sábado, 10 de janeiro de 2026

Tudo pelo Bicho: Os Donos do Jogo, por Giovana Freire*

A série “Os Donos do Jogo” constrói uma narrativa densa e moralmente ambígua sobre o submundo do bicho carioca, onde o poder é herdado pela violência e sustentado pela hipocrisia. A trama se desenrola a partir da chegada de Jefferson, o Profeta, ao Rio de Janeiro, após um assalto a maquininhas de apostas ligadas à Cúpula, organização que controla o jogo ilegal no Estado. A partir desse ponto, as engrenagens da contravenção se misturam ao drama humano, compondo um retrato sociopolítico da corrupção e da masculinidade como ferramentas de dominação.

Entre os personagens centrais, Galego Fernández, bicheiro tradicional, figura como símbolo do patriarcado moralista que comanda o subúrbio. Sua esposa, Leila Fernández, rompe a ordem do silêncio ao envolver-se com seu motorista, relação proibida que dá origem ao Profeta. O caso é descoberto por Xavier Fernandes, aliado de Galego, que, em nome da honra e da lealdade, executa o motorista e entrega o bebê à família de Nélio Moraes, bicheiro de Campos, afastando a criança do centro da disputa. Esse episódio inicial é o eixo de toda a tragédia: o crime, a mentira e a lealdade masculina moldam o destino de todos.

Enquanto isso, o poder se reorganiza. Jorge Guerra, histórico patriarca do bicho, ainda vivo, transfere debilitado o comando para Búfalo, casado com sua filha Suzana Guerra, como forma de assegurar a sucessão. No entanto, a ascensão de Búfalo é marcada pela instabilidade e pela traição, culminando em sua execução após o caos instalado pelo mesmo, o chamado “ser passado”, ato que reabre as disputas internas da Cúpula. O Profeta, por sua vez, envolve-se com Mirna Guerra que posteriormente vira sua esposa, filha de Jorge, e a relação dos dois encarna o dilema entre amor, interesse, vingança e poder. No centro das tensões entre amor e poder, destaca-se Mirna Guerra. A personagem carrega em si o peso simbólico de todas as mulheres que, dentro da estrutura patriarcal da contravenção, ousam pensar e agir por conta própria. Sua inteligência e frieza estratégica a tornam alvo de desconfiança constante, “todos sabiam que ela seria uma odiante”, como se o simples ato de raciocinar fosse uma ameaça. A série sugere que, no universo do bicho, as mulheres não são proibidas de existir, mas são impedidas de governar, confinadas ao papel de ornamento moral dos homens que dominam a cidade.

Mirna se rebela contra essa ordem silenciosa. Diferente de Leila, cuja transgressão é passional, desafia o poder de forma racional e calculada, o que a torna duplamente perigosa. Sua presença incomoda porque rompe o pacto masculino que sustenta o império da contravenção. Enquanto o Profeta busca vingança e redenção, sua musa e sócia busca espaço e autonomia. É justamente por isso que o sistema tenta reduzi-la à figura da mulher “mimada e teimosa”, é a ironia viva da série: a mulher que pensa é chamada de odiante, porque em um mundo governado por homens corruptos, o ódio feminino é apenas o outro nome da lucidez.

A série revela uma contradição central: no jogo do bicho, todos os homens traem suas mulheres, e isso é socialmente aceito, até visto como atributo de poder. Contudo, quando Leila trai o marido, sua culpa é imperdoável. A hipocrisia moral dos bicheiros traduz, em linguagem popular, o mesmo paradoxo que estrutura o poder político brasileiro: a masculinidade dominante se apresenta como guardiã da moral pública, enquanto pratica, em privado, as mesmas corrupções que condena. Assim, a infidelidade feminina é punida como crime de Estado, enquanto a masculina é louvada como gesto de virilidade.

Para além da moral doméstica, Os Donos do Jogo expande sua crítica ao retratar a teia que conecta contravenção, política, economia e cultura popular. O jogo do bicho não é apenas uma prática ilegal, é uma metáfora da própria estrutura nacional, onde o Estado convive harmonicamente com o ilícito. As bets, os cassinos clandestinos e os bitcoins aparecem como herdeiros digitais da velha contravenção, sinalizando que o capitalismo informal apenas trocou o papel-carbono pelo algoritmo. A ilegalidade, aqui, é um sistema legitimado pelo costume e pela conveniência.

Nesse mesmo universo, o samba surge como o palco simbólico da dominação. Os bicheiros são retratados como verdadeiros patronos das escolas de samba, financiando desfiles, comprando enredos e transformando a cultura popular em espetáculo de poder. A série insinua que o subúrbio, ao cantar liberdade na avenida, desfila, na verdade, sob o patrocínio do crime. Como analisa Chazkel (2011), o jogo do bicho sempre funcionou como uma “economia moral paralela”, uma forma de poder que se legitima pela caridade e pela festa. O carnaval, nesse contexto, torna-se o rito de purificação da corrupção: o crime samba, a miséria sorri e o Brasil aplaude.

Politicamente, a série revela um país em que o Estado e a contravenção se confundem, e onde a linha entre o poder público e o privado é tão tênue quanto as promessas de campanha. Os mesmos políticos que condenam o jogo ilegal dependem dele para financiar suas eleições; os mesmos bicheiros que operam nas sombras sustentam as festas oficiais da cidade. Essa fusão entre corrupção e espetáculo revela uma característica essencial da política brasileira: a criminalidade não é uma falha do sistema, é o próprio sistema operando em sua forma mais eficiente.

O jogo, portanto, é mais do que uma metáfora do poder: é o retrato da naturalização da contravenção como política de Estado. O subúrbio é o laboratório social onde o povo aprende que toda lei é negociável e que a justiça é um luxo para quem pode comprá-la. A cultura, o carnaval e o crime convivem como faces de uma mesma engrenagem que alimenta o imaginário nacional. O Brasil, em Os Donos do Jogo, é um país onde a moral é um espetáculo e o espetáculo, uma transação política.

A morte de Búfalo, o antagonista que “é passado”, (Não ironicamente foi tarde) reafirma o ciclo de substituição: nada se perde, apenas muda de nome. O submundo carioca se reorganiza como uma miniatura da política brasileira, onde o poder é hereditário, a mentira é diplomática e o crime é institucionalizado.

O desfecho é trágico e simbólico. Xavier Fernandes, dilacerado pela culpa, se suicida, deixando uma carta para Galego com a revelação de que o Profeta é filho de Leila. O acaso, ou o destino, faz com que o Profeta encontre a carta antes. Ele descobre tudo, cala, e o ciclo do silêncio recomeça. Ao lado de Galego Fernández, o homem que matou seu pai sem saber, o Profeta se torna parte do mesmo poder que o feriu.

No fim, a série propõe uma reflexão que ultrapassa a ficção: o crime no Brasil não é uma anomalia, é um modo de organização social. O bicheiro é o espelho do político, o jogo é a metáfora da nação e a moral é o disfarce do lucro. E, entre tiros, fogos, traição, samba, promessas e apostas, ecoa a pergunta final que nenhum deles pode responder: o que Galego fará quando descobrir de quem o Profeta é filho? E até onde a Cúpula irá intervir?

Referências:

CHAZKEL, A. As leis do acaso: a loteria clandestina e a formação da vida pública urbana no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014.

GAY, R. Organização popular e democracia no Rio de Janeiro: a história de duas favelas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

OS DONOS do jogo. Direção: Heitor Dhalia. Produção original: Netflix. [S. l.]: Netflix, 2025. Série.

*Giovana Freire é Estudante de Pedagogia pela Universidade Cândido Mendes e História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.