quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Todos querem governar o mundo, por Pablo Spinelli

Filme resenhado: Marty Supreme (EUA: 2025) dirigido por Josh Safdie. Com Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Kevin O’Leary, Abel Ferrara. Indicado a 9 Oscars, como Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Montagem.

O título pode ser enganoso e sugerir que falaremos dos EUA, da Groenlândia, da esquecida e ainda chavista Venezuela ou das caminhadas anti-institucionais ora em curso e sendo programadas no ambiente doméstico. Mas a frase é o refrão da canção que encerra o filme Marty Supreme Everybody Wants To Rule The World, da banda Tears for Fears, grande sucesso há 40 anos e cuja letra sintetiza as motivações do vendedor de sapatos e tenista de mesa Marty Mauser (cujo trocadilho com “mouse” é inevitável).

O filme se passa na Nova York de 1952 e apresenta a obstinação de Mauser em conseguir se afirmar como um astro do tênis de mesa internacional. Após perder a final no Aberto de Londres, o personagem não medirá esforços para seu grande objetivo: enfrentar o campeão mundial Koto Endo na terra desse, o Japão, em uma esperada revanche pessoal.

O filme é editado de forma muito rápida, com a câmera em closes, que faz com o que o espectador mergulhe na ansiedade e na montanha-russa da vida de Marty, que não mede esforços para conseguir suas viagens internacionais para Londres e Tóquio. A trilha sonora eficiente resgata hits dos anos 1980 e insinua que o filme ultrapassa o recorte temporal exibido. A direção de arte e figurinos são muito competentes e nos trazem a lembrança da Nova York de Era Uma Vez na América (1984) e de West Side Story (1961).

Parte da história dos anos 1950 se revela aos nossos olhos. A disseminação de um otimismo individualista pós-II Guerra nos EUA dos anos 1950, uma euforia dos de baixo em ascensão que revestia camadas subterrâneas de traições e frustrações como se revela nas personagens Kay Stone (Paltrow) e Rockewll (O´Leary) em suas interações e nas interações com Marty.

A presença militar dos EUA no Japão aparece na tela, assim como o processo de ocidentalização daquele país através do soft power. Na diplomacia e na dominação (ou influência) de um país, o soft power funciona como um instrumento estratégico para moldar preferências, legitimar ações e ampliar a esfera de influência sem o uso direto da força. Aqui, o entretenimento e o nacionalismo são manipulados por um empresário que perdeu seu filho na guerra contra os japoneses. É uma variação do famoso epigrama de Samuel Johnson: “O patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Por falar em canalhice, o filme não é condescendente com o personagem. Sua obstinação e ambição em ser o número 1 nos remete ao filme Desafio à Corrupção (1961) com Paul Newman, inspiração para o ator principal. Assim como críticos fizeram paralelo com o músico de Whiplash (2014). Nosso ponto de vista não discorda, mas traz à tona Marty Mauser como o oposto de Rocky Balboa, filme que faz 50 anos em 2016. As virtudes desse – lealdade, humildade, empatia, docilidade – são inexistentes naquele. Mauser, mais do que a América dos anos 1950, é um paralelo com a geração X, Z ou Alfa. As ações de Mauser são aquilo que Oppenheimer falou: “Agora eu me tornei a Morte, a Destruidora de Mundos”. No caso, dos mundos dos que o cercam. Mauser é o anti-Balboa.

Irresponsável como filho, funcionário, amante, amigo, sobrinho, sua única responsabilidade é consigo mesmo, com a glória – não pelo esporte, não pelo ethos grego clássico – mas para aparecer na caixa de cereais e ter seu nome gravado nas bolinhas do esporte. Lembremos do pensador Alexis de Tocqueville, que no clássico A Democracia na América chamava de efeito negativo do interesse: as pessoas passam a se preocupar apenas com seus interesses privados imediatos e surge um déficit na vida associativa, cívica, política.

Para além da ótima interpretação arrogante e imersiva nesse anti-herói que será mais um da galeria de personagens jovens com moral duvidosa que se envolvem em conflitos e que precisam da Fortuna para sair das enrascadas (As Aventuras de Tom Jones; Memórias de um Sargento de Milícias; Oliver Twist) o filme nos alerta sobre a necessidade premente da cultura cívica e democrática na juventude para adverti-las dos riscos do egoísmo, do individualismo e do mau interesse. No filme, a solução é o filho transformando o pai, como José Saramago nos trouxe em seu Evangelho segundo Jesus Cristo.

Teremos, em breve, eleições no país. Aqueles que souberem falar melhor com a juventude para que vá votar pelo interesse serão os vencedores. O desafio é saber propor o interesse público, republicano e democrático acima do interesse egoísta e privatista. Todos querem governar o mundo para todos ou para si? Esse é o Match Point de 2026.

 *Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.

 

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