O título pode ser enganoso e sugerir que falaremos dos EUA, da Groenlândia, da esquecida e ainda chavista Venezuela ou das caminhadas anti-institucionais ora em curso e sendo programadas no ambiente doméstico. Mas a frase é o refrão da canção que encerra o filme Marty Supreme Everybody Wants To Rule The World, da banda Tears for Fears, grande sucesso há 40 anos e cuja letra sintetiza as motivações do vendedor de sapatos e tenista de mesa Marty Mauser (cujo trocadilho com “mouse” é inevitável).
O filme se passa na Nova York de 1952 e apresenta a obstinação de Mauser em conseguir se afirmar como um astro do tênis de mesa internacional. Após perder a final no Aberto de Londres, o personagem não medirá esforços para seu grande objetivo: enfrentar o campeão mundial Koto Endo na terra desse, o Japão, em uma esperada revanche pessoal.
O filme é editado de forma muito rápida, com
a câmera em closes, que faz com o que o espectador mergulhe na ansiedade e na
montanha-russa da vida de Marty, que não mede esforços para conseguir suas viagens
internacionais para Londres e Tóquio. A trilha sonora eficiente resgata hits
dos anos 1980 e insinua que o filme ultrapassa o recorte temporal exibido. A
direção de arte e figurinos são muito competentes e nos trazem a lembrança da
Nova York de Era Uma Vez na América (1984)
e de West Side Story (1961).
Parte da história dos anos 1950 se revela aos
nossos olhos. A disseminação de um otimismo individualista pós-II Guerra nos
EUA dos anos 1950, uma euforia dos de baixo em ascensão que revestia camadas subterrâneas
de traições e frustrações como se revela nas personagens Kay Stone (Paltrow) e
Rockewll (O´Leary) em suas interações e nas interações com Marty.
A presença militar dos EUA no Japão aparece
na tela, assim como o processo de ocidentalização daquele país através do soft power. Na diplomacia e
na dominação (ou influência) de um país, o soft power funciona como um instrumento
estratégico para moldar preferências, legitimar ações e ampliar a esfera de
influência sem o uso direto da força. Aqui, o entretenimento e o nacionalismo
são manipulados por um empresário que perdeu seu filho na guerra contra os
japoneses. É uma variação do famoso epigrama de Samuel Johnson: “O patriotismo
é o último refúgio do canalha”.
Por falar em canalhice, o filme não é condescendente com o personagem. Sua obstinação e ambição em ser o número 1 nos remete ao filme Desafio à Corrupção (1961) com Paul Newman, inspiração para o ator principal. Assim como críticos fizeram paralelo com o músico de Whiplash (2014). Nosso ponto de vista não discorda, mas traz à tona Marty Mauser como o oposto de Rocky Balboa, filme que faz 50 anos em 2016. As virtudes desse – lealdade, humildade, empatia, docilidade – são inexistentes naquele. Mauser, mais do que a América dos anos 1950, é um paralelo com a geração X, Z ou Alfa. As ações de Mauser são aquilo que Oppenheimer falou: “Agora eu me tornei a Morte, a Destruidora de Mundos”. No caso, dos mundos dos que o cercam. Mauser é o anti-Balboa.
Irresponsável como filho, funcionário,
amante, amigo, sobrinho, sua única responsabilidade é consigo mesmo, com a
glória – não pelo esporte, não pelo ethos grego
clássico – mas para aparecer na caixa de cereais e ter seu nome gravado nas
bolinhas do esporte. Lembremos do pensador Alexis de Tocqueville, que no
clássico A Democracia na América chamava
de efeito negativo do interesse: as pessoas passam a se preocupar apenas com
seus interesses privados imediatos e surge um déficit na vida associativa,
cívica, política.
Para além da ótima interpretação arrogante e
imersiva nesse anti-herói que será mais um da galeria de personagens jovens com
moral duvidosa que se envolvem em conflitos e que precisam da Fortuna para sair
das enrascadas (As Aventuras de Tom Jones; Memórias de um Sargento de Milícias;
Oliver Twist) o filme nos alerta sobre a necessidade premente da cultura cívica
e democrática na juventude para adverti-las dos riscos do egoísmo, do
individualismo e do mau interesse. No filme, a solução é o filho transformando o
pai, como José Saramago nos trouxe em seu Evangelho segundo Jesus Cristo.
Teremos, em breve, eleições no país. Aqueles
que souberem falar melhor com a juventude para que vá votar pelo interesse
serão os vencedores. O desafio é saber propor o interesse público, republicano
e democrático acima do interesse egoísta e privatista. Todos querem governar o
mundo para todos ou para si? Esse é o Match Point de 2026.
*Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.

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