segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Tratado “pode ser o primeiro de uma série”, diz Ricupero

Por Daniela Chiaretti / Valor Econômico

Ex-secretário geral da Unctad, diplomata acredita que tratado UE-Mercosul é positivo para economia brasileira, mas há desafios

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, assinado no sábado, 17, tem o potencial de abrir uma frente de novos tratados entre os países do Mercosul e o Canadá, Japão, Coreia do Sul e outros. A opinião é do diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e que durante dez anos foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a Unctad.

“No cenário atual, em que não estão surgindo grandes acordos comerciais, este do Mercosul e da União Europeia pode ser o primeiro de uma série no mundo”, diz. “Penso que esse acordo tem esta vantagem”, diz, em um mundo pouco multilateral. Ricupero vê o acordo como positivo para o Mercosul e o Brasil, mas com desafios.

O diplomata se baseia em estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que conclui que o tratado é, no conjunto, favorável à economia brasileira. “Seria o país que ganharia mais, no Mercosul. E dentro da economia brasileira, o setor que terá mais benefícios é a agroindústria”, menciona.

O Ipea calcula que em 17 anos a agroindústria pode ter crescimento adicional, em função do acordo, de 2%. O setor da agroindústria que a curto prazo tem condições de ampliar mais suas vendas seria o de carne de aves. “Suíno também, mas o Brasil não tem acordo sanitário com a UE, e isso impossibilita a venda por enquanto”, diz. A previsão é de um potencial de crescimento gradual de mais de 9% na exportação de frango.

O acordo autoriza, depois de seis anos, a entrada de 180 mil toneladas de carne de frango sem taxas como cota para o Mercosul, mas o Brasil tende a se beneficiar mais, diz. Hoje a cota é de 346 mil toneladas de carne de frango, mas com 15% de tributação. “O Brasil exporta 35% do frango que produz, mas os mercados são sobretudo a China, Japão e Emirados Árabes. A União Europeia compra menos de 5%. O potencial, como se vê, é grande.”

Em outros setores também o Ipea estima crescimento. O café hoje exportado tem tarifa de 9%, que será zerada em quatro anos.

Mas há desafios. “Em princípio ganha a agroindústria, mas na indústria, propriamente, um setor que pode perder é o de equipamentos elétricos e de máquinas”. O Ipea prevê perda de 1,6% para artigos elétricos e 1% para máquinas e equipamentos.

“Isso tudo é muito controvertido”, diz Ricupero. A associação dos fabricantes de máquinas e equipamentos, Abimaq, apontou risco para a indústria da transformação. Mas para Humberto Barbato, presidente da associação da indústria elétrica e eletrônica (Abinee) o dado do Ipea é equivocado. “Têm confiança de que podem se defender da competição europeia”. O argumento é que em quatro anos, todo equipamento elétrico que o Brasil vender para a UE terá tarifa zero enquanto produtos da UE para o Mercosul só terão tarifa zero entre 10 a 15 anos. “Veremos o que acontecerá quando o acordo entrar em vigor, o que levará tempo”.

Em alguns casos a indústria brasileira pode ganhar. O Ipea estima que a exportação de sapatos pode registrar alta de 3,2% à medida em que as tarifas forem diminuindo. “O Brasil já exporta muito, sobretudo em sapatos de couro”, diz Ricupero. Os impostos de importação da Europa sobre calçados (entre 3,5% e 7%) devem zerar em 10 anos. A UE importa 40% da produção mundial de calçados, ou 3,2 bilhões de pares. “O Brasil só responde por 1% desse mercado. É um exemplo do grande potencial, no caso de calçado de couro”, diz.

“Há duas áreas onde o acordo inspira cuidado”, observa. Além do impacto na indústria, ampliado pelo custo-Brasil e juros de 15% ao ano, cita as salvaguardas que o Parlamento Europeu aprovou em dezembro, unilateralmente. “A UE poderá abrir investigação sempre que o preço de um produto do Mercosul for 5% mais barato do que o equivalente europeu e quando o aumento das importações de um produto, que teve redução de tarifa, for de mais de 5%. Nesses dois casos preveem investigação. O que é negativo porque não está no texto do acordo.”

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