Por Daniela Chiaretti / Valor Econômico
Ex-secretário geral da Unctad, diplomata acredita que tratado UE-Mercosul é positivo para economia brasileira, mas há desafios
O acordo de livre comércio entre Mercosul e
União Europeia, assinado no sábado, 17, tem o potencial de abrir uma frente de
novos tratados entre os países do Mercosul e o Canadá, Japão, Coreia do Sul e
outros. A opinião é do diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do
Meio Ambiente e que durante dez anos foi secretário-geral da Conferência das
Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a Unctad.
“No cenário atual, em que não estão surgindo grandes acordos comerciais, este do Mercosul e da União Europeia pode ser o primeiro de uma série no mundo”, diz. “Penso que esse acordo tem esta vantagem”, diz, em um mundo pouco multilateral. Ricupero vê o acordo como positivo para o Mercosul e o Brasil, mas com desafios.
O diplomata se baseia em estudo do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que conclui que o tratado é, no conjunto,
favorável à economia brasileira. “Seria o país que ganharia mais, no Mercosul.
E dentro da economia brasileira, o setor que terá mais benefícios é a
agroindústria”, menciona.
O Ipea calcula que em 17 anos a agroindústria
pode ter crescimento adicional, em função do acordo, de 2%. O setor da
agroindústria que a curto prazo tem condições de ampliar mais suas vendas seria
o de carne de aves. “Suíno também, mas o Brasil não tem acordo sanitário com a
UE, e isso impossibilita a venda por enquanto”, diz. A previsão é de um
potencial de crescimento gradual de mais de 9% na exportação de frango.
O acordo autoriza, depois de seis anos, a
entrada de 180 mil toneladas de carne de frango sem taxas como cota para o
Mercosul, mas o Brasil tende a se beneficiar mais, diz. Hoje a cota é de 346
mil toneladas de carne de frango, mas com 15% de tributação. “O Brasil exporta
35% do frango que produz, mas os mercados são sobretudo a China, Japão e
Emirados Árabes. A União Europeia compra menos de 5%. O potencial, como se vê,
é grande.”
Em outros setores também o Ipea estima
crescimento. O café hoje exportado tem tarifa de 9%, que será zerada em quatro
anos.
Mas há desafios. “Em princípio ganha a
agroindústria, mas na indústria, propriamente, um setor que pode perder é o de
equipamentos elétricos e de máquinas”. O Ipea prevê perda de 1,6% para artigos
elétricos e 1% para máquinas e equipamentos.
“Isso tudo é muito controvertido”, diz
Ricupero. A associação dos fabricantes de máquinas e equipamentos, Abimaq,
apontou risco para a indústria da transformação. Mas para Humberto Barbato,
presidente da associação da indústria elétrica e eletrônica (Abinee) o dado do
Ipea é equivocado. “Têm confiança de que podem se defender da competição
europeia”. O argumento é que em quatro anos, todo equipamento elétrico que o
Brasil vender para a UE terá tarifa zero enquanto produtos da UE para o
Mercosul só terão tarifa zero entre 10 a 15 anos. “Veremos o que acontecerá
quando o acordo entrar em vigor, o que levará tempo”.
Em alguns casos a indústria brasileira pode
ganhar. O Ipea estima que a exportação de sapatos pode registrar alta de 3,2% à
medida em que as tarifas forem diminuindo. “O Brasil já exporta muito,
sobretudo em sapatos de couro”, diz Ricupero. Os impostos de importação da
Europa sobre calçados (entre 3,5% e 7%) devem zerar em 10 anos. A UE importa
40% da produção mundial de calçados, ou 3,2 bilhões de pares. “O Brasil só
responde por 1% desse mercado. É um exemplo do grande potencial, no caso de
calçado de couro”, diz.
“Há duas áreas onde o acordo inspira
cuidado”, observa. Além do impacto na indústria, ampliado pelo custo-Brasil e
juros de 15% ao ano, cita as salvaguardas que o Parlamento Europeu aprovou em
dezembro, unilateralmente. “A UE poderá abrir investigação sempre que o preço
de um produto do Mercosul for 5% mais barato do que o equivalente europeu e quando
o aumento das importações de um produto, que teve redução de tarifa, for de
mais de 5%. Nesses dois casos preveem investigação. O que é negativo porque não
está no texto do acordo.”

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