O Globo
A preocupação com moradores em situação de
rua é imensa, bem como com trabalhadores de ofício ao ar livre
Enquanto Brasília, a partir do Legislativo, do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal de Contas da União (TCU), dá sinais claros do desejo de manter na sombra o escândalo do Banco Master — que o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que pode ser “a maior fraude bancária da História” —, parte do país derrete sob o sol. As ondas de calor extremo no verão que nem completou um mês já causam impacto no sistema de saúde, no abastecimento de água e energia elétrica, no mercado de trabalho, na educação e no meio ambiente. Brasil afora, Rio de Janeiro em particular, são perceptíveis os efeitos das mudanças climáticas: vendavais no Sul, chuvarada em São Paulo, calor inclemente na metrópole carioca.
Não faltam problemas no território
fluminense, mas nada tem batido o calorão como assunto mais comentado da
temporada. As temperaturas elevadas às vésperas do Natal levaram 450 pessoas
por dia a unidades municipais de saúde. O secretário municipal da área, Daniel
Soranz, contou que a maioria dos atendimentos se relacionava a queimaduras de
segundo e terceiro graus provocadas pela exposição ao sol. Os riscos às pessoas
com comorbidades, crianças e idosos são apontados diuturnamente pelos
especialistas. Quem trabalha, circula, se submete às temperaturas extremas está
em perigo. As praias, ocupadas até a madrugada, chegaram ao ponto de
inviabilizar o trabalho de limpeza da Comlurb. O prefeito Eduardo Paes foi às
redes sociais pedir a colaboração dos banhistas.
A estação do turismo traz oportunidades de
trabalho, renda, atividade econômica. E abusos — no plural. A praia inflacionou
em todo o litoral brasileiro. Há um par de anos, ganhou ímpeto nas redes o
repúdio a uma proposta de legislação que transferiria a estados, municípios e
ao setor privado a propriedade dos terrenos de Marinha, faixas de terra de
orla, rios e lagos influenciadas pelas marés. A perspectiva de cerceamento do
acesso público às áreas fez os brasileiros se levantarem contra a tal PEC das
Praias. Parafraseando o poeta Castro Alves: “A praia é do povo como o céu é do
condor”.
Não é aceitável que brasileiros e
estrangeiros sejam constrangidos ao recusarem, roubados ao consumirem,
agredidos ao questionarem o abuso dos empreendedores da areia, formalizados ou
não, como tem acontecido em balneários do Sudeste e do Nordeste. Governadores e
prefeitos, sobretudo no Rio, adoram anunciar, quando a primavera se aproxima,
operações de segurança pública para pôr ordem nas praias na estação seguinte.
Tratam basicamente de efetivo policial suficiente para inibir a chegada de
moradores de áreas periféricas aos territórios de IPTU mais alto, que recebem a
brisa do mar.
Na rádio CBN, uma ouvinte elencou estratégias
que vem usando para obter um tanto de conforto térmico sob o sol que, nesta
semana, produziu máxima de 41,4oC em Santa Cruz, na Zona Oeste. Ela entra em
agência bancária, farmácia, hipermercado, shopping center refrigerados.
Especialistas também já sugeriram museus e cinemas. A Cedae tem distribuído
água gelada em áreas de grande circulação.
A preocupação com moradores em situação de
rua é imensa, bem como com trabalhadores de ofício ao ar livre. Protetor solar,
chapéu, boné, roupas com proteção UV tornaram-se itens de primeira necessidade.
Energia elétrica e abastecimento regular de água já eram. Mas a falta de luz
recorrente, que sempre exauriu moradores de áreas de menor renda, agora tortura
até quem vive nos bairros da elite carioca — os geradores espalhados pelo Leme,
na Zona Sul, não deixam dúvidas.
A desigualdade que marca a sociedade se faz
presente também no calorão. Passageiros sofrem no transporte público, alunos
sucumbem em salas sem refrigeração. O Ministério Público conseguiu na Justiça
que o governo do Rio apresente em até 60 dias — e implante em 30 — um plano
contra a precariedade térmica nas unidades de ensino. Por aqui, a aprendizagem
é afetada pela violência armada, pela insuficiência de vagas e pessoal e,
agora, até pelo calor. A Redes da Maré, ONG com atuação nas 15 comunidades do
bairro, apresentou um conjunto de propostas para viabilizar os 200 dias letivos
em favelas, como manda a lei. De 2016 até o ano passado, estudantes da Maré
perderam 163 dias em razão de confrontos a bala, sobretudo, operações
policiais. A injustiça climática é ameaça adicional.
Sete dezenas de árvores adultas foram
arrancadas do terreno do extinto Instituto Bennett, no Flamengo, para dar lugar
a um residencial. O que era verde virou deserto. No mesmo mês, a Prefeitura do
Rio lançou, via serviço 1746, a solicitação de plantio de mudas. Em 15 dias, o
número de pedidos somou metade da média de um ano, mil ligações. Os campeões
foram bairros da Zona Norte, conhecida ilha de calor da cidade. A população
demonstra saber que não dá para ser feliz sob calor extremo. Este ano tem
eleição.

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