segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Só falta culpar o BC e absolver o Master. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Liquidação do banco não provocou qualquer abalo nos mercados. No ambiente político, parece um cataclismo

Liquidação de banco é sempre traumática. O trauma é tanto maior quão mais amplos forem os laços da instituição com o sistema financeiro. E quanto maior for o número de clientes, credores e devedores. Por aí, a liquidação do Banco Master deveria passar como episódio menor, sem qualquer abalo no sistema.

Para comparar: há 1,6 milhão de clientes do Master habilitados a receber seu dinheiro de volta. Parece muito, mas é nada diante do tamanho do sistema bancário no Brasil. Só o Itaú tem mais de 100 milhões de clientes, segundo dados recentes do Banco Central (BC). Por isso mesmo a liquidação do Master não provocou qualquer abalo nos mercados.

No ambiente político-institucional, parece um cataclismo. Há reações no Congresso Nacional, no Tribunal de Contas da União (TCU), no Supremo Tribunal Federal (STF) e entre políticos. Na maior parte dos casos, nota-se um movimento para proteger Daniel Vorcaro, o dono do Master, e para deixar ocultos eventuais parceiros que tiraram alguma vantagem das operações do banco liquidado. Dá para desconfiar, não é mesmo?

Enquanto isso, os menores clientes do Master estão há dois meses na fila para receber seu dinheiro, ou parte dele, de volta. O Master se especializou em vender CDBs pagando rentabilidade bem acima do mercado. Na propaganda, salientava-se que o título tinha risco zero se o investidor aplicasse valores até R$ 250 mil. Risco zero para o investidor, mas risco total para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — uma entidade privada, constituída e financiada pelos bancos. O FGC foi criado justamente para amenizar os impactos da quebra de um banco. Protege os pequenos. O Fundo devolve aos investidores até R$ 250 mil por CPF ou por CNPJ. Por isso, é risco zero para o aplicador.

Mesmo assim, há alguma perda. O Master foi liquidado em 18 de novembro passado. Os recursos investidos naqueles CDBs ficaram congelados nos valores daquela data. Quanto mais demora a devolução, maior o prejuízo do investidor.

O barulho no meio político-institucional tem a ver com os maiores clientes e associados nos negócios duvidosos. No TCU, órgão auxiliar do Congresso, o ministro Jhonatan de Jesus chegou a ameaçar suspensão da liquidação, pondo o BC na berlinda, como se fosse o responsável pelos problemas do Master. De tão absurda, a coisa não andou, sem apoio no próprio TCU.

No Congresso, há movimentos para criar uma CPI. No Senado, foi instaurada uma comissão especial para examinar o caso. Aqui, não se sabe no que vai dar. Há políticos tentando se safar das encrencas do Master e outros buscando justamente o contrário — apanhar adversários envolvidos.

E o ministro Dias Toffoli puxou para o STF toda a investigação da Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero. E tomou atitudes bem estranhas. Exemplo: deu autorização para a PF tocar a segunda fase da operação, mas determinou que todo o material apreendido ficasse lacrado e trancado lá mesmo no Supremo. Ora, para que serve apreender material se não se pode investigá-lo? Era tão sem sentido essa ordem, que o próprio Toffoli resolveu abrir espaço para a apuração, mas com restrições. Designou quatro peritos que terão acesso aos documentos e aos celulares apreendidos, mas com o material guardado na Procuradoria-Geral da República.

Todos os movimentos de Toffoli atrasam e atrapalham de algum modo a ação da PF — cujas investigações deram motivos ao BC para determinar a liquidação. Ele pôs tudo sob sigilo absoluto. Mesmo assim, jornalistas investigativos têm encontrado muitos negócios mais que suspeitos envolvendo o Master e associados.

A suspensão da liquidação não é mais viável — não, pelo menos, em circunstâncias normais. Mas os obstáculos à investigação podem dar argumentos à defesa de Vorcaro. Para quê? Para processar o BC e a União, pedindo ressarcimento pelos bens perdidos. É a lambança que se forma: colocar o BC no banco dos réus.

 

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