Folha de S. Paulo
Ao ameaçar a Dinamarca, americano coloca em
risco aliança para segurança
Uso militar e econômico da Groenlândia
poderia ser implementado sem a transferência da posse da ilha
Uma coisa é uma intervenção militar em ditaduras hostis, como Venezuela e Irã. Outra, bem diferente, é ameaçar uma nação que não apenas é uma democracia aliada como também membro da aliança mais importante para a segurança dos EUA. É "apenas" isso que Trump coloca em risco ao exigir a anexação da Groenlândia.
Todos os usos militares e econômicos para os
quais os EUA tenham interesse na Groenlândia poderiam facilmente ser
implementados sem a transferência da posse da ilha para os EUA. A Dinamarca está
mais do que disposta a negociar, coisa que já poderia ter sido feita sem nem
uma fração do desgaste e da corrosão de confiança que o impasse atual já causou
antes mesmo de ter escalado para a agressão.
Na Estratégia de Segurança Nacional
—publicada em novembro de 2025— não havia uma única menção à Groenlândia. Em
carta ao primeiro-ministro da Noruega, Trump deixou claro que não ter
ganhado o Nobel da
Paz pesa em sua vontade de conquistar a ilha. Ou seja, a
anexação decorre muito mais de uma idiossincrasia de Trump do que qualquer
outro motivo. E, em nome dessa psicologia primitiva, a ordem mundial está em
risco.
A ordem mundial que Trump hoje julga como
desvantajosa na verdade manteve os EUA no topo do poder político e econômico
global. O mundo inteiro tem no dólar e
nos ativos do Tesouro americano um porto seguro, garantindo que os EUA possam
se endividar em níveis muito mais altos do que qualquer outra economia. A
confiança que permitiu isso já está sendo corroída. O dólar vem perdendo valor
paulatinamente, visto cada vez menos como um porto seguro econômico. Antes,
confusão no mundo significava dólar em alta; isso já não é mais verdade.
Nem a Otan nem
a Europa como um todo tem como defender militarmente a Groenlândia. A ideia de
que há uma bala de prata econômica que a Europa possa utilizar —como a venda em
massa de títulos americanos— é enganosa; os trilhões em títulos estão nas mãos
de diversos investidores, em sua maioria privados. Ela é de fato mais
dependente dos EUA do que vice-versa, dependência que inclui a importação de
equipamento militar. No curto prazo, talvez a retaliação econômica não seja a
melhor alternativa para a Europa. O que está claro —não só para ela como para
todos os países do mundo— é que depender dos EUA virou um risco.
Uma vez que o tabu foi quebrado, é impossível
voltar atrás. Mesmo depois de Trump deixar a Casa Branca, o mundo sabe que a
adesão americana às regras e compromissos das relações internacionais não é
automática e pode ser usada como arma de negociação para conseguir concessões
em diversas áreas, de acordo com o interesse do governo da vez.
A maior beneficiária imediata disso é a China,
que aliás carece de um sistema de alianças militares como a Otan, que agora
vislumbra seu fim. Isso já está acontecendo. O Canadá anunciou na semana
passada uma parceria econômica com a China para se adaptar à "nova ordem
mundial" —inicialmente só reduziram algumas poucas tarifas mútuas, mas uma
agenda de investimentos mais ambiciosa se apresenta. A própria Europa parece
ter, tardiamente, percebido o risco de sua dependência.
Em sua fixação por ficar em "primeiro
lugar", Trump apenas promove a decadência americana e acelera a transição
para um mundo que dependa menos dos EUA.

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