O Estado de S. Paulo
Com a nova doutrina Trump, alicerçada na força militar, na potência econômica e na diplomacia, a reconfiguração mundial alcança um novo patamar
O mundo geopolítico, tal como o conhecemos desde a 2.ª Guerra Mundial, ruiu. Estamos observando seu desmoronamento, com as instituições que o alicerçavam sendo abaladas em seus fundamentos. De nada adianta recorrer ao “Direito Internacional”, como se fosse algo perene. O próprio conceito de Direito Internacional torna-se problemático, visto que está embasado no acordo entre Estados que assim estabelecem relações jurídicas. Depende da adesão das partes signatárias a tal tipo de contrato, cessando se Estados importantes, tipo grandes potências, se retirarem do acordado.
Trata-se de um direito capenga, carecendo de
poder coercitivo, não possuindo instrumentos militares e policiais. O Direito
vale internamente nos Estados, por possuir Poder Judiciário, militar, policial
e presídios. De nada adianta presidentes e primeiros-ministros recorrerem ao
“Direito Internacional” enquanto parâmetro de conduta, se esse não mais vale
como referência. Para compreender o mundo contemporâneo, torna-se necessário
pensar diferentemente, com outras ideias e categorias que deem conta de um novo
fenômeno.
Passou a vigorar a “lei do mais forte”. O
equilíbrio geopolítico estava baseado num acordo europeu estabelecido pelas
potências vencedoras da 2.ª Guerra Mundial, visando, num primeiro momento, a
preservar o continente europeu ocidental da guerra. O oriental foi entregue à
União Soviética, que utilizava o seu espaço a seu bel prazer, invadindo
militarmente, por exemplo, a Hungria e a Checoslováquia. Com a invasão da
Ucrânia pela Rússia, este acordo foi rompido, deixando os países europeus à
mercê. Agora, com a nova doutrina Trump, alicerçada na força militar, na
potência econômica e na diplomacia, a reconfiguração mundial alcança um novo
patamar.
Contudo, para captarmos o que está
acontecendo, é inevitável melhor entendermos a personalidade de Trump. Vejamos
alguns de seus traços.
Gambler. O presidente americano é um jogador
ousado, que não mede meios para a conquista de seus objetivos. Forjado no
mercado imobiliário, faz apostas altas, visando aos maiores lucros, intimidando
os seus adversários, forçando-os a ceder. Esses devem aprender a jogar com ele,
pois se não o fizerem, certamente, perderão. Dobra suas apostas, sabendo recuar
conforme as reações de seus contendores, embora sempre lucrando. O caso dos
impostos e das tarifas ilustra muito bem isso. Faz parte do novo jogo.
Winner. Ele é um ganhador destemido, que
despreza fracos e fracassados, pessoas que não sabem exercer o poder. Discursos
bonitos de dirigentes internacionais que recorram a ideias por ele não
reconhecidas, como direitos humanos em suas versões esquerdistas,
identitarismo, multiculturalismo e Direito Internacional, são simplesmente
relegados. Os que sustentam tais ideias são deixados de lado. Ele preza por
ganhadores, sejam eles de esquerda ou direita. E visa, sobretudo, ao sucesso a
curto prazo, não tendo paciência para resultados muito demorados. Veja-se o seu
comportamento em relação ao Brasil. Primeiro, seguiu a posição de Bolsonaro,
abandonando-o quando percebeu que tinha se tornado um perdedor. Lula tornou-se
um “nice guy”, um cara bacana, porque passou a ser visto como um ganhador. Até
a Lei Magnitsky, aplicada ao ministro Alexandre de Moraes, foi revogada.
Imprevisibilidade. Suas jogadas são
imprevisíveis, apesar de por ele ensaiadas, apostando sempre na perplexidade do
adversário, em sua desatenção, em seu comportamento rotineiro, acostumado com a
ordem normal das coisas. Procura sempre o desorientar, forçando-o a abandonar
suas posições, imprimindo em sua conduta o poder de coerção por intermédio da
ameaça real, não imaginária, da força militar e de represálias econômicas e
tributárias.
Cautela. Apesar de ser imprevisível, não
deixa, porém, de ser cauteloso, pesando as suas ações e moderando os seus
gestos. Note-se que na captura de Maduro e sua mulher, podendo derrubar o
regime, optou pela prudência, deixando-o intacto num primeiro momento e
desconsiderando a oposição. Teme a repetição do Iraque, com a violência desregrada
numa luta pelo poder entre diferentes facções e grupos criminosos. Muito
provavelmente dará novos passos, com a transição a um governo civil e,
posteriormente, a eleições, quando María Corina competirá livremente.
Vaidade. Trump é uma pessoa muito vaidosa,
poder-se-ia também dizer egocêntrica ou narcisista, gostando de ter a seu redor
bajuladores e, mesmo adversários que o reconheçam como um grande líder. Cai,
muitas vezes, em questões absolutamente menores e irrelevantes, como a inveja
de María Corina por ter conquistado o Prêmio Nobel que, segundo ele, deveria
ser seu. Em toda pessoa e, particularmente, em grandes líderes, não convém
desprezar traços mesquinhos, característicos da própria condição humana. Devem
ser levados em conta em qualquer negociação.
O Brasil está obrigado a se repensar neste
novo mundo, abandonando crenças arraigadas que não mais se aplicam à situação
atual. •

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