Valor Econômico
Movimentos de Lula são exemplos da conduta
pragmática do Ministério das Relações Exteriores e do Palácio do Planalto
O oficial da Força Aérea Brasileira (FAB) abriu a porta do avião presidencial que acabara de pousar na base de Assunção na manhã do sábado (17), dia que marcaria a histórica assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia após décadas de negociação. Uma escada amarela conectava a aeronave ao solo da capital paraguaia, onde militares estavam perfilados em frente a um longo tapete vermelho para a recepção das autoridades estrangeiras. Mas, para a surpresa de muitos, a primeira pessoa a sair foi a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Sorridente e como sempre muito elegante, Von
der Leyen desembarcou do avião ornamentado com as cores da bandeira brasileira.
O voo partira do Rio de Janeiro após ela fazer questão de se reunir com o
presidente Lula para celebrar a assinatura do acordo. Na sequência, viriam o
presidente do Conselho Europeu, António Costa, e o chanceler Mauro Vieira.
A ausência do presidente Lula na reunião,
coincidentemente marcada para as vésperas do primeiro aniversário deste novo
mandato de Donald Trump à frente da Casa Branca, estava dada.
Na avaliação de autoridades brasileiras, o
presidente do Paraguai, Santiago Peña, havia contrariado o combinado
anteriormente ao convidar os chefes de Estado do bloco sul-americano para a
assinatura do acordo com os europeus. Em um ano crucial na negociação do
tratado binacional de Itaipu, as relações com o Paraguai têm muito a melhorar.
O Brasil, sob a administração do ex-presidente Jair Bolsonaro, fez uma operação
desastrada de espionagem contra o país vizinho e este episódio ainda não foi
totalmente superado, apesar das articulações empreendidas pela atual
administração para esclarecê-lo.
A interlocução com a Casa Rosada também já
foi muito melhor. As discussões de Estado seguem no ritmo possível. No entanto,
o presidente Lula tem se preocupado em evitar a armadilha de debater temas
sensíveis com o presidente argentino, Javier Milei, pelas redes sociais. Ao não
estar em Assunção, acabou evitando a necessidade de contrapor-se ao argentino
em relação à intervenção realizada pelos Estados Unidos na Venezuela ou até
mesmo fazer um comentário imediato sobre a proposta do presidente americano,
Donald Trump, para a instalação de um “conselho de paz” para Gaza.
Na diplomacia, as imagens e gestos têm forte
simbolismo. Podem ilustrar a dinâmica das relações internacionais de
determinado período histórico, refletir a geopolítica. São usadas como
ferramenta para projetar influência e poder.
Assim como não passou despercebida a ausência
de Lula na solenidade, foi importante também notar a menção feita por Peña ao
presidente brasileiro. Mas ainda mais forte foi o simbolismo da chegada de
Ursula von der Leyen em um avião da FAB, em uma clara mensagem ao Paraguai,
para a região e para o restante do mundo, em meio à guerra tarifária executada
pelos Estados Unidos, o desafio da diplomacia em uma ordem internacional
multipolar e movimentações dos EUA para ter a América do Sul como zona de sua
influência.
A aproximação com a União Europeia e a
cautela na relação com os EUA são, aliás, exemplos da conduta pragmática do
Ministério das Relações Exteriores e do Palácio do Planalto neste primeiro ano
do segundo mandato de Trump.
Está claro para autoridades brasileiras que o
foco do presidente americano é assegurar acesso a recursos naturais
considerados estratégicos pelos Estados Unidos. E nesse contexto há quem
pondere que, apesar das fortes críticas feitas pelo governo brasileiro ao
ataque contra a Venezuela por causa do petróleo, líderes europeus só levaram
mais a sério esse cenário quando a Groenlândia passou a ser o próximo alvo de
Trump em razão da sua posição estratégica e reservas de terras raras.
Este assunto inclusive escalou na terça-feira
(20). Enquanto Trump afirmava que “não há volta atrás” em seu objetivo de
controlar a Groenlândia, recusando-se a descartar a possibilidade de tomar o
território pela força, o primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen pedia à
população da ilha que se preparasse para uma invasão militar. Diversos líderes
europeus também elevaram o tom do discurso.
Mas, se tudo indica que Trump permanecerá
tentando pautar o debate internacional por meio das redes sociais e ameaças
tarifárias, a disposição da chancelaria brasileira permanecerá sendo tratar os
fatos que surgirem com calma, firmeza e diálogo. A intenção é manter a intensa
troca de figurinhas com interlocutores que tenham pensamentos convergentes com
os de Brasília, os europeus por exemplo, evitando a tomada precipitada de
decisões.
Toda e qualquer proposta será analisada com
cautela, sem que respostas sejam anunciadas antes do esclarecimento de
eventuais dúvidas. Nos últimos dias, por exemplo, o presidente da França,
Emmanuel Macron, logo recusou a participação de seu país no “conselho de paz”
de Gaza e foi prontamente retaliado por Trump com a ameaça de taxação de 200%
sobre vinhos e champanhes.
O tempo é outro fator relevante. Monitora-se, agora, a possibilidade de finalmente a Suprema Corte julgar o tarifaço de Trump contra vários países, incluindo o Brasil, e considerá-lo ilegal. Uma derrota da Casa Branca representaria uma importante reação das instituições dos EUA, país que sempre se orgulhou da estabilidade e da eficiência dos mecanismos de freios e contrapesos de seu sistema político.

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