segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Trump. Por Denis L. Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Com a nova doutrina Trump, alicerçada na força militar, na potência econômica e na diplomacia, a reconfiguração mundial alcança um novo patamar

O mundo geopolítico, tal como o conhecemos desde a 2.ª Guerra Mundial, ruiu. Estamos observando seu desmoronamento, com as instituições que o alicerçavam sendo abaladas em seus fundamentos. De nada adianta recorrer ao “Direito Internacional”, como se fosse algo perene. O próprio conceito de Direito Internacional torna-se problemático, visto que está embasado no acordo entre Estados que assim estabelecem relações jurídicas. Depende da adesão das partes signatárias a tal tipo de contrato, cessando se Estados importantes, tipo grandes potências, se retirarem do acordado.

Trata-se de um direito capenga, carecendo de poder coercitivo, não possuindo instrumentos militares e policiais. O Direito vale internamente nos Estados, por possuir Poder Judiciário, militar, policial e presídios. De nada adianta presidentes e primeiros-ministros recorrerem ao “Direito Internacional” enquanto parâmetro de conduta, se esse não mais vale como referência. Para compreender o mundo contemporâneo, torna-se necessário pensar diferentemente, com outras ideias e categorias que deem conta de um novo fenômeno.

Passou a vigorar a “lei do mais forte”. O equilíbrio geopolítico estava baseado num acordo europeu estabelecido pelas potências vencedoras da 2.ª Guerra Mundial, visando, num primeiro momento, a preservar o continente europeu ocidental da guerra. O oriental foi entregue à União Soviética, que utilizava o seu espaço a seu bel prazer, invadindo militarmente, por exemplo, a Hungria e a Checoslováquia. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, este acordo foi rompido, deixando os países europeus à mercê. Agora, com a nova doutrina Trump, alicerçada na força militar, na potência econômica e na diplomacia, a reconfiguração mundial alcança um novo patamar.

Contudo, para captarmos o que está acontecendo, é inevitável melhor entendermos a personalidade de Trump. Vejamos alguns de seus traços.

Gambler. O presidente americano é um jogador ousado, que não mede meios para a conquista de seus objetivos. Forjado no mercado imobiliário, faz apostas altas, visando aos maiores lucros, intimidando os seus adversários, forçando-os a ceder. Esses devem aprender a jogar com ele, pois se não o fizerem, certamente, perderão. Dobra suas apostas, sabendo recuar conforme as reações de seus contendores, embora sempre lucrando. O caso dos impostos e das tarifas ilustra muito bem isso. Faz parte do novo jogo.

Winner. Ele é um ganhador destemido, que despreza fracos e fracassados, pessoas que não sabem exercer o poder. Discursos bonitos de dirigentes internacionais que recorram a ideias por ele não reconhecidas, como direitos humanos em suas versões esquerdistas, identitarismo, multiculturalismo e Direito Internacional, são simplesmente relegados. Os que sustentam tais ideias são deixados de lado. Ele preza por ganhadores, sejam eles de esquerda ou direita. E visa, sobretudo, ao sucesso a curto prazo, não tendo paciência para resultados muito demorados. Veja-se o seu comportamento em relação ao Brasil. Primeiro, seguiu a posição de Bolsonaro, abandonando-o quando percebeu que tinha se tornado um perdedor. Lula tornou-se um “nice guy”, um cara bacana, porque passou a ser visto como um ganhador. Até a Lei Magnitsky, aplicada ao ministro Alexandre de Moraes, foi revogada.

Imprevisibilidade. Suas jogadas são imprevisíveis, apesar de por ele ensaiadas, apostando sempre na perplexidade do adversário, em sua desatenção, em seu comportamento rotineiro, acostumado com a ordem normal das coisas. Procura sempre o desorientar, forçando-o a abandonar suas posições, imprimindo em sua conduta o poder de coerção por intermédio da ameaça real, não imaginária, da força militar e de represálias econômicas e tributárias.

Cautela. Apesar de ser imprevisível, não deixa, porém, de ser cauteloso, pesando as suas ações e moderando os seus gestos. Note-se que na captura de Maduro e sua mulher, podendo derrubar o regime, optou pela prudência, deixando-o intacto num primeiro momento e desconsiderando a oposição. Teme a repetição do Iraque, com a violência desregrada numa luta pelo poder entre diferentes facções e grupos criminosos. Muito provavelmente dará novos passos, com a transição a um governo civil e, posteriormente, a eleições, quando María Corina competirá livremente.

Vaidade. Trump é uma pessoa muito vaidosa, poder-se-ia também dizer egocêntrica ou narcisista, gostando de ter a seu redor bajuladores e, mesmo adversários que o reconheçam como um grande líder. Cai, muitas vezes, em questões absolutamente menores e irrelevantes, como a inveja de María Corina por ter conquistado o Prêmio Nobel que, segundo ele, deveria ser seu. Em toda pessoa e, particularmente, em grandes líderes, não convém desprezar traços mesquinhos, característicos da própria condição humana. Devem ser levados em conta em qualquer negociação.

O Brasil está obrigado a se repensar neste novo mundo, abandonando crenças arraigadas que não mais se aplicam à situação atual. •

 

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