O Estado de S. Paulo
Até onde a vista alcança, é distante a perspectiva de uma transição organizada para a democracia
Ninguém sabe com um mínimo de certeza o que
ocorrerá na Venezuela. O acordo entre o governo Trump e o regime venezuelano
tem bases frágeis.
Seja quem for o vencedor das eleições presidenciais deste ano no Brasil, terá de lidar com mais um capítulo da prolongada crise da Venezuela, a mais profunda e dramática jamais vivida por um país vizinho. Não é pequeno o risco de que o futuro presidente se depare com um cenário caracterizado pela escalada da intervenção dos Estados Unidos, com tropas estadunidenses no território venezuelano, em conflito com grupos armados ligados ao regime chavista. Até onde a vista alcança, é distante a perspectiva de uma transição organizada para a democracia.
A intervenção militar num país vizinho,
seguida de ocupação e guerra assimétrica contra a potência ocupante, numa
região com presença do crime organizado, é uma hipótese preocupante para o
Brasil. Tanto mais quando se trata da maior potência militar do mundo, sob a
presidência de Donald Trump, que não faz segredo de suas ambições imperiais na
região que considera ser o quintal de casa dos Estados Unidos.
O Brasil deve estar preparado para lidar com
uma situação complexa, que exige um consenso mínimo a respeito do que seja o
interesse nacional. Os sinais até aqui não são animadores.
Sequestrada pelo bolsonarismo, a direita
busca tirar proveito político da remoção de Maduro do poder. Martela mais uma
vez a tecla da proximidade de Lula e do PT com o regime chavista. A acusação
não é mentirosa, embora essa relação já não seja mais hoje o que foi no
passado. Basta lembrar que o Brasil bloqueou a entrada da Venezuela no Brics em
2024. Tampouco é verdade que Chávez e Maduro fossem iguais a Lula e que o PT
queira “fazer do Brasil uma Venezuela”. O mais espantoso, porém, é a adulação a
Trump e o aplauso a uma ação militar em completa e flagrante violação do
direito internacional e contrária a princípios que constam da Constituição
brasileira (respeito à soberania nacional e à não intervenção nos assuntos
internos de outros países).
Além do servilismo em relação ao presidente
americano, chama a atenção o entusiasmo infantil com a captura de Maduro. Mais
comedido, o governador Tarcísio de Freitas disse que “o que está feito está
feito, embora se possa criticar os meios que foram utilizados agora”. Não
adulou Trump como quando vestiu o boné vermelho do Maga ( Make America Great
Again), mas esquivou-se de criticá-lo pela violação do Direito Internacional.
Tratase de uma prudência sem convicção que o apequena sem lhe assegurar a
candidatura presidencial, já que a família Bolsonaro, mesmo com o pai preso,
continua a dar as cartas no campo da direita.
Já na esquerda, prevaleceu a condenação da
intervenção militar americana, mas também a ausência, mais uma vez, de qualquer
crítica à ditadura venezuelana. A descida no plano inclinado do autoritarismo
não foi um acidente de percurso na já longa história do chavismo. Pelo menos
desde 2005, quando Chávez anunciou a radicalização de seu projeto, agora guiado
pelo objetivo de implantar o “socialismo do século 21”, era clara a direção que
a Venezuela tomava. É nesse momento que se criam as primeiras milícias
populares que viriam a se tornar os temíveis “colectivos ”. Em 2009, veio a
aprovação da reeleição ad infinitum. Nessa longa jornada rumo à ditadura, em
que o cerceamento às liberdades foi constante, os venezuelanos passaram por
momentos de brutal violência política, além de muitas privações econômicas.
Nada menos de 8 milhões deixaram o país.
Ao longo de todo esse período, o PT não
emitiu uma nota sequer, com uma mísera frase, de condenação ao regime chavista.
Em julho de 2024, quando Maduro e companhia decidiram fraudar os resultados das
eleições que haviam perdido e mandar prender centenas de pessoas ligadas à
oposição, ato inaugural da ditadura sem disfarces, a executiva nacional do
partido soltou uma nota em que “saúda o povo venezuelano pelo processo
eleitoral ocorrido em uma jornada pacífica, democrática e soberana”.
Em meio ao tiroteio verbal das últimas
semanas, duas vozes sobressaíram. Eduardo Leite, governador do Rio Grande do
Sul, condenou igualmente a ação do governo dos Estados Unidos e a violação de
direitos humanos pela ditadura venezuelana. Defendeu a democracia como o único
caminho para a solução da crise no país vizinho. O ex-senador e chanceler
Aloysio Nunes Ferreira desenvolveu essa ideia, com realismo. Propõe que a
democracia seja a estrela-guia da política externa brasileira. Reconhece que a
transição para um novo regime na Venezuela levará tempo e destaca a experiência
do Brasil nessa matéria. Aqui, o trânsito do autoritarismo à democracia se deu
de modo gradual, com negociação entre setores da oposição e do governo.
Podemos dar uma contribuição para que o país vizinho se livre da ditadura, sem perder a soberania, mas isso vai depender de a sociedade exigir das lideranças políticas um comportamento à altura dos riscos e oportunidades do novo capítulo da dramática crise venezuelana.

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