma entidade privada,
constituída e financiada pelos bancos. O FGC foi criado justamente para
amenizar os impactos da quebra de um banco. Protege os pequenos. O Fundo
devolve aos investidores até R$ 250 mil por CPF ou por CNPJ. Por isso, é risco
zero para o aplicador.
Mesmo assim, há alguma perda. O Master foi
liquidado em 18 de novembro passado. Os recursos investidos naqueles CDBs
ficaram congelados nos valores daquela data. Quanto mais demora a devolução,
maior o prejuízo do investidor.
O barulho no meio político-institucional tem
a ver com os maiores clientes e associados nos negócios duvidosos. No TCU,
órgão auxiliar do Congresso, o ministro Jhonatan de Jesus chegou a ameaçar
suspensão da liquidação, pondo o BC na berlinda, como se fosse o responsável
pelos problemas do Master. De tão absurda, a coisa não andou, sem apoio no
próprio TCU.
No Congresso, há movimentos para criar uma
CPI. No Senado, foi instaurada uma comissão especial para examinar o caso.
Aqui, não se sabe no que vai dar. Há políticos tentando se safar das encrencas
do Master e outros buscando justamente o contrário — apanhar adversários
envolvidos.
E o ministro Dias Toffoli puxou para o STF
toda a investigação da Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero. E
tomou atitudes bem estranhas. Exemplo: deu autorização para a PF tocar a
segunda fase da operação, mas determinou que todo o material apreendido ficasse
lacrado e trancado lá mesmo no Supremo. Ora, para que serve apreender material
se não se pode investigá-lo? Era tão sem sentido essa ordem, que o próprio
Toffoli resolveu abrir espaço para a apuração, mas com restrições. Designou
quatro peritos que terão acesso aos documentos e aos celulares apreendidos, mas
com o material guardado na Procuradoria-Geral da República.
Todos os movimentos de Toffoli atrasam e
atrapalham de algum modo a ação da PF — cujas investigações deram motivos ao BC
para determinar a liquidação. Ele pôs tudo sob sigilo absoluto. Mesmo assim,
jornalistas investigativos têm encontrado muitos negócios mais que suspeitos
envolvendo o Master e associados.
A suspensão da liquidação não é mais viável —
não, pelo menos, em circunstâncias normais. Mas os obstáculos à investigação
podem dar argumentos à defesa de Vorcaro. Para quê? Para processar o BC e a
União, pedindo ressarcimento pelos bens perdidos. É a lambança que se forma:
colocar o BC no banco dos réus.

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