Entre os personagens centrais, Galego
Fernández, bicheiro tradicional, figura como símbolo do patriarcado moralista
que comanda o subúrbio. Sua esposa, Leila Fernández, rompe a ordem do silêncio
ao envolver-se com seu motorista, relação proibida que dá origem ao Profeta. O
caso é descoberto por Xavier Fernandes, aliado de Galego, que, em nome da honra
e da lealdade, executa o motorista e entrega o bebê à família de Nélio Moraes,
bicheiro de Campos, afastando a criança do centro da disputa. Esse episódio
inicial é o eixo de toda a tragédia: o crime, a mentira e a lealdade masculina
moldam o destino de todos.
Enquanto isso, o poder se reorganiza. Jorge
Guerra, histórico patriarca do bicho, ainda vivo, transfere debilitado o
comando para Búfalo, casado com sua filha Suzana Guerra, como forma de
assegurar a sucessão. No entanto, a ascensão de Búfalo é marcada pela
instabilidade e pela traição, culminando em sua execução após o caos instalado
pelo mesmo, o chamado “ser passado”, ato que reabre as disputas internas da
Cúpula. O Profeta, por sua vez, envolve-se com Mirna Guerra que posteriormente
vira sua esposa, filha de Jorge, e a relação dos dois encarna o dilema entre
amor, interesse, vingança e poder. No centro das tensões entre amor e poder,
destaca-se Mirna Guerra. A personagem carrega em si o peso simbólico de todas
as mulheres que, dentro da estrutura patriarcal da contravenção, ousam pensar e
agir por conta própria. Sua inteligência e frieza estratégica a tornam alvo de
desconfiança constante, “todos sabiam que ela seria uma odiante”, como se o
simples ato de raciocinar fosse uma ameaça. A série sugere que, no universo do
bicho, as mulheres não são proibidas de existir, mas são impedidas de governar,
confinadas ao papel de ornamento moral dos homens que dominam a cidade.
Mirna se rebela contra essa ordem silenciosa.
Diferente de Leila, cuja transgressão é passional, desafia o poder de forma
racional e calculada, o que a torna duplamente perigosa. Sua presença incomoda
porque rompe o pacto masculino que sustenta o império da contravenção. Enquanto
o Profeta busca vingança e redenção, sua musa e sócia busca espaço e autonomia.
É justamente por isso que o sistema tenta reduzi-la à figura da mulher “mimada
e teimosa”, é a ironia viva da série: a mulher que pensa é chamada de odiante,
porque em um mundo governado por homens corruptos, o ódio feminino é apenas o
outro nome da lucidez.
A série revela uma contradição central: no
jogo do bicho, todos os homens traem suas mulheres, e isso é socialmente
aceito, até visto como atributo de poder. Contudo, quando Leila trai o marido,
sua culpa é imperdoável. A hipocrisia moral dos bicheiros traduz, em linguagem
popular, o mesmo paradoxo que estrutura o poder político brasileiro: a
masculinidade dominante se apresenta como guardiã da moral pública, enquanto
pratica, em privado, as mesmas corrupções que condena. Assim, a infidelidade
feminina é punida como crime de Estado, enquanto a masculina é louvada como
gesto de virilidade.
Para além da moral doméstica, Os Donos do
Jogo expande sua crítica ao retratar a teia que conecta contravenção, política,
economia e cultura popular. O jogo do bicho não é apenas uma prática ilegal, é
uma metáfora da própria estrutura nacional, onde o Estado convive
harmonicamente com o ilícito. As bets, os cassinos clandestinos e os bitcoins
aparecem como herdeiros digitais da velha contravenção, sinalizando que o
capitalismo informal apenas trocou o papel-carbono pelo algoritmo. A
ilegalidade, aqui, é um sistema legitimado pelo costume e pela conveniência.
Nesse mesmo universo, o samba surge como o
palco simbólico da dominação. Os bicheiros são retratados como verdadeiros
patronos das escolas de samba, financiando desfiles, comprando enredos e
transformando a cultura popular em espetáculo de poder. A série insinua que o
subúrbio, ao cantar liberdade na avenida, desfila, na verdade, sob o patrocínio
do crime. Como analisa Chazkel (2011), o jogo do bicho sempre funcionou como
uma “economia moral paralela”, uma forma de poder que se legitima pela caridade
e pela festa. O carnaval, nesse contexto, torna-se o rito de purificação da
corrupção: o crime samba, a miséria sorri e o Brasil aplaude.
Politicamente, a série revela um país em que
o Estado e a contravenção se confundem, e onde a linha entre o poder público e
o privado é tão tênue quanto as promessas de campanha. Os mesmos políticos que
condenam o jogo ilegal dependem dele para financiar suas eleições; os mesmos
bicheiros que operam nas sombras sustentam as festas oficiais da cidade. Essa
fusão entre corrupção e espetáculo revela uma característica essencial da
política brasileira: a criminalidade não é uma falha do sistema, é o próprio
sistema operando em sua forma mais eficiente.
O jogo, portanto, é mais do que uma metáfora
do poder: é o retrato da naturalização da contravenção como política de Estado.
O subúrbio é o laboratório social onde o povo aprende que toda lei é negociável
e que a justiça é um luxo para quem pode comprá-la. A cultura, o carnaval e o
crime convivem como faces de uma mesma engrenagem que alimenta o imaginário
nacional. O Brasil, em Os Donos do Jogo, é um país onde a moral é um espetáculo
e o espetáculo, uma transação política.
A morte de Búfalo, o antagonista que “é
passado”, (Não ironicamente foi tarde) reafirma o ciclo de substituição: nada
se perde, apenas muda de nome. O submundo carioca se reorganiza como uma
miniatura da política brasileira, onde o poder é hereditário, a mentira é
diplomática e o crime é institucionalizado.
O desfecho é trágico e simbólico. Xavier
Fernandes, dilacerado pela culpa, se suicida, deixando uma carta para Galego
com a revelação de que o Profeta é filho de Leila. O acaso, ou o destino, faz
com que o Profeta encontre a carta antes. Ele descobre tudo, cala, e o ciclo do
silêncio recomeça. Ao lado de Galego Fernández, o homem que matou seu pai sem
saber, o Profeta se torna parte do mesmo poder que o feriu.
No fim, a série propõe uma reflexão que ultrapassa a ficção: o crime no Brasil não é uma anomalia, é um modo de organização social. O bicheiro é o espelho do político, o jogo é a metáfora da nação e a moral é o disfarce do lucro. E, entre tiros, fogos, traição, samba, promessas e apostas, ecoa a pergunta final que nenhum deles pode responder: o que Galego fará quando descobrir de quem o Profeta é filho? E até onde a Cúpula irá intervir?
Referências:
CHAZKEL, A. As leis do acaso: a
loteria clandestina e a formação da vida pública urbana no Rio de Janeiro. Rio
de Janeiro: Editora FGV, 2014.
GAY, R. Organização popular e democracia no Rio de Janeiro: a
história de duas favelas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
OS DONOS do jogo. Direção: Heitor
Dhalia. Produção original: Netflix.
[S. l.]: Netflix, 2025. Série.
*Giovana Freire é Estudante de Pedagogia pela Universidade Cândido Mendes e História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

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