Por Joelmir Tavares e Tiago Angelo / Valor Econômico
Após adiar encontro com ex-presidente,
governo de SP tem previsão de ir à "Papudinha" na próxima
quinta-feira e diz que trabalhará por "direita unida" na eleição
Após adiar o encontro, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) confirmou
que visitará o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) na prisão na próxima quinta-feira (29). A
nova data foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal
(STF). Ao se pronunciar pela primeira vez depois do recuo, Tarcísio reafirmou
ser candidato a reeleição e chamou de “especulações” os rumores de que tem
interesse em concorrer à Presidência da República.
“Sou candidato à reeleição do governo do Estado de São Paulo e irei trabalhar sempre por uma direita unida e forte para tirar a esquerda do poder. Qualquer informação diferente desta não passa de especulação”, afirmou Tarcísio nas redes sociais na quinta-feira (22).
"Irei visitar o presidente Bolsonaro, a
quem sou e serei grato e leal, na próxima quinta-feira para prestar o meu total
apoio e solidariedade", afirmou. Tarcísio
já tinha declarado, antes da visita adiada, que iria encontrar "um grande
amigo", oferecer ajuda e renovar seu apoio.
Inicialmente, a visita estava prevista para a
manhã de quinta-feira (22). Na noite de terça-feira (20), Tarcísio pediu para
adiar o encontro alegando ter compromissos em São Paulo. A agenda do governador
divulgada ontem previa apenas “despachos internos” na parte da tarde.
Auxiliares não forneceram informações adicionais sobre os despachos no Palácio
dos Bandeirantes nem responderam se Tarcísio teve algum compromisso pessoal no
período da manhã.
O adiamento da visita, a pedido do
governador, criou
um atrito com o senador Flávio Bolsonaro
(PL), pré-candidato à Presidência escolhido pelo pai no mês
passado para sucedê-lo. Segundo aliados, Tarcísio decidiu postergar a ida a
Brasília após ficar incomodado com as pressões para "entrar de
cabeça" na campanha do senador e as críticas de uma ala da família,
sobretudo do ex-deputado federal Eduardo e do ex-vereador Carlos.
Diante do clima de tensão, aliados entraram
em cena para tentar conter os danos e preservar a relação entre o governador de
São Paulo e a família Bolsonaro. O esforço, segundo relatos, é para evitar que
o estremecimento prejudique a direita nas eleições, sob o argumento de que
ambos têm muito a perder com um eventual rompimento.
O adiamento do
encontro abriu uma guerra entre Republicanos e PL, partidos que discutem
alianças para as eleições de outubro. Dirigentes trocaram ataques, o que
acendeu o alerta para o risco de fragmentação no bolsonarismo e levou figuras
como o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, a agirem em prol de uma
pacificação.
Na percepção de aliados de Tarcísio e Flávio
ouvidos pelo Valor,
o mal-estar da véspera ainda não foi bem digerido por nenhum dos lados, mas
existe a preocupação de estancar a crise.
Valdemar reiterou, nos bastidores e
publicamente, que Tarcísio é um ator central da oposição nas articulações para
derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O dirigente disse
considerar a candidatura de Flávio irreversível e negou a hipótese de o PL
lançar um candidato a governador para concorrer contra Tarcísio, caso o
governador confirme o plano de reeleição.
Na quarta-feira (21), o presidente nacional
do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira, rebateu nas redes sociais o
líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes
Cavalcante (PL-RJ). O líder, que fez críticas recentes a
Tarcísio ao defender a candidatura de Flávio, desta vez apontou a falta de um
“projeto nacional” do Republicanos e questionou o que a legenda “acrescenta”
para Tarcísio. O PL já tentou filiar o governador, mas ele resiste a uma
migração.
Pereira afirmou que o Republicanos sempre
“acreditou no projeto do governador, quando muitos, inclusive dentro do PL,
faziam eventos públicos em apoio ao seu adversário em São Paulo”. Também
rebateu Sóstenes ao dizer que o Republicanos “não faz política no grito, nem
cria crises para aparecer”, e que “liderança se constrói com equilíbrio — e não
com bravatas”.
“Diferentemente de outros partidos, nunca
constrangemos o governador, nunca o expusemos publicamente e nunca foi
necessário emitir carta para ‘acalmar’ nossa bancada. Nossa atuação sempre foi
de lealdade, responsabilidade e estabilidade política”, completou Pereira.
Em meio aos atritos, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que
anunciou na quarta ter desistido de concorrer ao governo do Rio Grande do Norte
para atuar na coordenação da campanha de Flávio, também pregou um
apaziguamento. Marinho descreveu Tarcísio como um aliado “leal” e “grato” e
disse acreditar que ele entrará na campanha do senador no “momento adequado”. O
governador já manifestou apoio a Flávio, mas é cobrado a ter uma postura mais
enfática.
O cálculo feito por diferentes atores da
direita é que Flávio precisa de um palanque forte no Estado de São Paulo,
principal colégio eleitoral do país, para aumentar sua competitividade, e que
hoje o governador é quem tem mais chances de oferecer isso a ele.
Já Tarcísio não pode prescindir do eleitorado
bolsonarista em sua eventual tentativa de reeleição e deve evitar a todo custo
ganhar a pecha de “traidor”, o que poderia ser fatal para o futuro de sua
carreira política, na visão de interlocutores.
Tarcísio reiterou em conversas privadas seu
foco na tentativa de reeleição. Políticos do entorno citaram os ataques de
Eduardo e Carlos Bolsonaro como exemplo de que ele não tem apoio unânime no
clã. Um aliado falou na existência de uma “guerra fria” na família, opondo
filhos e a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro (PL), que nos últimos dias fez acenos a Tarcísio e
evitou declarar apoio a Flávio.
Pelo campo da direita, são também
pré-candidatos o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), e o governador de Minas
Gerais, Romeu Zema (Novo).
O governador do Paraná, Ratinho
Junior (PSD), também é cotado como presidenciável e afirmou
recentemente que aceitaria o desafio se for escolhido.
Na quinta-feira, em um evento em São Paulo,
Zema disse que sua pré-candidatura contribui para a estratégia de atrair mais
votos para a direita nas eleições de outubro e minimizou as críticas de pessoas
do entorno de Jair Bolsonaro a aliados que disputam o espólio do ex-presidente.
“No primeiro turno, com certeza, teremos
alguns candidatos [da direita], mas no segundo turno todos estaremos unidos
contra a esquerda, porque nós sabemos que, infelizmente, ela não tem um projeto
de longo prazo para o Brasil, mas um projeto de permanência no poder”, disse o
governador antes de palestrar em evento do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e
Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp).

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