segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Cultura tem de ser projeto de nação. Por Preto Zezé

O Globo

A economia criativa brasileira permanece excessivamente dependente do eixo Rio-São Paulo

O Brasil é uma potência cultural de fato. Não por discurso, mas por evidência. Nossa música atravessa décadas influenciando o mundo. O setor audiovisual ganha espaço em festivais e plataformas. A moda, a literatura, os games e o poder de consumo cultural das favelas despertam interesse global. O problema nunca foi talento. O problema é estratégia.

Enquanto países como Coreia do Sul e Japão transformaram a cultura em projeto nacional, com planejamento, investimento contínuo e coordenação entre Estado e mercado, o Brasil ainda trata sua criatividade como algo espontâneo, quase acidental. Exportamos cultura como quem exporta sorte, não como quem executa política pública.

Os números mostram o tamanho do ativo. O setor criativo representou 3,59% do PIB em 2023, movimentando R$ 393 bilhões e empregando mais de 1,2 milhão de pessoas. Cresceu quase o dobro da média nacional. Ainda assim, continua tratado como gasto simbólico, não como investimento estratégico.

Há um problema estrutural: concentração e descoordenação. A economia criativa brasileira permanece excessivamente dependente do eixo Rio-São Paulo, enquanto talentos das favelas, periferias e outras regiões seguem subfinanciados. Governo, agências públicas, setor privado e criadores raramente atuam de forma alinhada. Cada um opera isoladamente, enquanto plataformas estrangeiras controlam a distribuição, os dados e a monetização do conteúdo brasileiro.

O Brasil produz muito, mas controla pouco. Nossa cultura circula globalmente sob regras que não definimos. Falta soberania cultural e digital. Falta compreender que soft power também é infraestrutura econômica.

Ainda assim, é preciso reconhecer: novos caminhos vêm sendo testados. A “Rouanet das favelas” representou uma inflexão importante ao reconhecer territórios populares como polos legítimos de produção cultural e econômica, rompendo com a lógica histórica de concentração de recursos. Cada real investido em cultura via Lei Rouanet gera R$ 7,59 em impactos econômicos e sociais. Da mesma forma, a ida de empreendedores da Expo Favela ao Web Summit, em Lisboa, articulada pela ApexBrasil, mostrou que cultura, inovação e negócios podem caminhar juntos na estratégia internacional do país.

Essas experiências mostram que o desafio já não é provar que a criatividade brasileira existe ou gera valor. O desafio é transformar boas iniciativas em políticas perenes, com continuidade estratégica, escala nacional e visão de longo prazo. Política de Estado, não de ocasião.

O caminho é conhecido. Passa por uma marca unificada de promoção internacional, por uma estratégia agressiva de exportação cultural, pela ampliação do papel da Ancine para além do audiovisual tradicional e por investimentos consistentes em formação técnica, distribuição própria, dublagem e legendagem de excelência.

O investimento necessário não é desmedido. Algo em torno de R$ 3,5 bilhões em cinco anos seria suficiente para estruturar esse salto. Modesto diante do retorno potencial em exportações, empregos e influência global.

A pergunta, portanto, não é se o Brasil pode se tornar uma potência cultural global. O país já é. A pergunta real é por que seguimos tratando isso como detalhe, quando poderia — e deveria — ser um projeto de nação.


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