segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Socialista surpreende e supera rival de extrema direita no 1º turno das eleições presidenciais de Portugal

Por O Globo, com agências internacionais

Com mais de 99% das urnas apuradas, António José Seguro alcançou 31,14% dos votos, contra 23,48% de André Ventura, líder do Chega

O socialista António José Seguro foi o candidato mais votado no primeiro turno da eleição presidencial em Portugal, realizada neste domingo, superando o adversário de extrema direita André Ventura, até então apontado como favorito pelas pesquisas de opinião. Com mais de 99,6% dos votos apurados, o candidato socialista tinha 31,14% dos votos válidos, contra 23,48% de Ventura — o que garante os dois no segundo turno, o primeiro que será disputado em quatro décadas, no dia 8 de fevereiro.

A superioridade do candidato socialista no primeiro turno contrariou as pesquisas realizadas até então, que apontavam que Ventura, líder do partido radical Chega, na primeira colocação. Seguro, de 63 anos , incorporou em sua campanha a imagem de integrador e moderado, defensor da democracia e dos serviços públicos frente ao "extremismo".

— Convoco todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a concentrarem seus votos em nossa candidatura — declarou, no último dia de campanha.

Ventura, que se autoproclamou como "candidato do povo", encerrou sua campanha pedindo aos outros partidos de direita para não "colocarem obstáculos" em um eventual segundo turno com o candidato socialista — as mesmas projeções que indicavam sua dianteira no primeiro turno, previam sua derrota na votação decisiva. Pouco após o fechamento das urnas, e com os números indicando sua ida à etapa decisiva, o candidato disse esperar unir todos os votos de direita a seu favor.

— O que vamos ter a partir de amanhã é uma luta entre o socialismo e quem não quer o socialismo — disse o candidato, em fala registrada pelo jornal português Público. — [Agora é hora de] liderar a direita, agregar, juntar esforços para evitar o que ninguém à direita quer, que é um socialista em Belém [referindo-se ao Palácio de Belém, sede da Presidência].

O Chega, partido que adere a um forte discurso anti-imigração e com lideranças que frequentemente estão envolvidas com falas xenofóbicas, cresceu sob a liderança de Ventura. A sigla conquistou 60 cadeiras no Parlamento, em eleições disputadas em maio. A agenda, ainda vista pelas siglas mais tradicionais como radical, afasta possíveis apoios.

Em uma primeira manifestação após os primeiros resultados parciais, o primeiro-ministro conservador Luís Montenegro disse que sua sigla, o Partido Social Democrata (PSD), não apoiaria nenhum dos dois candidatos no 2º turno, após a derrota do candidato Luís Marques, que ficou apenas na quinta posição (11,32%). Montenegro, em sua avaliação inicial, creditou o resultado frustrante à divisão de votos no campo da direita tradicional — o candidato liberal João Cotrim ficou na terceira colocação, com 15,99% dos votos.

Se o comportamento do eleitorado de direita não está claro, uma vez que não há endossos a Ventura — Cotrim também disse na noite de domingo que não irá apoiar nenhum candidato no 2º turno —, a esquerda e centro-esquerda declararam apoio a Seguro.

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português (PCP) pediram que seus eleitores votem no candidato socialista, em uma convocação à oposição à extrema direita.

— [Impõe-se evitar] uma agenda e concepções reacionárias, retrógradas e antidemocráticas de questionamento do regime democrático e de ostensiva desvalorização e ataque à Revolução de Abril — disse o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo. — [Fazê-lo] exige de forma clara e evidente o voto contra a candidatura de André Ventura e conduz o voto em António José Seguro.

O presidente português não tem poderes executivos, mas pode ter um papel de árbitro em caso de crise, pois tem o direito de dissolver o Parlamento para convocar eleições legislativas. O vencedor do segundo turno vai substituir o conservador Marcelo Rebelo de Sousa, eleito duas vezes em primeiro turno. (Com AFP)

 

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