terça-feira, 20 de janeiro de 2026

UE precisa dizer não a Trump. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pretensões do presidente sobre a Groenlândia não têm motivação racional

Entregar soberania da ilha aos EUA não pode ser considerado opção viável

Já passa da hora de traçar uma linha vermelha para Donald Trump. O uso de tarifas para retaliar países europeus que se manifestaram contra a pressão que os EUA exercem para que a Dinamarca lhes ceda a Groenlândia é um claro sinal de que o apetite do presidente americano é insaciável. Nem menciono ações dos EUA contra nações com as quais Washington tinha desavenças históricas, como Venezuela, Irã ou Cuba. Trump agora está se voltando contra seus mais tradicionais aliados.

Se hoje é a Groenlândia, território associado à Dinamarca, um dos 12 membros fundadores da Otan, que está na mira da Casa Branca, amanhã poderá ser o Canadá, que Trump já disse que gostaria de ver como o 51º estado dos EUA. Embora o Agente Laranja não goste de florestas, poderá até sobrar para a amazônia.

É o caso também de perguntar se o americano se encontra em seu juízo perfeito, porque não parece haver muita motivação racional para seu comportamento. Se sua preocupação é com defesa, os EUA já têm, no âmbito dos acordos bilaterais e da Otan, todo o acesso militar à Groenlândia de que precisam. O comando espacial norte-americano já mantém ali a base de Pituffik e, ao que tudo indica, ninguém faria objeções à reabertura das mais de 15 bases que os EUA já tiveram no território e decidiram fechar.

Fica assim a suspeita de que sejam razões egoicas —e do ego de uma criança de quatro anos— que estejam movendo Trump. Ele quer dar ao "Make America Great Again" uma dimensão territorial. Já disse que considerou a compra do Alasca pelos EUA no século 19 uma grande cartada. Mandou uma enigmática carta ao premiê da Noruega insinuando que o fato de ele não ter ganhado o Nobel da Paz pode ser outro fator. Trump provavelmente considera que Suécia, Dinamarca e Noruega são todos a mesma coisa.

Entendo a preocupação da União Europeia (UE) de não escalar a crise, mas não me parece que entregar a ilha seja uma opção. A política do apaziguamento não funcionou nos anos 1930 e provavelmente não funcionaria agora.

 

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